quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação 



Os altos e baixos de lutadores de boxes foram amplamente abordados no Cinema com clássicos imbatíveis como Rocky (1976, de Sylvester Stallone) e O touro Indomável (1980, de Martin Scorsese) e novas interpretações como Menina de Ouro (2004, de Clint Eastwood),  Nocaute (2015, de Antoine Fuqua) e Creed: Nascido para matar (2015, de Ryan Coogler), todos sob a chancela do Cinema Americano e influenciados pelo American way de realizar dramas do esporte. Com esse cenário cinematográfico hegemônico, é mais do que bem vindo um filme de boxe que busca inspiração em outro país: Finlândia. Após conhecer o boxeador Olli Mäki e sua esposa Raija, o cineasta Juho Kuosmanen decide pela elaboração do roteiro e a coprodução Finlândia - Suécia - Alemanha para contar a trajetória do lutador. Em uma ligeira coletânea de frames, a plateia conhecerá o dia mais feliz de Olli.




A história transcorre em meados de 1962, quando o boxeador (Jarkko Lahti) começa uma série de treinos e publicidade para obter o título de campeão mundial. Com previa experiência como padeiro e uma vida modesta, Olli  não tem muita escolha a não ser sua submissão aos caprichos e ambição do arrogante Elis  Ask (Eero Milonoff), boxeador de outra categoria, seu amigo e coach. Paralelamente, sua relação com Raija (Oona  Airola) fica mais próxima e emocional. Ele que lidar com as cobranças e conflitos durante sua preparação.



Diferente dos dramas de boxe americanos, mais extensos e dramatúrgicos, esse breve longa-metragem é um belo híbrido de história de amor com a prematura frustração na carreira de boxe, apoiada por uma incrível cinematografia em preto e branco  que enche os olhos com um realismo esteticamente impecável. Kuosmanen apresenta o bucólico interior e Helsinque e foge dos clichês cinematográficos a tal ponto que ganhou o prêmio Un certain regard do Festival de Cannes 2016. É uma honra dada apenas a produções que evidenciam um frescor deleitante na estética do filme, em especial na composição da fotografia e da decupagem. No mesmo ano, o longa também obteve premiações no European film awards e Festivais internacionais de Zurique e de Chicago.




Se por um lado o filme ganha na estética, por outro o roteiro escrito pelo cineasta e Mikko Myllylahti perde algumas oportunidades de desenvolver melhor os arcos dramáticos, em especial a relação afetiva de Olli e Raija. Esse desabrochar do amor é bastante interrompido ou não aprofundado nos diálogos, que pode ter sido uma escolha do biografado ou dos roteiristas. Raija é tida como uma distração para o boxeador e se firma como uma figura dicotômica que para os outros atrapalhará a carreira do emergente lutador,  para o próprio, ela  é fundamental como mulher amada e apoio emocional em um momento tão transformador. 



Na pouca tensão dramática que a narrativa apresenta, a atuação de Eero Milonoff é um dos pontos altos por ser ambicioso, autoritário e uma especie de amigo interesseiro, vilão da relação. Apesar do bom desempenho de Jarkko Lahti, Olli é um homem confuso profissional e afetivamente, ainda perdido no início de carreira e tratado bem apenas para ganhar o cinturão de peso pena; assim, em diversas cenas, desperta mais a piedade  que a admiração. Infelizmente, a graciosa  Oona Airola permanece pouco utilizada, salvo o flerte que a câmera tem com sua angelical beleza. De forma recorrente, o diretor enfoca seu luminoso sorriso. Com essa proposta de roteiro, ela acaba sem espaço para ter uma postura ativa no desenvolvimento do relacionamento. A história de amor perde parte do seu potencial cinematográfico.







Colocar Raija como uma distração ao sucesso de Olli leva o filme ao risco de ser considerado machista e superficial. Essa não parece ser a intenção real do cineasta. Aqui o verniz é outro:  a prioridade de tornar Olli um campeão custe o que custar. Por si só, isso já é opressor! Não havia espaço para o afeto, apenas em torná-lo um vencedor e uma celebridade, logo, as tomadas que acompanham Olli nos treinos e nas sessões fotográficas dizem muito sobre as aparências e os interesses alheios. Dessa forma, mostrar que o amor é muitas vezes desprezado diante da razão tem um significado universal, dramático. Não há como negar: ser bem sucedido cria um distanciamento nas relações. 



Mais uma vez, a história do boxeador ganha uma dimensão significativa quando é perceptível que o caminho para o sucesso tem o seu alto preço assim como as derrotas testam a lealdade. Como acontece em diversas histórias, estar em evidência, indo para ou no topo,  é quando são testadas as reais motivações que vão sustentar as conquistas, lidar com as derrotas e dar continuidade aos relacionamentos. Nesses aspectos, essa joia Finlandesa tem o seu valor.





Fotos: uma cortesia Zeta filmes

Um comentário:

  1. Legal conhecer um filme de um país que nada conheço em termos de cinema. Legal, ótima critica!

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.

Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema.

No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.

Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière