sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A vida de uma mulher (Une Vie, 2016), de Stéphane Brizé





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


A expressão da vida de uma mulher na narrativa cinematográfica é uma tarefa complexa. Conhecer e explorar seus sonhos, desejos, sentimentos e experiências e passá-los de um universo bastante intimista para a experiência audiovisual com público é competências para poucos. O cineasta Francês Stepháne Brizé se destaca como um deles em seu mais recente filme A vida de uma mulher (Une vie/ A Woman's life), uma coprodução França e Bélgica baseada no romance de Guy de Maupassant . O projeto nasceu há 20 anos após o diretor conhecer a obra literária. A adaptação rendeu o prêmio dos críticos no Festival de Veneza 2016 e duas indicações ao César 2017 (melhor atriz - Judith Chemla e melhor figurino - Madeline Fontaine).





Ambientado na Normandia no século XIX, conta a dolorosa passagem do tempo na vida de Jeanne (Judith Chemla), uma jovem de delicada beleza, gentil e sonhadora que, após retornar dos estudos no convento, se casa com o Visconde Julien de Lamare (Swann Arlaud). Como uma queda ao fundo do poço, Jeanne sofre não apenas a transformação do tempo cada vez com menos flores e mais espinhos, mas também vai desfalecendo com as agonias das suas relações, começando pela infidelidade do marido.





Com uma exemplar competência técnica que combina a sensibilidade poética visual e uma direção segura e crível, Brizé utiliza o formato 1.33 e câmera na mão com um magnífico realismo; dessa forma, dá um efeito ao mesmo tempo solar para as tomadas de sublime beleza e interação entre Jeanne e a natureza, como também um efeito perturbador quando momentos de dor e angústia abalam o psicológico dela. O uso do 1.33 na tela possibilita o rompimento para uma empatia bem próxima à personagem, mais presente, real. A câmera na mão e a montagem, entre flash backs e flash forwards, cooperam para sentir o tempo de uma forma igualmente realista, penetrante. Claramente, é dado ao espectador a intimidade de adentrar a vida dessa mulher, vê-la confinada em uma história familiar, na maior parte do tempo, dilacerante.  





O uso da música do fortepiano, parente do piano, cria uma atmosfera melancólica, com uma musicalidade que intensifica a dramaturgia na mise en scène. É como se Jeanne definhasse mais à medida que seus pensamentos estão deslocados e sua vida confinada a revelações que ela própria não aceita. A música ajuda a reforçar esses momentos intimistas que apenas a junção da música com a imagem poderia expressar tão dramaticamente.


Nesse sentido, as variadas virtudes da direção de Brizé eleva consideravelmente a qualidade da obra e legitima a densidade da vida de Jeanne. As idas e vindas da narrativa constroem as suas memórias, das mais sublimes como um beijo tímido e apaixonado em meio à natureza, como também as lágrimas de uma traição em uma noite obscura.  Reúne várias elipses nas quais transcorrem a passagem do tempo de um modo moderno e dinâmico, que torna a narrativa mais verossímil e permite uma conexão com os aborrecimentos da protagonista. 






Nas principais cenas de seu relacionamento com o marido Julien, com o filho Paul (Finnegan Oldfield) e os  pais barões (Jean-Pierre Darroussin  e Yolande Moreau) é marcante o desequilíbrio natural da vida, algo que espontaneamente emociona e leva à compreensão das emoções humanas. Essa pulsação da vida e da morte na família é complexa e angustiante. Vista a partir do ponto de vista dela, ela é mais brutal e comovente, levando em conta que Jeanne é uma protagonista íntegra e plena de humanidade. Como consequência, vê-la sofrer é torturante. Ela merecia um destino melhor.







A câmera inquieta de Brizé,  a bela fotografia de Antoine Hérbelé e a sensível atuação de Judith Chemla agregam um valor imensurável para essa adaptação. Não é fácil adaptar romances clássicos, porém Brizé deixa uma marca autoral na direção, precisamente em filmar a passagem do tempo como uma via crucis e um estilo muito contemporâneo de Cinema. É um exercício de empatia enorme ao enfocar a vida de Jeanne que, em teoria, deveria ter sido mais feliz ou, pelo menos, menos impactada pela brutalidade da vida. Com a performance excepcional de Chemla, a protagonista não se corrompe em sua natureza idealista, o que é um grande acerto pois, assim, a tendência é que, quanto mais ela é atingida em sua humanidade, mais a sua força física e psicológica é digna de empatia e admiração.





Por Jeanne ser uma mulher leal à sua personalidade, o filme é um presente para as mulheres, em especial. Seu explícito sofrimento está longe de colocá-la como vítima da sociedade. O apelo desse primoroso drama não é o vitimismo. Pelo contrário, a brutalidade das situações são comuns na vida de qualquer uma mulher. Muitas entenderão. Ser traída, estar sozinha, ter problemas com filhos, ter uma visão romântica sobre o relacionamento, enganar-se com falsas amigos,  cumprir o desejo dos pais são algumas evidências de que essa história continua moderna e universal. 



É claro que esses desafios  não são apenas das mulheres, mas, a forma como Brizé realiza o filme, com uma perspectiva bem feminina e uma protagonista sensível, ajuda a perceber como se dá o amadurecimento da mulher que, muitas vezes, não quer crescer mas precisa dizer adeus à ingenuidade a  um custo muito alto.   É bom e seguro continuar jovem e sonhadora, por isso, a personagem é confrontada com o lado sombrio da vida. É o lado obscuro vividos em 27 anos que traz o contraste com a luz que há nessa forte mulher. É o lado obscuro que ressalta o belo paradoxo do quão significativo e único é ser humano. Como pregos cravados, a maturidade doí e pessoas machucam. Então, há lugar para o perdão e para a esperança na alma feminina?



Ficha técnica do filme IMDB A vida de uma mulher

Fotos, uma cortesia Mares Filmes, distribuidora.






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