segunda-feira, 27 de julho de 2015

Campo de Jogo (Sunday Ball - 2015), de Eryk Rocha



Por Cristiane Costa


O documentário Campo de Jogo, dirigido por Eryk Rocha, é uma poesia visual futebolística em uma das mais sublimes evocações cinematográficas da paixão que move o esporte. Sua força audiovisual é levada a um patamar de autenticidade desta paixão, amparado por um competente trabalho de fotografia, desenho de som e montagem que dá uma dimensão bastante sensorial ao longa. Ambientado na várzea de uma periferia do Rio de Janeiro, em um campeonato de futebol com 14 times das comunidades, o diretor enfoca a final entre dois times, o Geração e o Juventude, os principais lances do jogo, os bastidores e a energia insana entre os jogadores e técnico, o espírito de trabalho em equipe e a competitividade e a torcida e expectativa do público.  Em paralelo, na montagem, ele inclui recortes de partidas com outros times e  trilha sonora clássica, apresentando um universo audiovisual inspirador sobre a importância do futebol na cultura Brasileira.





A câmera conduz o público aos detalhes que constroem a dimensão coletiva da narrativa: rostos vidrados em cada lance, corpos em movimento slow, a tão desejada bola rolando na lama ou na poeira, o grito insano do treinador, crianças, mulheres e homens atentos e  à espera de um gol, entre outros. Tudo está ali como parte da linguagem de um povo que não precisa das aparências egoicas  do meio futebolístico profissional e da cartolagem dos bastidores, um povo para o qual o mais importante é torcer pelo seu time e apreciar a competição. Neste sentido, embora bem executado com uma mescla do  lado mais cru e visceral do documentário com uma estética visual mais poética,  Campo de Jogo é  futebol e raça. De certa forma, apesar de sua evocativa arquitetura estética, ele recupera o mais importante: o futebol de raiz , uma simplicidade, muitas vezes esquecida ou adormecida, em meio a tantas decepções com o Futebol Brasileiro atual. 






Muito mais do que uma poesia visual, o documentário pode ser comparado a uma dança, em especial, quando a trilha sonora clássica entra em ação e os movimentos dos jogadores  evocam a paixão intensa pelo seu time. Eles perseguem um objetivo que não lhes trará necessariamente uma recompensa financeira mas uma  psicológica, ligada a um prêmio afetivo, emocional, apaixonante.  São como bailarinos que se motivam para uma competição e, ainda assim, encontram mais prazer em celebrar sua Arte.  Neste aspecto, Eryk Rocha não deixou passar desapercebido  o processo de desenvolvimento do documentário sob uma perspectiva bastante fotográfica. O processo do jogo foi mais relevante do que a comemoração em si, tanto que, em cada imagem, ele se apega aos detalhes como um fotógrafo que deseja clicar as expressões faciais, mãos, pés, costas e os giros de um bailarino. Felizmente, ele consegue equilibrar a espontaneidade do jogo com a tecnicidade da estética. Não recorre ao padrão documental de realização de entrevistas, mas consegue preservar a intensidade das emoções, criar um elo afetivo entre o público, o futebol e os personagens reais.





Na paisagem empoeirada de um precário campo de futebol, em meio à pobreza das favelas, simplicidade do povo,  jogadores que nem tem um boa chuteira, Campo de Jogo é um belo trabalho que recupera a essência do esporte no Brasil. Não há limites  ambientais, físicos, emocionais e nem econômicos para perseguir o gol, vibrar com a comemoração, conquistar a taça após tantos esforços. Depois da vergonha que a seleção Brasileira de Futebol passou na última Copa do mundo com os traumáticos 7 gols que levaram da Alemanha, para o povo Brasileiro,  o documentário funciona como uma ida à uma roda de samba de raiz,  sentir a boa música à flor da pele e voltar a acreditar que bom samba ainda existe. Com este longa, ainda é possível acreditar que o verdadeiro futebol está além da vaidade e do dinheiro, ele está no meio do povo.






Ficha técnica do filme ImDB Campo de Jogo
Distribuição Tucuman Filmes

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