quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mostra SP 2010 : Sentimento de Culpa (Please Give) - 2010

34ª Mostra Internacional de Cinema



Sentimento de Culpa
é mais um ótimo trabalho da cineasta Nicole Holofcener, uma das mais atuantes e renomadas no Cinema Americano Independente e uma Nova Yorkina que celebra a Arte de fazer Cinema com a neurótica e cosmopolita cidade como pano de fundo, em uma versão que podemos encarar como uma Woody Allen de saias, mas sem o ceticismo que o acompanha e sem necessariamente ser Woody Allen, afinal cada um é único e está no seu quadrado. Nicole é sensível e espontânea para digirir as neuras das mulheres, naturalmente uma cineasta que dirige o cotidiano do ser humano e seus dilemas existenciais já que este seu novo filme tem um estilo cool indie e melancólico, com espaço para o riso dramático que funciona muito bem aqui, afinal temos que rir para não chorar da nossa louca normalidade com medos, anseios, frustrações, etc.
O início do filme já dá o tom feminino e é marcado por um plano de vários seios de diversos tamanhos, formas e tipos passando por processos de mamografia. Um belo começo para trazer à memória a singularidade de ser mulher.








Desta vez, o longa-metragem brinda-nos com a presença de Catherine Keener, queridinha da cineasta e uma atriz que não precisa do sucesso dos holofotes para confirmar que é realmente talentosa e responsável pela veracidade dos papéis que interpreta, aliás, mais um bom papel para Keener que expressa divinamente o título do filme. Aqui, ela é Kate, uma mulher de meia idade, esposa de Alex (Oliver Platt) e mãe da adolescente Abby (Sarah Steele) que é dona de um antiquário que compra objetos raros de pessoas falecidas. De forma muito racional e meramente comercial, Kate seleciona móveis antigos quando os familiares desejam se livrar do legado de seus mortos, assim Kate os compra por uma ninharia e vende por uma fortuna. Tal negócio dá a impressão que ela é uma microempresária capitalista e sem coração, porém não. Ela lida com o negócio como qualquer dono lidaria com o seu, a diferença é que ela compensa sua mea culpa, visitando lugares para voluntariado e doando dinheiro aos sem-tetos, daí o título do filme: Sentimento de Culpa (Please give).





Complementam este ótimo elenco, Rebecca Hall e Amanda Peet como Rebecca e Mary, duas irmãs orfãs de mãe (que se suicidou) e que vivem com a avó rabugenta, Andra (Ann Guilbert, em perfeita e hilária interpretação). Rebecca e Mary são dois opostos. A primeira é uma jovem tímida, desprovida do sex appeal, não se dá bem com os homens e não vive a sua juventude; ela trabalha como técnica de raio-x auxiliando as mamografias das pacientes, além disso é muito dedicada à avó. Rebecca incorpora tão bem a sonsa da outra Rebecca que a vontade é entrar na tela e dizer: Querida, viva a sua vida porque você é uma boa jovem, merece ser feliz!
Mary trabalha como esteticista em um spa, vaidosa e sexualmente desejável, vive perseguindo a namorada do seu ex (para neuroticamente comparar-se e entender porque foi trocada por outra) e simplesmente odeia a avó. Em uma das raras vezes, Amanda Peet tem um papel decente que exige dela um amadurecimento como atriz. Ainda que Mary só pense nela mesmo, ela é uma mulher frágil por trás da carcaça de femme fatale, só não aprendeu ainda a aceitar isso. Oliver Platt representa aquele homem casado que já vê a esposa como amiga e se sente confuso ao sair do seu papel de marido fiel. Já Sarah Steele é o arquétipo da adolescente que sofre com a pele acnéica, se acha gorda e não consegue encontrar o jeans perfeito e muito menos a grana da sua mãe.






Tanto Rebecca e Mary quanto Kate e Abby lidam com as neuras femininas, roteirizadas e filmadas aqui de forma muito leve, com o realismo do dia a dia e belas imagens de Manhattan.
Para elevar o filme a um bom longa-metragem, a atuação de Catherine Keener é fundamental. Ela sabe como atuar vestindo a própria atmosfera indie do filme e isso só reforça o quanto ela é diferenciada e perfeita para trabalhar em filmes do Cinema independente Americano. Ela eleva o filme à seguinte premissa básica para estas produções: 'a vida é o que é e eu sou o que sou'. No geral, todos estão bem, sem estrelismos, sem extremismos, por isso o roteiro do filme não moraliza sentimentos tão humanos como o materialismo, o egoísmo, a traição, a raiva, a solidão, a culpa, a indecisão, a rejeição, etc. Pelo contrário, demonstra que estas emoções e/ou comportamentos são naturais e fazem parte da ambiguidade do ser. É exatamente isso que nos torna o que somos, e a culpa é um destes sentimentos muito humanos. Sentimos culpa nas mais variadas situações: por ter dito não quando queríamos ter falar sim; por trabalhar demais quando poderíamos se divertir; por ter enganado aquele(a) que menos merecia; por brigar com quem amamos quando gostaríamos de não tê-lo feito; por ter mentido quando queríamos ter desabafado a verdade; por ter dinheiro quando tantos outros não têm um centavo qualquer; por sentir que deveríamos ter tratado alguém melhor antes dele(a) morrer. São culpas! Não há mal em sentí-las, mesmo que isso doa demais, seja deprimente demais; o bem da verdade é que Kate representa aquele momento de nossas vidas que concluímos que nem todo o dinheiro que temos é suficiente para nos fazer felizes, que nem sempre podemos estar bem em tudo. Sempre falta algo. Sempre há um pouco de culpa em sentir-se mal com esta ausência. O que é este algo? Essa é a difícil resposta a encontrar que completa e dá sentido a todas as outras perguntas.


Avaliação MaDame Lumière





Título original: Please Give
Origem: USA
Gênero: Drama, Comédia Dramática
Duração: 90 min
Diretor(a): Nicole Holofcener
Roteirista(s): Nicole Holofcener
Elenco: Catherine Keener, Rebecca Hall, Oliver Platt, Amanda Peet, Ann Guilbert, Sarah Steele,etc

4 comentários:

  1. estou com uma puta vontade de ver este filme, hehehe.

    Abs minha darling ;)

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  2. Não gosto da Nicole Holofcener como diretora, mas sempre me impressiona a capacidade dela de reunir bons elencos em seus filmes.

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  3. Acho "Amigas com Dinheiro" legalzinho, que pecou muito no final, para mim. Mas, este filme tem uma premissa mais interessante. Fiquei curiosa!

    Beijos! ;)

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  4. Estou curioso por esse filme. Mais ainda agora. Pena que não há previsão de estréia aqui para Sampa. A do dia 29 de outubro (sexta passada) era só para o Rio de Janeiro.Assim como Scott Pelgrin só estreará em SP no fim de semana que vem.
    Beijos

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