sábado, 9 de outubro de 2010

Perdas e Danos (Damage) - 1992


O cineasta Louis Malle é um dos grandes nomes do Cinema Europeu. Não por conta de sua filmografia, tida por alguns como menor em comparação aos seus contemporâneos da Nouvelle Vague como Truffaut, Chabrol e Godard, mas porque Malle é um homem à frente do seu tempo, muito mais provocativo e transgressor desde Os Amantes (1958), uma das obras primas sobre a infidelidade feminina. Com uma direção sofisticada que não perde o viés crítico à burguesia, ele também é reconhecido pelo imperdível Perdas e Danos, um filme que demonstra que ele continua sabendo dirigir o Erotismo mais de 30 anos após seu Les Amants. Estrelado pelos fascinantes Jeremy Irons e Juliette Binoche que juntos formam um dos casais mais inesquecíveis do Cinema, Perdas e Danos é memorável pelas cenas sexuais intensas e bem realistas que chegaram a ser censuradas na época do lançamento do filme. Baseado no romance Damage de Josephine Hart, o longa-metragem relata um tórrido caso extraconjungal entre Stephen Flemming (Irons), um político conservador que se envolve com Anna Breton (Binoche), filha de seu filho Martyn (Rupert Graves). Ao entrar nas searas do desejo desenfreado, da paixão fulminante, do erotismo à flor da pele, do sexo incontrolável, da liberação feminina, da solidão, da infidelidade de um homem convencional e da destruição de uma família, Perdas e Danos é definitivamente um filme sobre perdas e danos.







No elenco, o ponto alto é Juliette Binoche, ainda que Jeremy Irons e Miranda Richardson estejam magníficos em seus papéis de homem infiel e mulher traída, principalmente no trágico clímax da película. É o papel de Binoche que divide as águas de uma família. A talentosa diva Francesa encanta com sua sutil beleza, elegância e o mistério de uma mulher de passado questionável. Quem é Anna Barton? Muito pouco é revelado e o pouco que é relatado deixa a incógnita: Ela é confiável? Ela é previsível? Talvez não, talvez não. Só é evidente que Anna Barton, ainda que guarde uma aparente vulnerabilidade e delicadeza, é uma mulher liberal, não destinada a ter homens que a comandem e disposta a ter uma vida dupla levando dois homens para a sua cama. Ainda que ame Martyn, ela tem a ousadia de deixar o desejo possuí-la por completo, transa com o próprio sogro, dando início a um triângulo amoroso de irreparáveis desdobramentos. Esta paixão é tão intensa e tão realista, principalmente na interpretação de Jeremy Irons que o fime é uma obra prima do desejo obsessivo que faz perder a razão. Desde o início do filme, Stephen é o político do alto escalão Inglês que tem uma aparente vida perfeita: emprego estável, posição e status sociais, esposa dedicada e filho talentoso. Tudo isso passa a ser menos relevante a partir do momento que ele só tem olhos para Anna. O talento de Jeremy Irons é visceral em Stephen, na forma como ele olha para a amante, na forma como ele a possue sexualmente, na forma como ele se desespera sem sua presença, na forma que ele se deixa consumir por incontrolável paixão. Sendo assim, Perdas e Danos na interpretação do ator torna-se um filme de uma obsessiva dependência do outro, no qual o primeiro ministro deixa cair a máscara da fria aparência, e não sabe exatamente como lidar com o turbilhão de emoções que recae sobre ele.






Louis Malle é formado em Ciências Políticas, logo para o cineasta deve ter sido um bel-prazer adentrar o universo de um político e fazer desmoronar a hipocrisia burguesa, no entanto há outras referências da filmografia de Malle aqui: A liberação sexual e traição femininas em Binoche assim como em Jeanne Moreau de Os Amantes, há em Binoche o incesto com o irmão assim como em outro filme de Malle, Sopro do Coração, há uma direção que valoriza uma estética visual pautada na fotografia e na pintura, basta observar a cena em que Juliette Binoche está na cama, de costas para a câmera e com o corpo nu como uma pintura viva. Além disso por trás do drama, há um verdadeiro thriller erótico , que guarda a tensa surpresa do que virá na próxima sequência e a densa carga psicológica no qual a todo o momento tentamos entender o que sentem os amantes, qual o verdadeiro passado de Anna com seu irmão, porque Stephen é destinado a ter um desfecho como aquele. As cenas em família com todo o simpático formalismo revela a hipocrisia das aparências, afinal os amantes fingem não ser amantes naquele ambiente tão culto e sofisticado na casa do primeiro ministro Britânico. A grande ironia é que os amantes não são os vilões da história, na verdade não há vítimas porque não há como controlar o desejo, a paixão obsessiva simplesmente acontece e é avassaladora, c
omo nas emblemáticas cenas eróticas de Binoche e Irons nas quais numa delas ele braveja "Quem é você?, rasga sua roupa e a possue ali mesmo no chão. Ele não pode resistí-la e deseja devorá-la, ela quer ser devorada. Logo, a paixão tem que ser vivida no mais arrebatador do desejo carnal, mesmo sob o risco de serem surpreendidos por aqueles que eles mais amam. Assim, Louis Malle é um ótimo diretor para uma temática como esta porque ele não vulgariza a relação infiel, ela é realisticamente visceral inclusive as perdas e danos advindas desta traição, basta observar a cena em que Miranda Richardson tira a própria roupa e diz ao marido: "Alguma vez se apaixonou por mim"? Amou isto? Não bastava isto?" e mostra o corpo nu, o rosto de deprimente decepção como se nada mais fizesse diferença, até mesmo o seu falido casamento. Em seu desfecho, Perdas e Danos confirma mais uma vez que não há explicação porque nos involvemos em nossas intensas paixões, mesmo que elas nos tragam perdas e danos irreparáveis, somos impulsionados a vivê-las até nas lembranças mais distantes, mais marcantes.


Avaliação MaDame Lumière


Título Original: Damage
Origem: Alemanha, Inglaterra, França
Gênero(s): Ação
Duração: 111 min
Diretor(a): Louis Malle
Roteirista(s): David Hare, baseado no romance de Josephine Hart
Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Ian Bannen, Peter Stormare, Gemma Clarke, Julian Fellowes, Leslie Caron, Tony Doyle, Raymond Gravell¹, Susan Engel , David Thewlis, Benjamin Whitrow, Jeff Nuttall

4 comentários:

  1. Olha, história espetacular. Fiquei interessadíssimo em conferir o filme, ainda mais tendo a direção de Louis Malle, diretor que preciso conhecer melhor dua filmografia. Ótimo texto!

    Bjs.

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  2. Excelente crítica. Descreve tão bem o filme Madame, que cheguei a me arrepiar todos os pelinhos do meu plote (à la Alex DeLarge). Rs!

    'Perdas e Danos' e um filme que não perdemos nada e tampouco não é danoso em conferir. Simplesmente uma lição da vida que fica com os personagens, lindamente interpretados. Irons com seu machismo delicioso e sedutor e Binoche com sua delicadeza, sutileza e safadeza na mais naturalidade possível. O perfeito exemplo de libertação sexual sim, mas ainda acho que tudo é conduzido no sexo da maneira mais primórdia homem e mulher. Domínio e passividade.

    Sem dúvidas Malle é referência para diretores como Almodóvar, Phillip Kaufman e por ai vai. Inclusive Pedro Almodóvar já fez inúmeras referências à Malle nas suas fitas. Acho que uma delas: "a mulher foi devorada por crocodilos", uma metáfora usada num dos diálogos em Má Educação, por exemplo.

    Descrição e filme à flor da pele.
    Adorei. Bjs. Darling!

    Rodrigo

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  3. Para mim, o filme mais sexy da história do cinema!

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  4. Parabéns madame. Além da ótima crítica (falar o óbvio né?!), vc teoriza o filme esplendidamente. Permitindo o leitor uma intersescção com a obra de Malle que sendo muito franco nunca havia me ocorrido. Parabéns.
    Beijos

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