sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mostra SP 2010: História de Kyoto (Kyoto Uzumasa Monogatari) - 2010


História de Kyoto é um filme sobre o Amor ao Japão em várias de suas facetas. Do amor carnal de homens e mulheres, do amor à família e sua dedicação ao trabalho de geração a geração, do amor ao Cinema de Akira Kurosawa, do amor aos sonhos jovens de ser o que se desejar ser, do amor à tradição dos valores e costumes japoneses que superam escolhas individuais. No início da projeção, o cineasta Yoji Yamada apoiado pelo co-diretor Tsutomu Abe esclarece: Esta é uma história de amor. E, assim, o longa fluí delicadamente, singelamente com uma câmera realista que enfoca o cotidiano dos habitantes de Uzumasa, na Cidade de Kyoto, começando em uma narração em off que dialoga metalinguisticamente com a história do Cinema Japonês e sua época de ouro: nos estúdios Daiei em Uzumasa foram rodadas imagens de grandes clássicos de Kurosawa como Rashomon (homenageado este ano na Mostra) e Mizoguchi's Ugetsu Monogatari (Contos da Lua Vaga). Posteriormente, Yamada utiliza o recurso de filmar depoimentos do elenco, do dono de uma loja de tofu a jovem bibliotecária da universidade local, neles emerge traços do Japão para uma ode cinematográfica de amor ao país.





História de Kyoto também homenageia o Cinema de Kurosawa


O argumento não se envereda a criar um épico, pelo contrário, História de Kyoto não pertence ao gênero e se ajusta muito mais a uma drama de amor que ultrapassa a esfera do relacionamento do triângulo amoroso da história, composto por Kyoko, Kota e um professor de linguística de Tóquio. Kyoko ( Hana Ebise) é filha do dono da lavanderia, bibliotecária da universidade e namorada de Kota. Kota é filho do dono da loja de tofu e um aspirante a comediante stand-up. O professor, que está de passagem pela cidade,acaba conhecendo Kyoko e se apaixona loucamente por ela. O trio é discreto e não há intimidade física, porém o que é interessante na cultura Japonesa, inclusive em livros literários que expressam o seu amor passional é que há uma passionalidade mesmo em meio a discrição. Kyoko é extremamente dedicada e fiel a Kota, ainda que o namorado não se interesse em dialogar com ela sobre os sentimentos dela. Kota é o jovem imaturo que só pensa em realizar os seus sonhos e não se interessa pelo negócio do seu pai. Sua aspiração ao humor é tão importante que ele não se dá conta que não é engraçado. O professor é a figura passional na atuação, ele é a passionalidade exacerbada japonesa da Literatura a Escrita, isso explica bem porque ele é o homem das letras, o homem anônimo, intenso e divertido. Ele mal conhece Kyoko mas é tomado por uma obsessão fragilizada, ansiosa. Ele é o homem maduro, autosuficiente e culto que sabe escrever até poemas em ideogramas chineses. Ele encanta Kyoko por ser um japonêns 'estrangeiro' e cheio de conhecimento. Não a toa que Kyoko se sente vulnerável a iniciar um verdadeiro triângulo amoroso. Ela é a expressão do jovem japonês tradicional dividido pelas suas emoções.




Yoji Yamada é homenageado com o Berline Camera no Festival de Berlim 2010


O que é muito bonito em História de Kyoto e seu diferencial como produção cinematográfica é a homenagem ao Japão, apreciável em detalhes do dia a dia da cidadezinha e de como os japoneses mais tradicionais, representados aqui como os pais de Kota e Kyoko são a expressão de um Japão que se reconstruiu através do trabalho duro. Para tal Yamada e Abe dividiram o amor japonês até em sua direção, ou seja, o filme é um projeto experimental conjunto entre eles e estudantes da Universidade de Ritsumeikan por isso o resultado é positivo, com vibes orientais todos os lados. É louvável ver traços da cultura como a culinária com close-ups em tofu, macarrão, arroz; os festivais coloridos e ao ar livre, as bicicletas estacionadas na rua, as construções típicas, os livros com ideogramas, o passado e o presente expressos pelo trem antigo e o trem bala. Há imagens que exigem total introspecção para concluir o quão sublime é contemplar cada cultura em sua singularidade, principalmente a japonesa. Em um dos melhores depoimentos, a dona de um restaurante comenta nostalgicamente quando servia a equipe do Cinema dos estúdios Daiei. Uma belezura ver e imaginar se ela serviu um delicioso prato japonês a Kurosawa entre uma filmagem e outra. Outra beleza da história está na camada relacionada a como questões individuais como loucos sonhos de carreira e amor não são desenvolvidos pelos jovens devido ao apego à tradição. Os jovens japoneses tem estes dilemas bem impregnados na cultura, tanto que há um grande número de suicídios no país devido a rigidez imposta. Embora o filme não se enverede à tragédia, ele transmite uma melancolia e uma passionalidade ao mesmo tempo. Kyoto é uma jovem que segue a tradição. Trabalha arduamente na biblioteca e na lavanderia, apoia o namorado e chora diante dele ao ser ofendida, fica indecisa para fugir com outro homem para se manter ao lado da convencionalidade da sua relação. Kota é o jovem que quer incluir o riso constante em sua vida, a plena realização da alegria, mas ninguém quer rir com ele. Ele se torna a própria piada.



Hana Ebise: jovem no impasse entre a escolha libertária e a tradicional

História de Kyoto é Amor ao Japão, apesar dos seus pesares como qualquer país, afinal nenhuma cultura é perfeita mas todas afloram únicas belezas, seja com felicidade ou tristeza, esta é uma história de amor e como todas as grandiosas histórias de amor, há o silêncio que cala, o beijo que não é dado, a lágrima que sufoca, o adeus que não é dito... apesar dos pesares, há a esperança de um novo amanhã, a esperança de se realizar no amor com todos os seus defeitos e qualidades.


Avaliação MaDame Lumière


Título Original: Kyoto Uzumasa Monogatari
Origem: Japão
Gênero(s): Drama
Duração: 90 min
Diretor(a):
Yoji Yamada,
Tsutomu Abe
Roteirista(s):
Yoji Yamada, Sasae Tomoaki
Elenco: Hana Ebise, Tanaka Sotaro

Um comentário:

  1. Estou adorando ler sobre os filmes que você anda assistindo na Mostra! :)

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