terça-feira, 16 de junho de 2015

Festival Varilux de Cinema Francês 2015: O que as Mulheres Querem (Sous les jupes des filles) , de Audrey Dana





O que as mulheres querem (Sous les jupes des filles, 2014) é o primeiro longa-metragem de Audrey Dana e traz uma comédia apenas com personagens centrais femininas. No total são 11 mulheres em situações relacionadas à carreira, amor, casamento, saúde, entre outros. Embora bem intencionado para tratar questões cotidianas sobre o universo feminino e ter um elenco de ótimas atrizes como Isabelle Adjani, Vanessa Paradis, Laetitia Casta, Julie Ferrier e Sylvie Testud, o filme se perde em sua própria ambição de trabalhar com diversas histórias que não se conectam verdadeiramente com o público.


Ainda que se trate do primeiro filme e há uma inexperiência natural da cineasta para orquestrar cenas que falam pela emoção e com sinceridade sobre mulheres, o roteiro emenda histórias que, em si, pouco desenvolvem os personagens e que poderiam ter melhor significado prático para a compreensão do público, principalmente o feminino.  O roteiro é extenso e a edição é costurada sem efetivos ganchos que apreendem a atenção e mantêm o vínculo com cada personagem. Tanto que qualquer uma destas histórias poderia ser retirada do texto e não faria qualquer diferença. Não conquistam. Não permanecem. A grande ironia de "O que as mulheres querem" é que roteiristas e diretora não sabiam o que elas querem. Se soubessem, o resultado seria mais positivo. Com isso, o longa se arrasta por quase duas horas, com um desperdício de subtemas e atrizes. Um exemplo claro disso é o trio de boas atrizes dramáticas como Isabelle Adjani, Julie Ferrier e Sylvie Testud que têm personagens extremamente pequenos e subutilizados.








À luz dos dilemas da evolução da mulher na sociedade, duas tentativas que poderiam ter sido melhor elaboradas são relacionadas a personagens Rose e Ysis . Rose (Vanessa Paradis), uma executiva que , embora cercada de homens no escritório, tem a vida solitária e pouquíssimos vínculos como familiares e amigos. Na tentativa de mudar sua rota de relacionamentos, ela começa a baixar a crista e retomar amizades. Ysis (Geraldine Nakache) é uma dona de casa, pouco vaidosa e com um marido galanteador. Ela se envolve em um relacionamento homossexual e muito pouco do seu dilema é desenvolvido. Desta forma, o filme é uma bonita colcha de retalhos à primeira vista mas não aquece o coração. 







Falar sobre desafios diários como "manter um casamento", "ser sexualmente atrativa e ainda cuidar de quatro filhos", "ter desejo por outras pessoas, inclusive do mesmo sexo", "resgatar ou manter o vínculo afetivo com amigos, conhecidos e familiares", "lidar com a autoestima", "lançar-se em um novo relacionamento" etc são temas recorrentes em vários filmes. A diferença é que, ao propor um filme sobre mulheres, é necessário entender como elas funcionam, como se conectar com elas (e também com os homens) em cenas que  conquistem pela honestidade, como ser um bom contador de histórias que dê conta da complexidade que é falar do sexo feminino em uma narrativa simples, leve e bem humorada. Aqui, são poucas as cenas que existe esta sinceridade. Por mais que se dê um crédito a um longa de estreia, a experiência é cansativa, frustrante e sem ritmo. 



É importante ressaltar que pulverizar histórias com poucos personagens seria uma estratégia mais objetiva e potencialmente bem sucedida.  O risco de trabalhar com n histórias e não dizer muita coisa é um risco previsto para cineastas sem muita experiência em direção, tanto que, até os mais experientes, também têm que ter uma sólida habilidade para montar um filme com elenco central maior. Agregar como a mente de uma mulher funciona torna o desafio cinematográfico bem arrojado. Desafio e dom para poucos.


 




 Ficha técnica do filme ImDB O que as mulheres pensam


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