quinta-feira, 25 de junho de 2015

Minha Querida Dama (The Old Lady), de Israel Horovitz

 




Por Cristiane Costa


A inter-relação entre o Cinema e o Teatro na realização de um filme é um approach convidativo. Embora exista alguma resistência dos puristas teatrais na qual uma peça é  uma peça e tem que ocorrer sempre no grande palco, há lugar para todos. A metalinguagem é um poderoso recursos de contação de histórias que oferece um campo diverso e amplo para a criatividade e interação das referências da ARTE e suas múltiplas manifestações. Ver uma peça ganhar vida no Cinema é como ampliar o seu acesso ao público e valorizar a sua fonte original, o TEATRO, assim pessoas passam a conhecer uma obra e a desejar vê-la no palco.
 






Ainda que haja direções de filmes adaptados de peças teatrais que pouco alteram o desenvolvimento da narrativa e reproduzem teatro vendido como Cinema, surgem surpresas neste exercício metalinguístico que demonstram como reunir Teatro e Cinema é uma enriquecedora experiência advinda de especiais e experientes artistas. Este é o caso do primeiro longa-metragem de Israel Horovitz, "Minha Querida Dama" (The Old Lady) que tem bastante background no Teatro e adapta esta peça, primeiramente lançada em 2002 em Nova York. Diferente de filmes que concentram as atuações em um espaço reduzido que bebe da fonte das mesmas regras cênicas do teatro, Horovitz atua com maior liberdade fílmica e utiliza Paris em mais uma bela aparição da Cidade do Amor, onde há esperança de dias melhores, mais amorosos. Horovitz convida  grandes atores como Kevin Kline, Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, Dominique Pinon  para esta agradável tragicomédia, com destaque para Kline e sua excepcional e híbrida trajetória no Cinema e Teatro, experiência que está presente na forma que ele atua aqui,  única.





"Kevin tem instintos maravilhosos como ator”, insiste Horovitz. "Ele tem uma habilidade misteriosa de oferecer a um diretor variações de uma mesma cena – uma mais leve, outra mais pesada, porém sempre verdadeira." (Israel Horovitz)
 



O filme conta a história de Mathias Gold (Kevin Kline) um  homem nova-iorquino de quase 60 anos que viaja para Paris com o objetivo de vender um apartamento recebido de herança, voltar aos USA e quitar suas dívidas.  Ao chegar lá, encontra uma senhora inglesa de 92 anos chamada Mathilde Girard (Maggie Smith). Refinada e com saúde de ferro, ela vive no apartamento, que é um viager(*), e só poderá desocupá-lo quando falecer por conta desse contrato legal na França. Para piorar a situação, Max, o falecido pai de Mathias, comprou o imóvel como um viager e ainda o pagava à Mathilde, portanto, Mathias herdou dívidas.  Ele começa ter conflitos com ela e sua filha Chloé (Kristin Scott Thomas), assim como seus problemas emocionais e financeiros se intensificam. Ele  se sente um derrotado, um completo "loser" , sem dinheiro e com diversos débitos, além de carregar um drama mal resolvido relacionado à rejeição paterna.





"Eu quis uma realidade específica para Mathilde — Eu não queria que o público sentisse que houvesse algo entre a personagem e eles" (Israel Horovitz)


Na estreia do roteirista e diretor Israel Horovitz em longas, o maior mérito é na direção de atores. Quando um diretor tem entendimento do poder interpretativo de um ator, as falhas do roteiro se dissolvem e o que poderia ser um problema é facilmente ocultado por uma performance espontânea e eficiente. Neste caso,  o elenco imbatível e altamente experiente sustenta o interesse pela história que, em teoria, não apresenta algo  tão novo, exceto a problemática de um contrato Viager para um americano como Mathias.  No geral, quantas histórias de loser e questionamentos sobre o passado e suas dores ainda presentes existem no Cinema? Quantos conflitos por patrimônios espantam relacionamentos que poderiam dar certo ? Quantos sentimentos de impotência, arrependimento, medo e rejeição surgem quando a derrota afugenta os bons sentimentos ? Muitos!  Tudo isso faz parte do drama cômico desempenhado fortemente por Kevin Kline. Sua versátil habilidade de atuar faz a diferença. Atua com "os pés nas costas" tamanha a sua facilidade de ser engraçado e trágico ao mesmo tempo. Ele é o tipo de ator que ri da própria desgraça. Seu personagem tem este nível de sarcasmo e sua frustração é tanta a ponto de jogá-lo em um poço que tem uma luz no fundo, afinal, o filme ocorre em Paris e seu destino precisa ser mais afetivo.  Os dramas cômicos não são tristes na essência, eles trazem alguma esperança.


O roteiro acaba escapando do conflito do imóvel "viager" e amplia a história para uma discussão do passado de Mathias e de Mathilde.  Na verdade, a história deveria ter aproveitado mais o ritmo cômico com relação ao valioso apartamento, inicialmente muito bom, mas opta pelo polo dramático, e posteriormente, no romance, transitando entre gêneros. Mathias é um homem que chega no auge dos 60 anos com problemas que deveriam ter sido resolvidos quando ele tinha 40. Em algumas cenas, o roteiro se enforca em uma discussão existencial de um homem que deveria ter feito terapia e que está chorando como um garoto, não como um homem. Prefere culpar os outros por suas próprias infelicidades do que lidar com isso de uma forma madura. Existe um enrosco no fluir do texto nesta parte, no entanto, o longa continua mood agradável.







 Apesar da história expor a crise do homem mais velho, sem trabalho, sem dinheiro e desesperado para conseguir vender um apartamento, o grande presente aqui é o relacionamento desenvolvido entre Mathias e Mathilde no qual vem à tona segredos e desabafos. Maggie Smith interpreta uma senhora bastante culta e interessante que, dada a sua condição de idosa, ela usa de seus diversos conhecimentos, talentos e redes de contatos para garantir a sua sobrevivência e a da filha. Esta caracterização muito pessoal de Mathilde faz dela um senhora que vale a pena conhecer, aquele tipo de senhora que tem algo a acrescentar, que leva a vida com leveza e esperteza apesar dos longos anos vividos.  A fantástica atriz usa pouca maquiagem, não usa peruca  e mantém a naturalidade de sua aparência,escolhas bem alinhadas com o diretor, que deseja uma "Mathilde" real e crível.  



Kristin Scott Thomas, mais durona em seu personagem, também é rendida por este clima de uma amizade em evolução, que nasce a partir do conflito. A atriz, que também trabalhou com Kevin Kline em Irwin Winkler Life as a House (2001) e com Maggie Smith em Assassinato em Gosford Park (2001) e De bico calado (2005) está muito à vontade e em sinergia com seus colegas. Seu personagem também tem um arco dramático convincente à medida de que se apresenta como uma mulher com uma casca dura , dura de lidar, e depois, se solta na interação com outros personagens. É possível perceber que ela também sofre com seus dramas particulares e silenciados por si mesma. Finalmente, os três personagens são interdependentes para o desenrolar de grande parte do filme, o que garante uma charmosa diversão. Como forma de ressaltar que Teatro e Cinema é uma adorável combinação, tanto Kevin Kline como Maggie Smith têm boa experiência em teatro, logo sutilezas na atuação e elegância são misturadas com senso de humor aderente ao drama, e principalmente, carisma e versatilidade.


 
 






(*)

Viager: um plano de financiamento bem estabelecido na França, o qual permite o proprietário receber parcelas pela venda do imóvel até sua morte. (É mais comum um proprietário com mais de 70 anos optar por tal transação.) O viager é mais vantajoso para um comprador que tem interesse em investir numa propriedade e não em morar na mesma. Fonte: press book - Minha querida dama, Califórnia Filmes

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