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Crítica | Lazzaro Felice: A Santidade da Pureza em um Mundo de Cinismo






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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




Há filmes que surgem como uma expansão da consciência no exato momento em que nos damos conta de que o cansaço físico e mental se tornou a métrica comum da contemporaneidade. Vivemos a exaustão de um esvaziamento espiritual e coletivo, onde as relações se tornaram transacionais, utilitárias, e a natureza humana, que deveria ser conciliação e reciprocidade, desvia-se para a destruição do bem comum. Diante dessa aridez, a cineasta italiana Alice Rohrwacher nos abre a possibilidade de refletir sobre nossa essência por meio de um personagem que transcende a figura humana para se tornar uma força: um ponto de luz em meio à escuridão. Ele se chama Lazzaro.








Em Lazzaro Felice (2018), a diretora nos conduz por uma jornada que atravessa o tempo, mas que se ancora, fundamentalmente, na imutável natureza de seu protagonista. Interpretado por Adriano Tardiolo, Lazzaro é uma representação da doçura e da bondade em estado bruto, um ser de luz singular. No ambiente de exploração da fazenda Inviolata, sua figura emerge como uma presença de resistência espiritual, não pelo confronto, mas pela total incapacidade de conceber a astúcia.



Além de ser vítima desta engrenagem de semiescravidão da Marquesa de Luna, Lazzaro é transformado em uma máquina de servir por camponeses que, embora também oprimidos, não hesitam em exercer seu próprio oportunismo sobre ele. O chamado constante por seu nome denuncia o abuso contra quem se entrega sem reservas. Ele é uma figura radical: sua falta de malícia é sua força, pois o diferencia da multidão, mas é também sua vulnerabilidade diante de um sistema que só compreende a linguagem da utilidade.








A passagem do campo para a cidade moderna revela que a miséria apenas muda de forma. A raiz ancestral e o pertencimento do povo italiano simples dão lugar a uma marginalidade urbana onde as fraturas sociais permanecem visíveis. Contudo, o filme envolve essa aspereza com o realismo mágico e uma união poética entre os despossuídos. Há uma italianidade natural que preserva um senso de humor peculiar e momentos de leveza, lembrando-nos de que, mesmo na escassez, a dignidade sobrevive no afeto.








Essa atmosfera é sustentada visualmente pela fotografia em 16mm que, apoiada em cenários bucólicos e belíssimos, eleva a obra a uma dimensão atemporal e sagrada. É nesse terreno que o sobrenatural se manifesta de forma sublime, em pequenos sinais poéticos que sugerem a presença do milagre no cotidiano.



Lazzaro caminha pela cidade como uma entidade solitária, um destino natural para qualquer ser iluminado que habite um mundo hostil. Sua trajetória não é uma imprudência espiritual, mas um lembrete necessário. O desfecho nos convoca a uma autorreflexão sobre nossas formas de exploração e acolhimento, revelando que é na persistência dessa luz que encontramos a possibilidade de nos tornarmos humanos melhores, mesmo diante da ingratidão e da violência sistêmica.







Imagens. Divulgação filme.

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