segunda-feira, 15 de junho de 2015

Festival Varilux de Cinema Francês 2015: Gemma Bovery, de Anne Fontaine



 Por Cristiane Costa


Há cineastas que, muito mais do que representarem a mulher na direção, têm o dom de fazer filmes com boas histórias sobre mulheres. Evocam a beleza feminina em cada plano e o revelar de sua complexa e delicada psicologia. Anne Fontaine é uma delas. Conhecida por adaptar a obra de Edmonde Charles-Roux sobre a icônica estilista Mademoiselle Coco Chanel em "Coco antes de Chanel", a diretora  retorna ao Francês cenário cinematográfico com "Gemma Bovery", adaptação do romance gráfico de Posy Simmonds, que aborda a vida de uma inglesa na Normandia dividida entre a esperança por dias melhores ao lado do marido, o desejo e as aventuras com um amante rico e o tédio de uma rotina bucólica.





Gemma Bovery (Gemma Arterton) e o marido Charlie (Jason Flemying) são um jovem casal inglês que se muda para a Normandia. O vizinho Martin Joubert (Fabrice Luchini) é um ex-Parisiense e trabalha como padeiro. Como admirador do livro "MaDame Bovary" de Flaubert, Joubert se encanta com a beleza e semelhança do nome de Gemma com o clássico, além da jovem começar a vivenciar situações similares como a de MaDame Bovary como ter muitas dívidas, ficar entediada com a vida no interior e interessar-se pelo amante Hervé de Bressigny (Niels Schneider). Joubert e Gemma Bovery se tornam amigos e ele se ocupa em observar a vida dela, demonstrando uma engraçada obsessão a ponto de se sentir culpado pelos tristes acontecimentos que ocorrem com a moça.






Gemma Bovery flerta com o clássico literário de Flaubert, "MaDame Bovary", porém é outra história a ser contada:  uma charmosa comédia dramática que se destaca pela bela fotografia, a natural sensualidade de Gemma Arterton e a excelente atuação tragicômica de Fabrice Luchini.  Sua leveza está na delicadeza do texto, que guarda em si uma proposta mais cômica do que dramática, mais de esperança do que de infelicidade. Para levar isso adiante, e com sucesso, a escalação de Luchini para este papel foi essencial. Ele é um padeiro que já não vive na agitação de Paris, não tem um casamento amoroso e nem o filho lhe leva a sério. É um vizinho bisbilhoteiro com comportamento obsessivo. Resta-lhe fazer pães e preencher o seu tempo a imaginar coisas, principalmente ao contemplar o frescor da beleza de Gemma, muito bem fotografada para ressaltar sua feminilidade. A imaginação de Joubert é um ponto forte  e deixa o roteiro mais ligeiro e ficcional. Seu imaginário é como extrair parte da Literatura e sua capacidade de contar histórias e construir este paralelo metalinguístico com o Cinema. É como dizer: "não vamos levar Joubert tão a sério porque ele acha que está vivendo a própria obra de Flaubert. Contudo, ele é cordial e tem graça, então vamos dar-lhe algum crédito".  Com sua pose de cara calado e esquisito, Luchini está incrível. Quando faz uma expressão de sonso, ele ressalta o espírito tragicômico do filme.






O drama de uma jovem inglesa que se frustra com sua vida no campo e que está infeliz por pertencer a um nível social mais baixo não é novidade na fonte literária da obra de Flaubert, portanto, o que diferencia aqui é a brincadeira de Simmonds em realizar uma ponte entre o riso e as lágrimas, com um leve tom de esperança na vida.   Enquanto que Luchini representa o "riso", contribui com o efeito dramédia e tem um texto mais cômico , Gemma Arterton contribui com "as lágrimas", a beleza, a melancolia e uma luminosidade pessoal de que a vida pode dar certo. Sua personagem não é espetacularmente  uma mulher forte e inabalável, pelo contrário, ela é ingênua, dócil e confusa. Intensa e sexual quando faz sentido ser. Triste e depressiva quando não é possível aguentar o peso dos fatos. A humanidade de Gemma Bovery é seu leve otimismo apesar de todas as falhas pessoais. Mesmo com as dívidas, com as frustrações com o marido e outros amores, ela é um jovem que ilumina a tela. De forma muito bem acertada, a escolha de Gemma Arterton como protagonista foi exemplar. Acima de tudo, este é um filme que a câmera namora a atriz, do começo ao fim.







Construir uma ficção a partir de outra ficção e projetá-la no Cinema é um atrativo pois foge do "mais do mesmo" das adaptações literárias fiéis aos originais.  Aqui,  a ideia foi boa, só faltou caprichar no clímax, um das fraquezas do roteiro. No geral, com uma diretora que compreende o universo feminino, costuma fazer recortes mais focados nas adaptações e tem excepcional bom gosto na fotografia, Gemma Bovery se torna mais convidativo, então, bem vindo à Normandia e suas bucolidades que podem existir em qualquer parte do mundo!








Ficha técnica do filme ImDb Gemma Bovery

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