sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Perdidos em Paris (Paris pieds nus, 2016), de Abel & Gordon





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Este ano o Festival  Varilux atingiu uma marca inédita com um público de mais de 180 mil espectadores no Brasil, estabelecendo-se como o maior festival de cinema Francês do mundo com um crescimento de 15% em relação a edição de 2016. Sucesso de bilheteria no festival e o filme mais visto, "Perdidos em Paris", dirigido e protagonizado por Dominique Abel e Fiona Gordon e com a última atuação da musa Emmanuelle Riva tem a magia de um sonho cômico.




Fiona é uma bibliotecária que trabalha no Canadá e que sonha em conhecer Paris. Um dia recebe a carta de que sua tia Martha (Riva), uma idosa de 93 anos que vive sozinha em Paris, precisa de sua ajuda. Martha corre o risco de ser internada em um asilo. Disposta a reencontrar a tia, Fiona viaja à cidade luz e encontra Dom (Gordon), um morador de rua charmoso e egoísta. Juntos, partem em busca de Marta e se envolvem em muitas confusões.



"[..alguém nos mostrou um vídeo que ela (Emmanuelle Riva) fez para o The New York Times, na ocasião em que concorria ao Oscar. Nesse vídeo, gravado em seu apartamento, ela dançava e imitava Chaplin. Foi quando imediatamente decidimos que seria ela”] ( Dominique Abel).


Narrado como um peculiar conto, com inspiração no cinema mudo e burlesco e que lembra grandes nomes como Charlie Chaplin,  Buster Keaton e Jacques Tati, a contemporânea comédia francesa da dupla tem a graça e a inocência dos corações desajustados e solitários. Tem a ternura que falta no mundo e que tão bem faz ao coração, levando os espectadores a uma Paris menos glamourosa e criando um universo lúdico com situações inusitadas que convergem para inspiradores encontros e desencontros de almas. 






Com a experiência da arte clown, a inspiração dos icônicos atores do cinema mudo e a filmografia burlesca de Abel e Gordon, Perdidos em Paris apresenta uma viagem de afeto e diversão aos que, normalmente isolados dos padrões da sociedade, encontram-se como amigos, como família e como amantes. É o caso dos 3 personagens em cena, todos adoráveis e nada convencionais. Fiona é aquela mulher introspectiva que não segue vaidades femininas e que conquista pela espontaneidade. Dom tem o charme de um bailarino de tango e é possível que já tenha tido uma vida melhor, mas anda vestido maltrapilho e sem um tostão. Martha é a mulher idosa, esperta e ainda sana a sobreviver fugindo pelas ruas de Paris. Todos são personagens que não têm o olhar atento da sociedade Parisiense e não precisam dessa hipocrisia nesse cenário. Eles têm os olhos encantados do público e a leveza poética em cada atitude, isso basta.


O encantamento com esta comédia vem de um resgate da  antiga escola teatral cômica, da valorização do palhaço e da performance corporal desajeitada, também apoiado por uma estética colorida e fantasiosa como a dos filmes Wes Anderson. Em diferentes momentos, o cuidadoso trabalho de Abel, Gordon e Riva é uma homenagem a Chaplin e Tati, principalmente na bela cena de Emmanuelle Riva e Pierre Richard, que torna eterna a graciosidade da saudosa diva Francesa. Dom, como o vagabundo que não tem eira nem beira e oferece seu tempo e coração à tímida Fiona faz recordar os casais cômicos do cinema clássico que não se entendiam em um primeiro momento, porém, depois começavam a ter empatia um com o outro.





A diretora e atriz Fiona Gordon comenta: " Nadamos firmemente contra a maré: austeridade e cinismo não são coisas que queremos explorar. Preferimos nos concentrar em um pouco de inocência e espontaneidade, algo feliz". Fica evidente que os diretores conseguiram preencher a sala do Cinema com uma magia de transportar o público para outro mundo mais suportável, uma história delicada e engraçada. O filme acende essa chama da nostalgia pelos grandes palhaços do cinema, com um riso bobo, desencanado e ingênuo que, muitas vezes, é necessário para continuar sobrevivendo em um mundo caótico e perverso. A poesia e o non sense das várias cenas aliviam o peso do cinismo da vida real. Os personagens se perdem em Paris  e certamente deixam um doce aprendizado: é preciso se perder para encontrar e reencontrar novos afetos e, quem sabe, ser mais feliz



Ficha técnica do filme ImdB Perdidos em Paris

Fotos: cortesia agência Febre/ Pandora filmes/Festival Varilux
Citações dos diretores: uma cortesia agência Febre.



Um comentário:

  1. Belíssimo texto, Madame! Me rendo a esta grande análise de Perdidos em Paris. Saudosa e querida Riva, grande estrela! Bem, preciso conferir ainda esta safra de filmes do Festival Varilux. Instigantes. Se não me engano parece que passei na lista de lançamentos da Netflix e li, apressadamente, um filme de mesmo título. Se não for mesmo o próprio. Mais tarde vou checar.

    Beijos

    https://cinemarodrigo.blogspot.com.br/

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