quarta-feira, 17 de junho de 2015

Na próxima, acerto no coração (La Prochaine Fois Je Viserai le Coeur), de Cédric Anger. Com trechos de entrevista de Guillaume Canet.


Previsão de estreia no Brasil: 13/08/2015
Um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês de 2015 . 




Por Cristiane Costa



Depois que novos trabalhos de Guillaume Canet desembarcaram no Brasil,  "O homem que elas amavam demais" no circuito comercial e "Na próxima, acerto no coração" durante Festival Varilux de Cinema Francês, fica mais evidente que Canet é um ator sob medida para interpretar homens dissimulados, sedutores, perigosos e psicologicamente transtornados. Seu excelente desempenho mantém o je ne sais quoi  da elegância Francesa com a  experiência como ator e diretor e aura misteriosa e intrigante de um personagem ambíguo.  








No filme dirigido por Cédric Anger e baseado em história verídica de Alan Lamare, o "Assassino de Oise", o roteiro, também escrito pelo diretor, é resultado de uma pesquisa documental de testemunhas, atas de processos, cartas do assassino e no livro Un assassin au-dessus de tout soupçon (Um assassino acima de qualquer suspeita) de Yvan Stefanovitch.  Guillaume Canet é Franck Neuhart, um  policial militar  (gendarme) da cidade de Oise, na França, que vive sozinho, eventualmente visita sua família e tem um affair com Sophie (Ana Girardot). Entre 1978 e 1979, um onda de crimes aterroriza a cidade e espalha medo e angústia. Jovens garotas são assassinadas após pegarem carona com um desconhecido. Franck se empenha vigorosamente em investigar os homicídios, no entanto, de forma bizarra, ele é o próprio maníaco. Por trás de sua discreta postura, disciplina profissional e habilidades de treinamento em guerra, Franck é um serial killer que escolhe suas vítimas aleatoriamente, troca de carro a cada crime e não pode se conter, as executa friamente. Também, tem crises de autoflagelação e um comportamento dual entre o corpo de ordem (policial) e o corpo sujo, pecaminoso (criminoso). Um homem louco que sofre na própria pele a maldição de ser um assassino. Um homem que deveria defender a população ao invés de matar jovens inocentes. E o que é mais louco no filme? Este serial killer é sensível e é possível compreender um pouco sobre ele. Ele é um infeliz!





"Estar dentro das impressões do personagem, foi isso que determinou tudo: câmera, movimentos, luz, som. Frequentemente durante as filmagens, eu lembrava à equipe que tínhamos que o filmar como se ele fosse um artista, estar dentro das suas emoções." 
(Cédric Anger)





"Na próxima, acerto no coração" conduz o espectador a um mood bem obscuro na fotografia, sendo este um dos seus maiores êxitos além da atuação de Canet.  O talentoso diretor Cédric Anger demonstra ter total controle dos efeitos psicológicos de um thriller e nos entrega um filme frio, escuro, áspero com elementos verídicos e fantásticos. Ele também carrega sofisticação nos enquadramentos. Ainda que crie instabilidade para enfocar a nervosidade do protagonista, trabalha bem tanto com câmera na mão como com planos mais estáticos e travelling. Também, apresenta movimentos de câmera que referenciam a David Fincher e utiliza muito seu expertise em luz para criar uma atmosfera fantasmagórica com os elementos da natureza, realizando uma ponte entre as emoções do protagonista e sua familiaridade com as sensações da floressta. No mais, a fotografia é fria, melancólica, enfumaçada como a vida naquela cidade isolada perturbada pelo crime, na qual se vê poucos moradores e não há espaço para momentos luminosos, tanto que o diretor proibiu o uso de branco. A direção intercala tomadas internas de Franck em seu fétido apartamento, ou com sua amada, família e policiais, e com seus ataques homicidas e as suas visões e pesadelos na floresta, no pântano. Portanto, o longa-metragem se sustenta por uma força visual inquietante por não apresentar nenhuma grande reviravolta ou distrações como espetáculo. Tudo é mais tênue, misterioso, balanceando o cotidiano do personagem com a sua contemplação da natureza noturna.



Tudo é voltado para o trânsito do protagonista e como ele se comporta em cena. Acompanhar a narrativa é analisar o comportamento de Franck. Este é o foco da direção.  "Na próxima , acerto no coração" é colocar uma lupa sob o assassino, na perspectiva dele. O olhar da câmera nos convida a observar como é Franck, o que se passa na mente dele, como é dissimulado diante dos outros policiais, como são seus momentos de agressividade, suas fugas da polícia, suas idas à floresta. Pouco saberemos dele pois é o tipo de serial killer que vive o conflito de matar, um desajustado que não consegue pedir ajuda, que se esconde por trás da farda (e se liberta dela quando decide matar).  Não pode impedir a si mesmo por mais que tente ter uma vida afetiva, se socializar com o irmão mais jovem e ser admirado pelo seu chefe Lacombe (Jean - Yves Berteloot). Entendendo um pouco melhor a história de Lamare, é perceptível que ele é um frustrado. Não conseguiu ser o herói militar que ele desejava contribuiu para ele ficar mais insano. Acima de tudo, ele é um personagem bastante dramático, sensível, dividido entre seu lado policial, de ordem e moral, e seu lado criminoso, sujo, decadente. Permanecerá um enigma.





"O que me agradou muito no papel, foi de interpretar um personagem “que sofre ao matar”. Está muito claro isso quando ele embarca a jovem que pede carona na frente do colégio e que ele diz: “eu vou lhe machucar”. Ele não sente nenhum prazer nisso. O ato de matar lhe dá medo, o transtorna, o sangue o impressiona. É um assassino tão diferente que ele não tem essa queda pelo sangue, nem essa pulsão frenética de matar. Ele sente apenas um mal-estar profundo que o leva a fazer isso." (Guillaume Canet )


Até mesmo as mortes são objetivas, enigmáticas. O assassino troca de carro, pega a estrada, escolhe uma garota, tem um momento de tensão pessoal e atira apressadamente na vítima. Franck é um serial killer sem grandes métodos ritualísticos pois não gostava de sangue e matava de forma estabanada, por isso a frase "Na próxima, acerto no coração". Ele nunca conseguia acerta-las com precisão, o título do filme é a sua tentativa de autoafirmação. Como um solitário frustrado que não deu certo na carreira e continua como policial de um cidade pequena, seu território é Oise. Lá ele decide ser o terror. A construção da narrativa explora as locações da cidadezinha e a própria convergência entre a solidão da cidade, com floresta aos arredores com a vida do serial killer, de isolamento. Com a crível atuação de Guillaume Canet ao representar um personagem que não tem controle sobre si mesmo e não é reconhecido pelo "valor policial " que desejava ter, assim, este filme tem uma boa veia dramática por explorar que Franck usou seu talento de forças armadas da pior forma. Na biografia de Lamare, havia um desejo de ele ser de forças policiais de elite, porém isso nunca aconteceu. Levou várias recusas, é bem provável que sua mente furiosa tenha decidido ser popular pelos métodos mais equivocados e repugnantes. Porém, o enigma persistirá. Ele conseguiu enganar até os próprios colegas.



"É um personagem único em todo caso. Muito ambíguo. Que podia ser muito sedutor e ao mesmo tempo que sentia um tal mal-estar... Ele era o companheiro preferido dos colegas e ao mesmo tempo, ele instalava armadilhas em carros que iam explodir nas suas caras... Nos poucos documentários que foram feitos sobre ele, vemos os seus colegas, mais de vinte e cinco anos depois, que falam dessa história soluçando, chorando..." (Guillaume Canet)



Apesar de perder oportunidades de trabalhar maior tensão e conflitos na onda de assassinatos, este é um bom longa-metragem e tem como destaque a direção, a fotografia e a atuação.  O roteiro perde em ação inteligente e em clímax, permanece como um thriller "behaviorista" e psicológico do que como um thriller de investigação e não utiliza bem os coadjuvantes. Assim como o seu protagonista, o filme é um lobo solitário, o foco não é perseguir o lobo e sim observá-lo. Como contribuição para o Cinema, sua história retoma a dissimulação da sociedade. Embora pouco explorada no roteiro através de outros personagens, ela existe. Não apenas a de Franck. A da sociedade da época. O fato do assassino ser um policial militar foi um escândalo, afinal, e a moral e os bons costumes na França? Um policial matador de jovens garotas em uma cidade do interior? Como lidar com isso em uma época que valorizava a ordem desta instituição? A história  do "Assassino do Oise" foi silenciada na mídia. Vítimas e familiares foram silenciados na busca por justiça. Com este filme, podemos tentar compreender um pouco mais quem foi este serial killer, um criminoso que não foi julgado, que ficou marcado na história como mais um impune.






Ficha técnica do filme ImDB Na próxima, acerto no coração


Créditos entrevista via Califórnia filmes 

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