sábado, 24 de outubro de 2015

Mostra 2015: Sob nuvens elétricas (Pod elektricheskimi oblakami / Under Electric Clouds - 2015), de Aleksey German JR

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
Acompanhe!






Por Cristiane Costa



Após a Guerra Fria e o declínio da ex-URSS, o Cinema Russo tem em seu presente um espaço narrativo para realizar novos filmes existencialistas e entrelaçar as feridas do passado e as incertezas do futuro. Sob nuvens elétricas (Under Electric Clouds), de Aleksey German Jr, uma coprodução Rússia, Ucrânia e Polônia e vencedor do Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (Contribuição Artística Extraordinária)aborda uma visão existencialista, impressionista e emocional do diretor, mais enfocada na junção da Fotografia e expressões artísticas na mise  en  scène do que na apropriação de um roteiro que tem uma história linear a ser contada. É um longa que dá impressões de como as pessoas se sentem em um país que tem uma história de fragmentação geográfica, social, econômica e política, principalmente nos paradoxos que são alimentado por estas memórias brutais. A narrativa em si não é graficamente violenta, mas existe uma angústia natural e um clima depressivo, psicologicamente violento.





Ambientada em 2017, cem anos após a Revolução Russa, a paisagem é desolada, fria e deprimente. Nem mesmo os objetos de arte, o excelente senso estético e fotográfico causam ânimos durante a projeção e possibilita um envolvimento mais passional com o longa. A ideia do argumento é mais reflexiva e impregnada de paradoxos comuns a um país que falhou e foi destruído.  Os componentes da narrativa são fragmentados, como por exemplo, um homem estrangeiro que, próximo ao mar congelado, tem um ímpeto de violência. Posteriormente, se vê sozinho em uma cidade cujo idioma não domina e mal consegue pronunciar palavras básicas. Em outro momento, uma garota é sequestrada por mafiosos em uma periferia tomada pela violência. A história também menciona outros personagens que vivem em um anonimato entediante. Da elite ao marginal, todos tentam manter o pouco de identidade e dignidade que sobrou, entre os quais, um intelectual que trabalha em um museu, realiza tours turísticos e não tem paixão e nem vê mais sentido no que faz. 






A depressão está na existência e na economia decadente. Neste contexto,  2017 chegou mas com ele chegaram problemas maiores. É interessante notar que são existências pela metade, destruídas. Pessoas que mal se compreendem, que perderam parte de sua identidade. Há poucos personagens, todos projetados aleatoriamente e expressam questões como a guerra, a morte, as perdas, a identidade, o dinheiro e a política. Tudo bastante metafórico, tênue e verbalmente pouco dito, portanto, uma viagem existencialista que propicia uma jornada de compreensão intimista para cada espectador. Nisto está uma das principais contribuições do longa: seus personagens e direção. Aleksey German Jr mostra um Cinema como um campo narrativo de histórias que não precisam ser integralmente ditas através da palavra falada. Aqui, a imagem é o canal de comunicação e de expressão dos vazios existenciais deixados pela História. Por outro lado, com relação ao roteiro, ele é confuso à medida que trabalha com muitos paradoxos e metáforas, reforçadas por tomadas e edição fragmentadas. O cineasta poderia ter sido um pouco mais simples, objetivo a partir da metade da narrativa.


                                   

Artista: trabalho de Antonina Fathullina para o filme



Existem cenas non sense e bem ficcionais que exigem que o público contextualize as emoções em um escopo bem maior: o fim da guerra fria e a questão de identidade em uma Rússia abandonada. É muito mais um Cinema Arte, um exercício cinematográfico que depende muito da Fotografia e do entendimento da história do país, logo não agrada facilmente e exige releituras e novas descobertas a cada sessão.  No geral, Sob nuvens elétricas é melancólico e transita entre duas estações do ano, o inverno e o verão que funcionam como gradações de um tempo narrativo, assim como propiciam uma experiência inicialmente mais fria, densa e introvertida para, depois, abrir uma janela para a esperança e a continuidade de uma vida que deve seguir em busca de um novo caminho, mais harmônico, construtivo e sereno.  




Ficha técnica do filme ImDB Sob nuvens elétricas 



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