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Crítica | A Fuligem da História: Memória e Resistência em Cheiro de Diesel

 



Lançamento nos Cinemas: 02 de Abril


#CheiroDeDiesel #CinemaDeResistencia #DocumentarioBrasileiro #MemoriaEHistoria #CulturaEmDebate




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




A memória de um país precisa ser constantemente lembrada, não como se estivéssemos presos a um museu, mas como uma forma de combate, resistência e reflexão sobre até que ponto vivemos em uma democracia plena ou ainda estamos distantes dela. No documentário "Cheiro de Diesel", mais do que necessário e sobre um tema ainda pouco falado, qualquer brasileiro deveria conhecer e fazer um exercício de alteridade sobre as cicatrizes da militarização nas favelas do Rio de Janeiro. Ao investigar um período histórico de violações de direitos humanos, a obra nos confronta com o odor persistente de um sistema que, sob o pretexto da ordem, muitas vezes sufoca a justiça e a dignidade básica.



Sob a direção criteriosa de Natasha Neri (de Auto de Resistência) e Gizele Martins (jornalista e voz fundamental da Maré), o longa se estabelece como um cinema de denúncia e resistência, essencial para situar a cinematografia documental brasileira em um lugar de enfrentamento. Distribuído pela Descoloniza Filmes, a obra percorre do passado ao presente, entre o resgate histórico do Golpe de 1964 e a ocupação militar estratégica durante os grandes eventos de 2014 e 2016, revelando que as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) deixaram traumas permanentes.








Neste contexto, o documentário expõe como o silenciamento, longe de ser apenas uma imposição sistêmica, funciona como uma morte em vida. Este é um fenômeno que transcende fronteiras geográficas: é o silenciamento geral de quem sofre a violência e de quem, acuado, teme resistir. Ao dar visibilidade a relatos que a justiça militar muitas vezes tenta ocultar, Neri e Martins transformam o cinema em um palco de reparação histórica. A busca por reparação é o fio condutor de uma narrativa corajosa e urgente. O filme nasce dessa luta para dar voz às famílias. Ele expõe como os obstáculos institucionais e a falta de acesso à informação na justiça militar perpetuam a ausência de reparação e a invisibilidade da dor.








O documentário é extremamente corajoso e consciente, equilibrando sua força de denúncia com uma vulnerabilidade emocional profunda ao considerar os traumas familiares deixados pela militarização. Há um grande potencial para que novas obras explorem as realidades territoriais no Brasil sob essa ótica. Ainda assim, a única oportunidade de melhoria reside na busca por imprimir um formato cada vez mais cinematográfico e menos televisivo; tendo em vista que os registros de arquivo são, em grande parte, oriundos de coberturas jornalísticas, há uma influência natural desse aspecto audiovisual na montagem, o que é esperado, mas que desafia o gênero a buscar uma estética ainda mais autoral.



A opressão provocada pela obra reside na constatação de que esta não era uma guerra contra o narcotráfico, mas uma ocupação que colocou trabalhadores, mulheres, crianças e idosos sob eterna suspeição. Sensorialmente, o "cheiro do diesel" se materializa em zooms de botas militares, fuzis e tanques, em imagens que revelam buracos de bala nas paredes de lares onde ninguém está protegido. O filme equilibra bem o tempo de tela entre a denúncia política e os relatos de vítimas, como o luto permanente de quem não tem direito à justiça e ainda teme retaliações semelhantes às sofridas por Marielle Franco.








Por fim, Cheiro de Diesel nos desafia a refletir sobre o real valor da cidadania no país. Ao traçar um paralelo doloroso com zonas de conflito urbano, a obra rompe a ilusão de que "está tudo bem" em nossos lares enquanto o vizinho é sufocado pela violência institucional. Mais do que um registro sobre o Rio, o filme é um alerta sobre a fragilidade democrática em que habitamos e nos interroga se já nos acostumamos com o odor da injustiça que impregna o tecido social brasileiro. É um cinema que não apenas se vê, mas que se sente como uma convocação à consciência.




3,5




Imagens Descoloniza filmes. Divulgação.

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