quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O batedor de carteiras (Pickpocket, 1959), de Robert Bresson




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Em um dos primeiros planos do clássico de Robert Bresson, O batedor de carteiras (Pickpocket), o rosto apático do ator Martin LaSalle define bem quem é Michel, o protagonista que mostra frieza ao roubar, um rosto sem brilho, sem emoção. Interpretado com excelência, Michel é um jovem desprovido de trabalho e sem atitude para arranjar um emprego. Ao começar a bater carteiras em um hipódromo, tem prazer em roubar e se lança mais ao crime. Ainda que mantenha sua expressão fria,  bem peculiar, levemente com traços de quem não acredita na própria redenção, Michel é um exímio batedor de carteiras a ponto de sentir a adrenalina do desafio e o desejo de aperfeiçoamento na "arte".





Inspirado em Crime e Castigo de Dostoiévski, esta primorosa obra cinematográfica sobrevive ao tempo como uma clássica tragédia existencial. Michel age como um ladrão deprimido que não vê outra saída para o seu destino. Ao ser preso pela primeira vez, não desiste e dá continuidade à sua sina. Sua passividade diante de outras ações que não sejam roubar é bem tangível na excepcional atuação de LaSalle. Através de comportamentos que indicam mínima culpabilidade e um intransponível fracasso, em várias cenas, não existe um futuro positivo para Michel. A apatia é como seu espelho! Assim como Raskólnikov, ele intensifica a incapacidade de viver positivamente a sua jornada, mesmo com a memória da mãe e a aproximação da delicada jovem Jeanne (Marika Green).  Esse traço do personagem gera bastante incomodo pois Michel só encontra o medo e a excitação ao bater carteiras. 





Com direção minimalista e rigorosa de Bresson, este clássico carrega uma admirável combinação de um roteiro objetivo com uma crível atuação de La Salle, suportada por uma impecável composição de planos e enquadramentos que mostram a habilidade de bater carteiras com elegância.  Com maestria, Bresson ressalta o empenho e evolução de Michel em ser um "pickpocket" eternalizado no Cinema e deixa como legado um contundente drama humano cuja humanidade está em expor as mínimas emoções possíveis. O diretor seguia a linha do anti-teatro, no qual o minimalismo nas performances tinha que prevalecer e exageros sentimentais em cena eram esvaziados por completo. Diante da inexpressividade de Michel, a narrativa confessional é uma das poucas oportunidades de acessar os pensamentos do protagonista. 




Dividido entre o vício de roubar e as influências emocionais de sua mãe e de Jeanne, Michel segue um cotidiano que o aprisiona na própria compulsão. Por mais terrível que seja, ele gosta de sentir essa emoção, de apelar para formas diferentes de roubar, capaz de encontrar aliados em bater carteiras e formar uma equipe. Tudo isso o mantém vivo! Em uma singular relação com outros elementos da narrativa e a articulada direção Bressoniana, LaSalle apresenta uma performance que não ressalta o ladrão como um vilão. Pelo contrário, Michel está mais para um pobre coitado! Sua fisionomia apática expressa sua tragédia existencial. É como a de um homem  criminoso caminhando para o calvário, cavando o próprio buraco e, quiça, encontre alguma salvação. 


De "O batedor de carteiras" surge um dos personagens mais enigmáticos do Cinema Clássico, um homem misterioso que não permite aproximação afetiva pois está ocupado demasiado com o vício e o espírito fatalista de sua condição.  É como se  ele não fosse digno de nada melhor. Afundado no crime, ocupar o tempo com a prática  do roubo é o que lhe resta.



Ficha técnica do filme Imdb  O batedor de carteiras

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