quinta-feira, 17 de agosto de 2017

MaDame Cult: A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação 



Falecido em Julho desse ano, o saudoso realizador George Romero estabeleceu um divisor de águas no Cinema de horror com o lançamento do icônico "A noite dos mortos vivos" (Night of the Living Dead), inaugurando a série de filmes "Living Dead" que inspirou tantos outros cineastas do gênero ao enfocar o zumbi. Antes o homem tinha algum controle sobre monstros e criaturas criadas em laboratórios como, por exemplo, Frankeinstein, ou as figuras clássicas de influência literária como o Conde Drácula . Com a chegada dos zumbis de Romero em um cinema independente, o realismo da proposta em um cotidiano caótico e sem muitas explicações insere a simbologia dos zumbis de uma forma crível e perene na cinematografia mundial.




A noite dos mortos vivos é uma obra tão primorosa e visionária que fundamenta todos os elementos da criação de um zumbi que influenciou a maioria dos recursos da mise en scène de filmes de horror/terror.  O enredo começa com personagens jovens que pegam a estrada e viajam para um lugar distante, normalmente próximos a cemitérios e uma casa no meio da floresta. São aterrorizados por uma situação peculiar que foge ao controle e que representa uma ameaça à sobrevivência e à civilização. Ficam cativos em uma casa e sofrem perturbações psicológicas, como histeria, paranoia, com intenso medo de morrer e ser devorado. Esse medo é mais intensificado por aquela sensação de total desconhecimento com relação aos zumbis. Quem são eles?  De onde vieram? Por que um aparente humano quer devorar os seus semelhantes?




Em Romero e seu criativo ineditismo na subversão do gênero, os zumbis surgem como monstros coletivos, ainda não tão desfigurados fisicamente, podendo até ser confundidos, à distância, com pessoas normais vagando pelas ruas. Sem mais nem menos, eles invadem a terra e se alimentam de outros homens. A mídia e a ciência especulam fenômenos radioativos, porém argumentos todos superficiais que intensificam a pequenez do ser humano que não tem respostas para tudo. Assim como aconteceu com o boom da ficção científica Americana nas décadas de 50 e 60, os zumbis da forma que conhecemos hoje surgem em um período caótico nos Estados Unidos  com discursos anti-guerra, conflitos raciais e o medo de ataques bélicos estrangeiros e de alienígenas. Toda esse contexto criou um prato cheio para produções ficcionais baseadas no desconhecido, no caos, no "outro" estranho. Com essa obra prima do Cinema de horror, o cineasta revela mais tabus como a antropofagia, a morte e a destituição e evisceração do corpo humano.





Os alicerces da direção de George Romero não ficam apenas no enredo e no plano das ideias. Longe disso, ele tem um processo criativo de decupagem simples e funcional que tornam sua obra um clássico obrigatório que envelheceu muito bem. A começar pelo pouco uso de iluminação, não apenas pelo período noturno em uma casa na floresta, mas por apontar para referências clássicas do horror expressionista com utilização do jogo sombra x luz, com closes de rostos exageradamente assustados e esteticamente angustiantes, em um constante clima de pessimismo e paranoia. Romero também se preocupa em conceituar didaticamente o zumbi em algumas narrações e ainda deixa os benefícios do mistério e do desespero, tão vitais para o gênero. Explica o que mata um zumbi: morte pela cabeça ou cremação; que serviria como regra básica para outras produções vindouras. Inclui os conflitos entre homens, dentro da casa, em um constante clima de desconfiança que corrobora que não se deve confiar nem mesmo no próprio homem. 





Com  vigor narrativo, a câmera na mão com enquadramentos bastante realistas e bem posicionados mostram a fragilidade do ser humano, como o da atriz Judith O'Dea (Barbara), em excelente performance. Cada vez mais insana e enclausurada em um profundo e perturbador choque, Barbara é um personagem tão interessante que é como se ela fosse uma morta viva, mais insignificante e passiva do que um zumbi. Muito mais do que o medo que, ora paralisa, ora impulsiona à uma ação, o homem retratado em personagens como Barbara, Harry (Karl Hardman) e Hellen (Marilyn Eastman) é pequeno, falho e trágico, simbolicamente eles representam a parte familiar que é perdida e fragmentada de forma violenta, cruel. É um elenco verossímil para reforçar a proximidade da morte e da tragédia, além do individualismo, preconceito e insegurança nas relações.




Ademais, muito afiado na proposta narrativa em um Estados Unidos tradicionalmente dividido por questões étnico-raciais, Romero utilizou um protagonista negro, Ben (Duane Jones), como o líder na luta pela sobrevivência. Uma escolha inteligente e provocativa! Ben é o mais astuto e racional na casa. Ele proporciona um efeito dramatúrgico de incansável superação e cria mecanismos para conter a invasão dos zumbis, desta forma, a pouca ação que existe, apenas ocorre por causa do corajoso personagem negro. Isso pode levar a várias elucubrações sobre o porquê de um personagem negro na liderança e que faz todo o sentido em uma década marcada por Martin Luther King e Os panteras negras. Essas escolhas de Romero funcionam como metáforas para combater a opressão da sociedade burguesa. 


Sem sombra de dúvidas, o desfecho genial é uma crítica social de homo sapiens para homo sapiens, bastante pessimista e perdurável. Além do mais, ficam questões que até hoje podem ser refletidas e são muito contemporâneas: os zumbis são a representação de como o homem é perecível e desfigurado na sua essência, na sua humanidade? Os zumbis são a metáfora de como o homem é capaz de perseguir e devorar o outro em um mundo cada vez mais monstruoso e caótico? Não tenha medo de respondê-las.





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