sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pas son genre / Not my type (2014), de Lucas Belvaux




Por Cristiane Costa


Relacionamentos amorosos e suas (im)possibilidades é um amplo e fértil campo para fazer filmes e cultivar um hábito de desenvolver uma consciência sobre o Amor e seus variados desdobramentos e complexidades. Na literatura Francesa contemporânea, o autor Philippe Vilain é experiente em abordar o Amor através de diversos enfoques como o ciúme ("L'Entreinte", 1997), o adultério ("Paris l'après-midi", 2006) , a diferença de idade ( L'Eté à Dresde", 2003). Em Pas son genre, roteiro adaptado de seu romance de igual nome pelo diretor Lucas Belvaux, a história fala sobre um relacionamento amoroso que floresce entre duas pessoas com diferenças de nível cultural e social: Jennifer (Émilie Dequenne) e Clément Le Guern (Loïc Corberty de la Comédie  Française).


Clément é um professor de Filosofia no Ensino médio e vive em Paris. Frequentador de bons e descolados lugares e averso a manter relacionamentos amorosos por longo tempo, ele é o tipo de homem solteiro, sem filhos, estiloso, bem nascido e Parisiense por natureza. Clément é enviado para dar aulas no interior da França, em Arras. Inconformado com a decisão, ele aceita o trabalho e é destinado a permanecer um ano por lá. Seguindo uma rotina entediante longe de Paris, sua vida muda quando ele conhece a cabeleireira Jennifer. Mãe solteira, Jennifer é uma mulher bonita, radiante e alegre, que acredita no Amor e gosta de cantar em bares com seu grupo de amigas.  Ambos se apaixonam e curtem a relação.




 

Muito mais do que uma comédia romântica graciosa com a leveza e ligeireza do Cinema Francês,  Pas son genre é uma comédia dramática de duas pessoas que se apaixonam e são bem diferentes. Junto com  o clima agradável da comédia, há uma aura melancólica na relação que tem muito a nos fazer pensar sobre as inviabilidades de um romance. O drama do amor está esmiuçado em situações bem simples que marcam suas diferenças de ideias, de objetivos de vida, de nível social e cultural. Porém, o maior dos dramas é o de tentar ser feliz em um relacionamento quando, nem sempre, a outra parte está engajada a fazer dar certo ou não consegue oferecer nada além de uns encontros sexuais e sem qualquer objetivo de construir um relacionamento duradouro. 
 

Jennifer é a mulher que chegou àquela bifurcação da vida na qual não quer escolher o mesmo tipo de homem indeciso e descompromissado. Está disposta a tomar uma atitude de autoconfiança e autoestima e parar de buscar o amor em homens que não podem lhe oferecer um relacionamento completo. De repente, surge Clément. Disponível, boa pinta, inteligente e com ótima química sexual, ela coloca em prática a ilusão do Amor. Por mais clichê que seja observar Jennifer, uma mulher bela, divertida, independente e trabalhadora tão aberta ao amor como se fosse uma adolescente romântica, o que faz a diferença aqui é a boa atuação de Émilie Dequenne, o melhor do filme. Ela teve carisma para trabalhar com um texto pobre e que infantiliza Jennifer. Há cenas que dão vontade de rir exatamente porque sua personagem é adorável mas vive em um planeta cor de rosa. Se o filme não fosse ficção, ela teria levado um fora de Clément na primeira tentativa de agir como uma teen girl.


 





O filme pincela cenas com a diferença sócio-cultural entre ambos. Sendo ele filósofo, mais  blasé, cínico e seco,  seu perfil faz um contraponto com a natureza adorável, simpática e espontânea de Jennifer, uma mulher que adora cantar em karaokês, lê revistas sobre fofocas de celebridades e se veste vulgarmente. De cara, por mais que haja química e Clément esteja ali em Arras privado de seus amigos e com uma nova companhia, este casal chegaria a uma situação de esgotamento do relacionamento. Sutis atitudes demonstram que ele deseja "educá-la" com outros livros complexos, que tem medo de expor que não acredita muito no romance tradicional, que está atento à forma como ela se veste, os lugares que frequenta e como se porta. Jennifer não abre mão do jeitinho de primeira namorada que continua agindo como uma adolescente, assim como tenta não pressioná-lo muito a trata-la como namorada, fica triste e angustiada. Fica evidente de que ela merece um homem capaz de atender a sua crença no amor romântico.  Clément não  tem este perfil.





 


O romance tem desenvoltura no plano da fantasia amorosa. Ambos os atores são bonitos e tem química sexual, o que rende envolventes cenas. Na primeira noite de amor de Jennifer e Clément, a intensidade do desejo, o romantismo no toque e nos beijos e a energia  são incríveis e muito bem conduzidas em cena. Apesar das flores, a história também carrega os espinhos do amor. Há um mal - estar constante,  o de suas diferenças. Com isso, a narrativa é construída para marcar essas diferenças sem oferecer muito espaço para que sejam assertivamente discutidas pelos protagonistas. Quando elas são verbalizadas no texto, o conflito não é bem desenvolvido. Como consequência, o filme joga o espectador em uma história que carrega a frustração de romances nos quais os casais também não conseguem discutir a relação.






A complexidade do Amor x  nosso jeito de ser e escolhas individuais é o principal traço interessante aqui. Clément não é um homem cafajeste, vilão. Ele apenas tem princípios morais diferentes com relação ao Amor. É como um homem que não abriria mão de viver em uma cidade urbana para viver no interior por causa de um romance, um homem que não está preparado para conhecer o filho de uma amante que é mãe solteira, um homem que se identifica com Paris.  A sua indecisão é incômoda. Ama ou não a Jennifer ou é uma questão de sexo bom e agradável companhia? Em algumas situações, a covardia de  falar a verdade  a ela lhe é uma característica presente, no entanto, é um indecisão que faz parte do jogo do amor e da vida. Uma mulher também pode ter principios claros que norteiam seu estilo de vida, como não abrir mão da carreira por causa de um homem e, ainda assim, estar apaixonada e desejar permanecer com ele.





 
Ainda que seja uma relação condenada a não evoluir, a grande falha da adaptação do filme é não ter desenvolvido muito a perspectiva de Clément  sobre a diferença cultural e seus dilemas morais para desenvolver esta relação. Considerando que o livro original é narrado em primeira pessoa e o personagem tem mais liberdade para dizer o que pensa, o roteirista teve os cuidados para não expor uma história que leva a  preconceitos entre classes sociais abertamente tratados em cena, e portanto, por inabilidade ou tomada de decisão não desenvolveu o personagem de Clément, que poderia muito contribuir para compreender esta obra. Lucas Belvaux transforma o filme em uma comédia romântica mais "bonitinha" com o uso dos velhos clichês nos quais o homem é a parte indecisa e passiva na relação e a mulher é a parte mais graciosa e frustrada. O resultado final dá a impressão de que o livro  tem muito mais a oferecer sobre este tema.


Se relacionar com uma pessoa de nível social e cultural e de objetivos tão diferentes de nós traz incômodos naturais que podem ou não ser superados. O filme não vai dar as respostas, depende de cada situação, do tempo, do Amor. No conflito entre Jennifer e Clément, aquele sol que brilhava no romance é encoberto por nuvens escuras, trovões, raios e previsões de chuvas torrencias.   É essa dinâmica de drama - comédia - romance que faz de Pas son genre uma graça. É simples, charmoso e engraçadinho. Seu lado romântico cor de rosa traz a melancolia que  se sente quando o Amor é um bicho complicado de lidar.


 




Ficha técnica do filme ImDB Pas son Genre

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