domingo, 23 de maio de 2010

Sonhos Roubados - 2010



Baseado no livro "As meninas da Esquina" de Eliane Trindade, a diretora Sandra Werneck, conhecida por trabalhos como Cazuza - O tempo não pára e Amores Possíveis decidiu seguir o fio condutor de muitos filmes brasileiros como "Cidade de Deus" de Fernando Meirelles, ou seja, abordar o drama de jovens em comunidades carentes cariocas. A diferença é que agora o drama enfoca a vida de mulheres e seus Sonhos Roubados em uma adolescência lamentavelmente triste vitimadas por uma vida sem qualquer perspectiva otimista, entregues à prostituição para obter o próprio sustento e convivendo com temas traumáticos como a gravidez precoce e indesejada, o abuso sexual, a orfandade e/ou abandono dos pais, a pobreza, a falta de dinheiro e de educação.


Sandra Werneck, que já tem no currículo um documentário com foco no feminino da questão "Meninas" de 2006, dessa vez, toma como base do enredo o cotidiano de 3 jovens pobres, Jessica (Nanda Costa, da novela Viver a Vida e em excelente performance), Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz) cujos dramas são divididos nas vidas delas. Jéssica perdeu a mãe quando bem jovem, uma ex-prostituta com Aids e foi criada pelo avô Horácio(Nelson Xavier). Ela já é mãe, se prostitui com frequência e não vive com o pai da criança, além de ter uma rixa com a ex-sogra Dona Jandira ( Zezeh Barbosa), uma evangélica fervorosa com a qual ela tem problemas sérios de relacionamento que podem colocar em risco a guarda de sua filha. Jessica se tornar a pseudo esposa do presidiário Ricardo (o rapper MV Bill em seu primeiro papel) e se prostitui nas visitas íntimas. Sabrina mora sozinha, tem desafetos com a mãe, trabalha em uma lanchonete e também se prostitui. Ela acaba se apaixonando por um bandido canalhão, Wesley (Guilherme Duarte) e é sustentada por ele, em troca de um selvagem sexo. Daiane é criada pelos tios e ignorada pelo pai Germano (Ângelo Antonio). Ela é vítima de abuso sexual pelo safado do seu tio Pery (Daniel Dantas) e encontra uma amiga na figura de uma cabelereira, a gentil Dolores (Marieta Severo).
Como toda garota de sua idade, Daiane sonha com objetos de consumo como um MP3 e um celular e deseja ter uma festa de 15 anos dançando valsa com o pai ausente.





Sonhos Roubados
é um filme bem interessante considerando a forma como foi colocado o universo dessas jovens. Os dramas não são explorados ao máximo e nem é essa a intenção, mas eles dão conta de uma visão geral dessa adolescência com forte problemática social, assim como o filme As melhores coisas do mundo de
Laís Bodanzky dá conta de uma visão geral de um tipo de adolescente que é o de classe média. Sonhos roubados é como um filme denúncia a partir de algumas sutilezas que enriquecem a película sem ter o intuito de moralizar a situação e muito menos os comportamentos; é simplesmente um retrato genuíno e triste de meninas que se prostituem facilmente, não têm qualquer orientação educacional, não têm pais e ainda são ignoradas de várias formas, seja por um pai , seja por um namorado, seja por uma sogra. Jéssica exerce o papel da irmã mais velha e mais madura que se prostitui com facilidade e já se esqueceu que o amor é possível, tende a racionalizar mais suas relações. Ela não é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de quem paga bem. Sabrina é mais desencanada, mora sozinha, saí do emprego voluntariamente se está de "saco cheio", mas ela expõe o lado romântico das mulheres do tráfico, ou seja, se apaixonou por um criminoso e acredita nas promessas dele até o dia que "quebra a cara" e tem que lidar sozinha com uma gravidez. Daiane, a mais jovenzinha, expõe aquela que tem o desejo do consumo que pode ser uma festa de 15 anos ou um celular e, se necessário, realiza pequenos furtos e se prostitui para pagar a manicure ou arrumar o cabelo para o baile funk. Ela é a expressão de uma jovem carente do que a sociedade é carente: sente falta do pai e da mãe edípicas que não exerceram seus papeís sobre os filhos, como se fosse a representante de uma adolescência orfã; não é a toa que ela vê em Dolores a figura de uma mãe. Apesar dos pesares, no final de qualquer situação, a prostituição é uma forma de subsistência e parece um fardo necessário às meninas em boa parte do filme.





Jéssica, Sabrina e Daiane dão conta dos principais dramas de uma adolescente carente, porém é importante não seguir os estereótipos que se colocam sobre jovens que moram em favelas e generalizar tal forma de documentar uma realidade que também é variante; afinal nem todo mundo sofreu o que elas sofreram, mesmo que tenham testemunhado tais lamentáveis fatos e que morem em comunidades carentes. De maneira geral, o filme de Sandra Werneck não deixa de se basear em um estudo verídico dos dramas dessas mulheres, por isso, enquanto longa-metragem brasileiro, a diretora agregou bastante com esse trabalho porque deu voz cinematográfica ao drama feminino, até então, só havíamos visto personagens masculinos como Zé Pequeno, Cabelereira, Sandro Nascimento e tantos outros jovens perdidos na criminalidade. Além disso, basta ouvir os noticiários/ documentários para ver que existem adolescentes que ficam grávidas e são abandonadas pelos pais das crianças, adolescentes que são vítimas de abusos sexuais (que, na maioria das vezes, ocorrem dentro de casa e com familiares próximos), adolescentes que se envolvem com bandidos porque mulher de bandido, em um contexto social frágil, dá um status à essas meninas além do sentimento de se sentirem amadas e protegidas, adolescentes que se prostituem e roubam para poder se alimentar e sustentar seus filhos. Abarcando todos os elementos desse triste cenário, a verdade é uma só: só sabe a verdade dos sonhos roubados quem os têm roubados, então nunca saberemos o que essas jovens sofrem em seus psíquicos detonados por tantas tragédias individuais em um ambiente coletivo que parece não oferecer nenhuma saída.






Embora tenha uma excelente fotografia de Walter Carvalho, uma competente interpretação de Nanda Costa, uma maravilhosa canção tema homônima interpretada pela revelação da MPB, Maria Gadú, e tenha sido premiado pelo júri popular do Festival do Rio, Sonhos Roubados é passível de não agradar alguns brasileiros que estão cansados de ver esse tipo de filmes com comunidades cariocas em pauta e acham ridículo termos somente filmes premiados desse tipo como Tropa de Elite, Cidade de Deus, Carandiri e Parada 174 como se eles fossem o retrato fiel do que é o só o Brasil, porém estigmas regionais e nacionais à parte, Sandra Werneck faz um filme que testemunha uma realidade, queiramos nós aceitá-la ou não, esse é o drama de muitas meninas e a essência do título de filme está além do que o filme expõe, ou seja, cada dia jovens têm sonhos roubados, não importa em qual estrato da sociedade, e o que fazer quando um sonho é roubado? Viver o pesadelo após o sonho roubado ou acordar para a realidade e tentar lutar por uma vida mais digna? Embora o filme de Werneck perca um pouco o ritmo e termine com um final comum, bem longe de propor uma solução ou um desfecho mais comovente, ainda assim é um filme muito honesto que não toma partido de ninguém e essa é uma ótica bem válida porque o que faria cada um de nós no lugar delas? Talvez a mesma coisa, então por que julgá-las? O preconceito não cabe nesse filme. O
bem da verdade é que a solução ainda é um tema complexo e cada um sabe a dor de ter um sonho roubado.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: Sonhos Roubados
Origem: Brasil
Gênero: Drama
Duração: 85 min
Diretor(a): Sandra Werneck
Roteirista: Paulo Halm, baseado no livro "As meninas da Esquina" de Eliana Trindade
Elenco: Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika de Farias, M.V. Bill, Nelson Xavier, Marieta Severo, Zezeh Barbosa, Daniel Dantas, Ângelo Antônio, Guilherme Duarte

2 comentários:

  1. O Filme sonhos roubados deveria ser passado em todas as escolas públicas do Rio;Principalmente as da pefiferia e das comunidades carentes.
    muito bom!
    a cara de SANDRA WERNECK

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  2. Oi Rose,
    Obrigada pela sua visita.
    Concordo totalmente contigo. As escolas devem pensar em exibir material cinematográfico nacional que reflita traços de nossa cultura e sociedade e, desta forma, possam abrir também um fórum de discussão sobre esses temas que interessam tanto o campo educacional.
    Gostei do filme e, o melhor, não há preconceito, é a vida nua e crua para que possamos refletir sobre ela e ver onde podemos melhorá-la.

    Bjs

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