quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Ciclo da Vida (Full Circle - 2012), de Zhang Yang




Por Cristiane Costa


A velhice é muito mais do que uma fase madura da vida, ela é uma conquista. Chegar a viver tantos anos não é apenas ganhar  rugas, perder parte do vigor físico e aprender a conviver muito mais com a solidão, mas, ganhar sabedoria, compreender os bons e maus anos da experiência, buscar alguma redenção e ter o direito de desfrutar a velhice da melhor forma possível.  Embora os idosos não sejam bem tratados pela sociedade atual , e ainda, há uma cruel realidade de abandono de pais pela  família e até mesmo por muitos países em questões como aposentadoria e saúde, a velhice não é o fim da vida, a velhice é uma celebração da vivência de muitos ciclos de vida. Ter este olhar  de gratidão e respeito pelos anos vividos pelos idosos é essencial para entender o valor da vida, assim como alcançar a consciência  de que a velhice não é o começo da morte, que ela pode ter a vivacidade, a alegria e a paz que qualquer pessoa deseja.





No universo temático do envelhecimento, o Cinema recebeu um novo presente: o longa-metragem chinês de  Zhang Yang , O ciclo da vida. É um comovente e delicado drama com elementos cômicos que dá conta de várias situações que se tornam mais corriqueiras com a velhice, tais como: a relação distanciada , de rejeição ou mal resolvida entre pais e filhos, a solidão e o aprisionamento de idosos em casas de repousos, doenças e mortes, entre outras. 



Inicialmente ambientado em uma casa de repouso, o longa apresenta um simpático elenco de idosos, que variam na média entre 60 e 80 anos e conquistam pela naturalidade de suas atuações. Cada um à sua maneira são personagens reais que poderiam ser o avó ou avô de seu melhor amigo ou um familiar próximo. Todos têm um estilo muito pessoal, bem humorado e carismático, com destaque para os experientes Xu Huanshan e Wu Tianming. Essa autenticidade do elenco na representação da história cria um elo de empatia, e muito facilmente, o longa ativa uma relação franca entre eles  e o público. Assim, O ciclo da Vida é um belo retrato cinematográfico da velhice realizado com bastante honestidade. É um filme que tem ALMA.







A história começa com a entediante rotina de uma casa de repouso na China na qual os velhinhos são bem cuidados, mas não têm tanta liberdade de fazer o que desejam. Sua maior diversão é uma atividade lúdica que envolve um jogo. São enclausurados, e às vezes, recebem visitas  de familiares.  Até que um dia, um pequeno grupo decide fugir para realizar um sonho: participar de um show de variedades na TV. A partir daí, o longa se transforma em uma jornada de "road movie", vivaz e inspiradora, na qual os idosos reafirmam o entusiasmo pela vida e os seus sonhos de liberdade. 






Há o realismo e o poético na história, e isto faz enorme diferença para o seu efeito comovente. A velhice é tratada com dignidade. De cenas mais dramáticas, como um idoso que se sente triste ao ver suas fezes na cama e não ter percebido que tinha evacuado, até cenas divertidas, como uma viagem na estrada que resgata a alegria e a liberdade. A combinação da realidade vivida pelos velhinhos  alinhada ao olhar poético do diretor  e roteirista é de um singular equilíbrio narrativo. Como consequência, O Ciclo da vida reúne duas características importantes em sua realização e que o diferenciam como um bom longa para o atual Cinema Asiático :   Cinema independente com uma história e execução capazes de emocionar as massas. O roteiro  avança em algumas resoluções de maior carga emotiva que deixam claro que a intenção do diretor era tocar no coração das pessoas.



De uma maneira bem natural, famílias podem se identificar com o longa. Ele tem uma história universal, dirigida com um belíssimo trabalho de fotografia e com leveza e humor que abrem espaço para uma conexão mais genuína com o público. Ele aborda valores como a busca da felicidade, do perdão, do reencontro, da paz, mas também, não se distancia de  situações tristes como a doença e a morte que, inevitavelmente, cercam o envelhecimento. Somado a isso, todos nós temos entes queridos que envelheceram, que continuam envelhecendo e que vão envelhecer. Se a velhice tiver que chegar a cada um de nós, ela tem que chegar como uma bênção, como um ciclo a ser vivido bem, com alegria, gratidão e plenitude. Ninguém quer morrer preso a um cama de hospital ou depressivo em uma casa de repouso. O grande mérito do filme é que há o ideal de liberdade que independe de idade. Há o ideal de que a vida não termina com dias melancólicos, de que cada um tem o direito de escolher como deseja viver, de fechar o ciclo da vida como bem entende. 






 

Ficha técnica do filme ImDB O Ciclo da Vida 
Distribuição Esfera Filmes
Estreia: 16 de Julho

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