sábado, 31 de outubro de 2015

Mostra SP: O quarto proibido (The forbidden room, 2015), de Guy Maddin e Evan Johnson

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
Acompanhe!



Por Cristiane Costa


O quarto proibido (The forbidden room) é um  daqueles filmes que levam o público para uma viagem rumo a um mundo fantástico de narrativa não linear. Da estética ao roteiro, passando por personagens que são como abstrações de um sonho alucinante, Guy Maddin e Evan Johnson realizam uma produção ame ou odeie, pelo menos, foi perceptível notar isso pelo número de pessoas que saíram da sessão. No roteiro, tripulantes de um submarino encalhado no mar começam a ter privação de oxigênio e enfrentam medos. Surgem variados fragmentos que trazem elementos como amor, desejo, morte, entre outros, resultando em um longa estranho que bebe na fonte de referências como o Surrealismo, o Expressionismo alemão, o Cinema mudo e noir, além de se apoiar em uma montagem totalmente fragmentada e alucinógena.











É uma estética densa e ousada para um filme realizado em 2015 e com uma proposta metalinguística  que lembra muito o Expressionismo alemão, portanto, para assistir ao longa e aproveitar o que ele tem de melhor, tem que vê-lo quando estiver no humor exato, do contrário a experiência será meramente de observação estética e não de envolvimento pleno com a obra. É recomendado assisti-lo quando está disposto(a) a uma jornada exaustiva (130 minutos) que deixa inúmeras possibilidades de interpretações abertas, com muita linguagem não verbal . A estrutura é confusa e nada sequencial, além de se caracterizar por uma extravagante estética, bem surreal  e noir. Assim, será natural, ao ver a bela Clara Furey  como a sensual Margot e a exótica Maria de Medeiros como a mãe cega, associá-las  às misteriosas figuras femininas do Cinema clássico Alemão de Georg Wilhelm Pabst ou, nos personagens como o de Mathieu Amalric que lembram homens deformados pela monstruosidade, rapidamente  pensar nas referências cinematográficas de F. W. Murnau, Robert Wiene e Fritz Lang e obras clássicas de personagens diabólicos como Nosferatu  e Dr. Jekyll and Mr. Hyde.








Entre um de seus aspectos relevantes é a base narrativa do expressionismo alemão do qual Guy Maddin é um admirador e entusiasta. Embora pareça estranho, insano e incômodo dada a sua não linearidade, é um longa que usa vários gêneros entrelaçados em suas mini-histórias, então há comédia, horror, romance e drama. Também é um filme bastante emocional, mesmo que essas emoções não sejam facilmente absorvidas pelo espectador pois, no geral, são emoções atormentadas em muitos fragmentos e com um excesso de cortes na montagem. Em outras palavras, o filme tem a carga emotiva do expressionismo mas não necessariamente ele emociona fácil e acaba sendo mais uma experiência estética do que de catarse de emoções. Com relação ao elenco, todos os personagens carregam uma perturbação psicológica muito comum no Expressionismo alemão. São atores bem teatrais em cena com destaque para Roy Dupuis, Mathieu Amalric e Clara Furey. Além do mais, uma das atrações é o elenco francês que, infelizmente, teve participações meteóricas e poderiam ter sido melhor aproveitadas, entre as quais a de Geraldine Chaplin e de Charlotte Rampling.









De maneira geral, há outras inúmeras referências da vanguarda cinematográfica alemã, principalmente o visual extravagante, o clima de tormento e a questão do enfrentamento dos medos. O diretor também usa cores fortes e quentes, baixa iluminação e efeitos visuais que apresentam uma atmosfera fantasmagórica como o inferno ou um pesadelo e o grotesco. Em um dado momento, até o Döppelganger (o duplo) é claramente colocado em cena e algumas intenções do diretor ficam mais claras.  Desta forma, metaforicamente e em uma das possíveis interpretações, o quarto proibido é como aquele cômodo que a gente não quer entrar por medo mas que é chegada a hora de entrar. Encarar a memória, o sonho, o espelho, o duplo,  a emoção, a morte, o inferno,  a nos mesmos. É expressionismo  em pleno século XXI.






Ficha técnica do filme ImDB O quarto proibido

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