Por Cristiane Costa Relacionamentos amorosos e suas (im)possibilidades é um amplo e fértil campo para fazer...




Por Cristiane Costa


Relacionamentos amorosos e suas (im)possibilidades é um amplo e fértil campo para fazer filmes e cultivar um hábito de desenvolver uma consciência sobre o Amor e seus variados desdobramentos e complexidades. Na literatura Francesa contemporânea, o autor Philippe Vilain é experiente em abordar o Amor através de diversos enfoques como o ciúme ("L'Entreinte", 1997), o adultério ("Paris l'après-midi", 2006) , a diferença de idade ( L'Eté à Dresde", 2003). Em Pas son genre, roteiro adaptado de seu romance de igual nome pelo diretor Lucas Belvaux, a história fala sobre um relacionamento amoroso que floresce entre duas pessoas com diferenças de nível cultural e social: Jennifer (Émilie Dequenne) e Clément Le Guern (Loïc Corberty de la Comédie  Française).


Clément é um professor de Filosofia no Ensino médio e vive em Paris. Frequentador de bons e descolados lugares e averso a manter relacionamentos amorosos por longo tempo, ele é o tipo de homem solteiro, sem filhos, estiloso, bem nascido e Parisiense por natureza. Clément é enviado para dar aulas no interior da França, em Arras. Inconformado com a decisão, ele aceita o trabalho e é destinado a permanecer um ano por lá. Seguindo uma rotina entediante longe de Paris, sua vida muda quando ele conhece a cabeleireira Jennifer. Mãe solteira, Jennifer é uma mulher bonita, radiante e alegre, que acredita no Amor e gosta de cantar em bares com seu grupo de amigas.  Ambos se apaixonam e curtem a relação.




 

Muito mais do que uma comédia romântica graciosa com a leveza e ligeireza do Cinema Francês,  Pas son genre é uma comédia dramática de duas pessoas que se apaixonam e são bem diferentes. Junto com  o clima agradável da comédia, há uma aura melancólica na relação que tem muito a nos fazer pensar sobre as inviabilidades de um romance. O drama do amor está esmiuçado em situações bem simples que marcam suas diferenças de ideias, de objetivos de vida, de nível social e cultural. Porém, o maior dos dramas é o de tentar ser feliz em um relacionamento quando, nem sempre, a outra parte está engajada a fazer dar certo ou não consegue oferecer nada além de uns encontros sexuais e sem qualquer objetivo de construir um relacionamento duradouro. 
 

Jennifer é a mulher que chegou àquela bifurcação da vida na qual não quer escolher o mesmo tipo de homem indeciso e descompromissado. Está disposta a tomar uma atitude de autoconfiança e autoestima e parar de buscar o amor em homens que não podem lhe oferecer um relacionamento completo. De repente, surge Clément. Disponível, boa pinta, inteligente e com ótima química sexual, ela coloca em prática a ilusão do Amor. Por mais clichê que seja observar Jennifer, uma mulher bela, divertida, independente e trabalhadora tão aberta ao amor como se fosse uma adolescente romântica, o que faz a diferença aqui é a boa atuação de Émilie Dequenne, o melhor do filme. Ela teve carisma para trabalhar com um texto pobre e que infantiliza Jennifer. Há cenas que dão vontade de rir exatamente porque sua personagem é adorável mas vive em um planeta cor de rosa. Se o filme não fosse ficção, ela teria levado um fora de Clément na primeira tentativa de agir como uma teen girl.


 





O filme pincela cenas com a diferença sócio-cultural entre ambos. Sendo ele filósofo, mais  blasé, cínico e seco,  seu perfil faz um contraponto com a natureza adorável, simpática e espontânea de Jennifer, uma mulher que adora cantar em karaokês, lê revistas sobre fofocas de celebridades e se veste vulgarmente. De cara, por mais que haja química e Clément esteja ali em Arras privado de seus amigos e com uma nova companhia, este casal chegaria a uma situação de esgotamento do relacionamento. Sutis atitudes demonstram que ele deseja "educá-la" com outros livros complexos, que tem medo de expor que não acredita muito no romance tradicional, que está atento à forma como ela se veste, os lugares que frequenta e como se porta. Jennifer não abre mão do jeitinho de primeira namorada que continua agindo como uma adolescente, assim como tenta não pressioná-lo muito a trata-la como namorada, fica triste e angustiada. Fica evidente de que ela merece um homem capaz de atender a sua crença no amor romântico.  Clément não  tem este perfil.





 


O romance tem desenvoltura no plano da fantasia amorosa. Ambos os atores são bonitos e tem química sexual, o que rende envolventes cenas. Na primeira noite de amor de Jennifer e Clément, a intensidade do desejo, o romantismo no toque e nos beijos e a energia  são incríveis e muito bem conduzidas em cena. Apesar das flores, a história também carrega os espinhos do amor. Há um mal - estar constante,  o de suas diferenças. Com isso, a narrativa é construída para marcar essas diferenças sem oferecer muito espaço para que sejam assertivamente discutidas pelos protagonistas. Quando elas são verbalizadas no texto, o conflito não é bem desenvolvido. Como consequência, o filme joga o espectador em uma história que carrega a frustração de romances nos quais os casais também não conseguem discutir a relação.






A complexidade do Amor x  nosso jeito de ser e escolhas individuais é o principal traço interessante aqui. Clément não é um homem cafajeste, vilão. Ele apenas tem princípios morais diferentes com relação ao Amor. É como um homem que não abriria mão de viver em uma cidade urbana para viver no interior por causa de um romance, um homem que não está preparado para conhecer o filho de uma amante que é mãe solteira, um homem que se identifica com Paris.  A sua indecisão é incômoda. Ama ou não a Jennifer ou é uma questão de sexo bom e agradável companhia? Em algumas situações, a covardia de  falar a verdade  a ela lhe é uma característica presente, no entanto, é um indecisão que faz parte do jogo do amor e da vida. Uma mulher também pode ter principios claros que norteiam seu estilo de vida, como não abrir mão da carreira por causa de um homem e, ainda assim, estar apaixonada e desejar permanecer com ele.





 
Ainda que seja uma relação condenada a não evoluir, a grande falha da adaptação do filme é não ter desenvolvido muito a perspectiva de Clément  sobre a diferença cultural e seus dilemas morais para desenvolver esta relação. Considerando que o livro original é narrado em primeira pessoa e o personagem tem mais liberdade para dizer o que pensa, o roteirista teve os cuidados para não expor uma história que leva a  preconceitos entre classes sociais abertamente tratados em cena, e portanto, por inabilidade ou tomada de decisão não desenvolveu o personagem de Clément, que poderia muito contribuir para compreender esta obra. Lucas Belvaux transforma o filme em uma comédia romântica mais "bonitinha" com o uso dos velhos clichês nos quais o homem é a parte indecisa e passiva na relação e a mulher é a parte mais graciosa e frustrada. O resultado final dá a impressão de que o livro  tem muito mais a oferecer sobre este tema.


Se relacionar com uma pessoa de nível social e cultural e de objetivos tão diferentes de nós traz incômodos naturais que podem ou não ser superados. O filme não vai dar as respostas, depende de cada situação, do tempo, do Amor. No conflito entre Jennifer e Clément, aquele sol que brilhava no romance é encoberto por nuvens escuras, trovões, raios e previsões de chuvas torrencias.   É essa dinâmica de drama - comédia - romance que faz de Pas son genre uma graça. É simples, charmoso e engraçadinho. Seu lado romântico cor de rosa traz a melancolia que  se sente quando o Amor é um bicho complicado de lidar.


 




Ficha técnica do filme ImDB Pas son Genre

Previsão de estreia no Brasil: 13/08/2015 Um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês de 2015 .  Por Cristiane Costa...


Previsão de estreia no Brasil: 13/08/2015
Um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês de 2015 . 




Por Cristiane Costa




Depois que novos trabalhos de Guillaume Canet desembarcaram no Brasil,  "O homem que elas amavam demais" no circuito comercial e "Na próxima, acerto no coração" durante Festival Varilux de Cinema Francês, fica mais evidente que Canet é um ator sob medida para interpretar homens dissimulados, sedutores, perigosos e psicologicamente transtornados. Seu excelente desempenho mantém o je ne sais quoi  da elegância Francesa com a  experiência como ator e diretor e aura misteriosa e intrigante de um personagem ambíguo.  








No filme dirigido por Cédric Anger e baseado em história verídica de Alan Lamare, o "Assassino de Oise", o roteiro, também escrito pelo diretor, é resultado de uma pesquisa documental de testemunhas, atas de processos, cartas do assassino e no livro Un assassin au-dessus de tout soupçon (Um assassino acima de qualquer suspeita) de Yvan Stefanovitch.  Guillaume Canet é Franck Neuhart, um  policial militar  (gendarme) da cidade de Oise, na França, que vive sozinho, eventualmente visita sua família e tem um affair com Sophie (Ana Girardot). Entre 1978 e 1979, um onda de crimes aterroriza a cidade e espalha medo e angústia. Jovens garotas são assassinadas após pegarem carona com um desconhecido. Franck se empenha vigorosamente em investigar os homicídios, no entanto, de forma bizarra, ele é o próprio maníaco. Por trás de sua discreta postura, disciplina profissional e habilidades de treinamento em guerra, Franck é um serial killer que escolhe suas vítimas aleatoriamente, troca de carro a cada crime e não pode se conter, as executa friamente. Também, tem crises de autoflagelação e um comportamento dual entre o corpo de ordem (policial) e o corpo sujo, pecaminoso (criminoso). Um homem louco que sofre na própria pele a maldição de ser um assassino. Um homem que deveria defender a população ao invés de matar jovens inocentes. E o que é mais louco no filme? Este serial killer é sensível e é possível compreender um pouco sobre ele. Ele é um infeliz!





"Estar dentro das impressões do personagem, foi isso que determinou tudo: câmera, movimentos, luz, som. Frequentemente durante as filmagens, eu lembrava à equipe que tínhamos que o filmar como se ele fosse um artista, estar dentro das suas emoções." 
(Cédric Anger)





"Na próxima, acerto no coração" conduz o espectador a um mood bem obscuro na fotografia, sendo este um dos seus maiores êxitos além da atuação de Canet.  O talentoso diretor Cédric Anger demonstra ter total controle dos efeitos psicológicos de um thriller e nos entrega um filme frio, escuro, áspero com elementos verídicos e fantásticos. Ele também carrega sofisticação nos enquadramentos. Ainda que crie instabilidade para enfocar a nervosidade do protagonista, trabalha bem tanto com câmera na mão como com planos mais estáticos e travelling. Também, apresenta movimentos de câmera que referenciam a David Fincher e utiliza muito seu expertise em luz para criar uma atmosfera fantasmagórica com os elementos da natureza, realizando uma ponte entre as emoções do protagonista e sua familiaridade com as sensações da floressta. No mais, a fotografia é fria, melancólica, enfumaçada como a vida naquela cidade isolada perturbada pelo crime, na qual se vê poucos moradores e não há espaço para momentos luminosos, tanto que o diretor proibiu o uso de branco. A direção intercala tomadas internas de Franck em seu fétido apartamento, ou com sua amada, família e policiais, e com seus ataques homicidas e as suas visões e pesadelos na floresta, no pântano. Portanto, o longa-metragem se sustenta por uma força visual inquietante por não apresentar nenhuma grande reviravolta ou distrações como espetáculo. Tudo é mais tênue, misterioso, balanceando o cotidiano do personagem com a sua contemplação da natureza noturna.



Tudo é voltado para o trânsito do protagonista e como ele se comporta em cena. Acompanhar a narrativa é analisar o comportamento de Franck. Este é o foco da direção.  "Na próxima , acerto no coração" é colocar uma lupa sob o assassino, na perspectiva dele. O olhar da câmera nos convida a observar como é Franck, o que se passa na mente dele, como é dissimulado diante dos outros policiais, como são seus momentos de agressividade, suas fugas da polícia, suas idas à floresta. Pouco saberemos dele pois é o tipo de serial killer que vive o conflito de matar, um desajustado que não consegue pedir ajuda, que se esconde por trás da farda (e se liberta dela quando decide matar).  Não pode impedir a si mesmo por mais que tente ter uma vida afetiva, se socializar com o irmão mais jovem e ser admirado pelo seu chefe Lacombe (Jean - Yves Berteloot). Entendendo um pouco melhor a história de Lamare, é perceptível que ele é um frustrado. Não conseguiu ser o herói militar que ele desejava contribuiu para ele ficar mais insano. Acima de tudo, ele é um personagem bastante dramático, sensível, dividido entre seu lado policial, de ordem e moral, e seu lado criminoso, sujo, decadente. Permanecerá um enigma.





"O que me agradou muito no papel, foi de interpretar um personagem “que sofre ao matar”. Está muito claro isso quando ele embarca a jovem que pede carona na frente do colégio e que ele diz: “eu vou lhe machucar”. Ele não sente nenhum prazer nisso. O ato de matar lhe dá medo, o transtorna, o sangue o impressiona. É um assassino tão diferente que ele não tem essa queda pelo sangue, nem essa pulsão frenética de matar. Ele sente apenas um mal-estar profundo que o leva a fazer isso." (Guillaume Canet )


Até mesmo as mortes são objetivas, enigmáticas. O assassino troca de carro, pega a estrada, escolhe uma garota, tem um momento de tensão pessoal e atira apressadamente na vítima. Franck é um serial killer sem grandes métodos ritualísticos pois não gostava de sangue e matava de forma estabanada, por isso a frase "Na próxima, acerto no coração". Ele nunca conseguia acerta-las com precisão, o título do filme é a sua tentativa de autoafirmação. Como um solitário frustrado que não deu certo na carreira e continua como policial de um cidade pequena, seu território é Oise. Lá ele decide ser o terror. A construção da narrativa explora as locações da cidadezinha e a própria convergência entre a solidão da cidade, com floresta aos arredores com a vida do serial killer, de isolamento. Com a crível atuação de Guillaume Canet ao representar um personagem que não tem controle sobre si mesmo e não é reconhecido pelo "valor policial " que desejava ter, assim, este filme tem uma boa veia dramática por explorar que Franck usou seu talento de forças armadas da pior forma. Na biografia de Lamare, havia um desejo de ele ser de forças policiais de elite, porém isso nunca aconteceu. Levou várias recusas, é bem provável que sua mente furiosa tenha decidido ser popular pelos métodos mais equivocados e repugnantes. Porém, o enigma persistirá. Ele conseguiu enganar até os próprios colegas.



"É um personagem único em todo caso. Muito ambíguo. Que podia ser muito sedutor e ao mesmo tempo que sentia um tal mal-estar... Ele era o companheiro preferido dos colegas e ao mesmo tempo, ele instalava armadilhas em carros que iam explodir nas suas caras... Nos poucos documentários que foram feitos sobre ele, vemos os seus colegas, mais de vinte e cinco anos depois, que falam dessa história soluçando, chorando..." (Guillaume Canet)



Apesar de perder oportunidades de trabalhar maior tensão e conflitos na onda de assassinatos, este é um bom longa-metragem e tem como destaque a direção, a fotografia e a atuação.  O roteiro perde em ação inteligente e em clímax, permanece como um thriller "behaviorista" e psicológico do que como um thriller de investigação e não utiliza bem os coadjuvantes. Assim como o seu protagonista, o filme é um lobo solitário, o foco não é perseguir o lobo e sim observá-lo. Como contribuição para o Cinema, sua história retoma a dissimulação da sociedade. Embora pouco explorada no roteiro através de outros personagens, ela existe. Não apenas a de Franck. A da sociedade da época. O fato do assassino ser um policial militar foi um escândalo, afinal, e a moral e os bons costumes na França? Um policial matador de jovens garotas em uma cidade do interior? Como lidar com isso em uma época que valorizava a ordem desta instituição? A história  do "Assassino do Oise" foi silenciada na mídia. Vítimas e familiares foram silenciados na busca por justiça. Com este filme, podemos tentar compreender um pouco mais quem foi este serial killer, um criminoso que não foi julgado, que ficou marcado na história como mais um impune.






Ficha técnica do filme ImDB Na próxima, acerto no coração


Créditos entrevista via Califórnia filmes 

O que as mulheres querem ( Sous les jupes des filles , 2014) é o primeiro longa-metragem de Audrey Dana e traz uma comédia apenas co...





O que as mulheres querem (Sous les jupes des filles, 2014) é o primeiro longa-metragem de Audrey Dana e traz uma comédia apenas com personagens centrais femininas. No total são 11 mulheres em situações relacionadas à carreira, amor, casamento, saúde, entre outros. Embora bem intencionado para tratar questões cotidianas sobre o universo feminino e ter um elenco de ótimas atrizes como Isabelle Adjani, Vanessa Paradis, Laetitia Casta, Julie Ferrier e Sylvie Testud, o filme se perde em sua própria ambição de trabalhar com diversas histórias que não se conectam verdadeiramente com o público.


Ainda que se trate do primeiro filme e há uma inexperiência natural da cineasta para orquestrar cenas que falam pela emoção e com sinceridade sobre mulheres, o roteiro emenda histórias que, em si, pouco desenvolvem os personagens e que poderiam ter melhor significado prático para a compreensão do público, principalmente o feminino.  O roteiro é extenso e a edição é costurada sem efetivos ganchos que apreendem a atenção e mantêm o vínculo com cada personagem. Tanto que qualquer uma destas histórias poderia ser retirada do texto e não faria qualquer diferença. Não conquistam. Não permanecem. A grande ironia de "O que as mulheres querem" é que roteiristas e diretora não sabiam o que elas querem. Se soubessem, o resultado seria mais positivo. Com isso, o longa se arrasta por quase duas horas, com um desperdício de subtemas e atrizes. Um exemplo claro disso é o trio de boas atrizes dramáticas como Isabelle Adjani, Julie Ferrier e Sylvie Testud que têm personagens extremamente pequenos e subutilizados.








À luz dos dilemas da evolução da mulher na sociedade, duas tentativas que poderiam ter sido melhor elaboradas são relacionadas a personagens Rose e Ysis . Rose (Vanessa Paradis), uma executiva que , embora cercada de homens no escritório, tem a vida solitária e pouquíssimos vínculos como familiares e amigos. Na tentativa de mudar sua rota de relacionamentos, ela começa a baixar a crista e retomar amizades. Ysis (Geraldine Nakache) é uma dona de casa, pouco vaidosa e com um marido galanteador. Ela se envolve em um relacionamento homossexual e muito pouco do seu dilema é desenvolvido. Desta forma, o filme é uma bonita colcha de retalhos à primeira vista mas não aquece o coração. 







Falar sobre desafios diários como "manter um casamento", "ser sexualmente atrativa e ainda cuidar de quatro filhos", "ter desejo por outras pessoas, inclusive do mesmo sexo", "resgatar ou manter o vínculo afetivo com amigos, conhecidos e familiares", "lidar com a autoestima", "lançar-se em um novo relacionamento" etc são temas recorrentes em vários filmes. A diferença é que, ao propor um filme sobre mulheres, é necessário entender como elas funcionam, como se conectar com elas (e também com os homens) em cenas que  conquistem pela honestidade, como ser um bom contador de histórias que dê conta da complexidade que é falar do sexo feminino em uma narrativa simples, leve e bem humorada. Aqui, são poucas as cenas que existe esta sinceridade. Por mais que se dê um crédito a um longa de estreia, a experiência é cansativa, frustrante e sem ritmo. 



É importante ressaltar que pulverizar histórias com poucos personagens seria uma estratégia mais objetiva e potencialmente bem sucedida.  O risco de trabalhar com n histórias e não dizer muita coisa é um risco previsto para cineastas sem muita experiência em direção, tanto que, até os mais experientes, também têm que ter uma sólida habilidade para montar um filme com elenco central maior. Agregar como a mente de uma mulher funciona torna o desafio cinematográfico bem arrojado. Desafio e dom para poucos.






 Ficha técnica do filme ImDB O que as mulheres pensam


 Por Cristiane Costa Há cineastas que, muito mais do que representarem a mulher na direção, têm o dom de fazer filmes com boas hi...



 Por Cristiane Costa


Há cineastas que, muito mais do que representarem a mulher na direção, têm o dom de fazer filmes com boas histórias sobre mulheres. Evocam a beleza feminina em cada plano e o revelar de sua complexa e delicada psicologia. Anne Fontaine é uma delas. Conhecida por adaptar a obra de Edmonde Charles-Roux sobre a icônica estilista Mademoiselle Coco Chanel em "Coco antes de Chanel", a diretora  retorna ao Francês cenário cinematográfico com "Gemma Bovery", adaptação do romance gráfico de Posy Simmonds, que aborda a vida de uma inglesa na Normandia dividida entre a esperança por dias melhores ao lado do marido, o desejo e as aventuras com um amante rico e o tédio de uma rotina bucólica.





Gemma Bovery (Gemma Arterton) e o marido Charlie (Jason Flemying) são um jovem casal inglês que se muda para a Normandia. O vizinho Martin Joubert (Fabrice Luchini) é um ex-Parisiense e trabalha como padeiro. Como admirador do livro "MaDame Bovary" de Flaubert, Joubert se encanta com a beleza e semelhança do nome de Gemma com o clássico, além da jovem começar a vivenciar situações similares como a de MaDame Bovary como ter muitas dívidas, ficar entediada com a vida no interior e interessar-se pelo amante Hervé de Bressigny (Niels Schneider). Joubert e Gemma Bovery se tornam amigos e ele se ocupa em observar a vida dela, demonstrando uma engraçada obsessão a ponto de se sentir culpado pelos tristes acontecimentos que ocorrem com a moça.






Gemma Bovery flerta com o clássico literário de Flaubert, "MaDame Bovary", porém é outra história a ser contada:  uma charmosa comédia dramática que se destaca pela bela fotografia, a natural sensualidade de Gemma Arterton e a excelente atuação tragicômica de Fabrice Luchini.  Sua leveza está na delicadeza do texto, que guarda em si uma proposta mais cômica do que dramática, mais de esperança do que de infelicidade. Para levar isso adiante, e com sucesso, a escalação de Luchini para este papel foi essencial. Ele é um padeiro que já não vive na agitação de Paris, não tem um casamento amoroso e nem o filho lhe leva a sério. É um vizinho bisbilhoteiro com comportamento obsessivo. Resta-lhe fazer pães e preencher o seu tempo a imaginar coisas, principalmente ao contemplar o frescor da beleza de Gemma, muito bem fotografada para ressaltar sua feminilidade. A imaginação de Joubert é um ponto forte  e deixa o roteiro mais ligeiro e ficcional. Seu imaginário é como extrair parte da Literatura e sua capacidade de contar histórias e construir este paralelo metalinguístico com o Cinema. É como dizer: "não vamos levar Joubert tão a sério porque ele acha que está vivendo a própria obra de Flaubert. Contudo, ele é cordial e tem graça, então vamos dar-lhe algum crédito".  Com sua pose de cara calado e esquisito, Luchini está incrível. Quando faz uma expressão de sonso, ele ressalta o espírito tragicômico do filme.






O drama de uma jovem inglesa que se frustra com sua vida no campo e que está infeliz por pertencer a um nível social mais baixo não é novidade na fonte literária da obra de Flaubert, portanto, o que diferencia aqui é a brincadeira de Simmonds em realizar uma ponte entre o riso e as lágrimas, com um leve tom de esperança na vida.   Enquanto que Luchini representa o "riso", contribui com o efeito dramédia e tem um texto mais cômico , Gemma Arterton contribui com "as lágrimas", a beleza, a melancolia e uma luminosidade pessoal de que a vida pode dar certo. Sua personagem não é espetacularmente  uma mulher forte e inabalável, pelo contrário, ela é ingênua, dócil e confusa. Intensa e sexual quando faz sentido ser. Triste e depressiva quando não é possível aguentar o peso dos fatos. A humanidade de Gemma Bovery é seu leve otimismo apesar de todas as falhas pessoais. Mesmo com as dívidas, com as frustrações com o marido e outros amores, ela é um jovem que ilumina a tela. De forma muito bem acertada, a escolha de Gemma Arterton como protagonista foi exemplar. Acima de tudo, este é um filme que a câmera namora a atriz, do começo ao fim.







Construir uma ficção a partir de outra ficção e projetá-la no Cinema é um atrativo pois foge do "mais do mesmo" das adaptações literárias fiéis aos originais.  Aqui,  a ideia foi boa, só faltou caprichar no clímax, um das fraquezas do roteiro. No geral, com uma diretora que compreende o universo feminino, costuma fazer recortes mais focados nas adaptações e tem excepcional bom gosto na fotografia, Gemma Bovery se torna mais convidativo, então, bem vindo à Normandia e suas bucolidades que podem existir em qualquer parte do mundo!








Ficha técnica do filme ImDb Gemma Bovery

Por Cristiane Costa Beijei uma garota ( Toute première fois, 2014 ) é o recente longa-metragem do galã Pio Marmaï , jove...











Por Cristiane Costa



Beijei uma garota (Toute première fois, 2014) é o recente longa-metragem do galã Pio Marmaï , jovem, talentoso e experiente ator do Cinema Francês que  também está sendo homenageado no Festival Varilux 2015  com uma Mostra especial de sua filmografia. É uma comédia romântica bem divertida com um toque de conto de fadas moderno que poderá arrancar suspiros das mulheres e não agradar (alguns ou muitos) homens homossexuais. Tudo vai depender do ponto de vista e quanto cada um levará a sério o argumento do filme, que aborda a questão da identidade sexual, os malabarismos de uma vida dupla, uma forte e imprevista atração por outra pessoa e a decisão por um novo relacionamento amoroso.





Jeremie (Pio Marmaï) namora o bonito, sensível e charmoso Antoine (Lannick Gautry) há 10 anos e estão prestes a se casar, porém Jeremie passa a noite em um apartamento desconhecido ao lado de Adna (Adrianna Gradziel), uma bela, divertida e atraente sueca. Sua vida vira de cabeça para baixo e ele tem que conviver com a indecisão entre ficar com Antoine ou partir para um romance com Adna. O enredo também tem personagens coadjuvantes interessantes e que cooperam para intensificar o efeito cômico, como o seu amigo e sócio  Charles (Franck Gastambide), um hilário mulherengo que está acostumado a ter casos rápidos com modelos, ser exigente com beleza física  e não se fixar a nenhum relacionamento sério, assim como a explosiva e mal humorada Clémence (Camille Cottin), a assistente dos dois, que tem uma queda por Charles e não sabe demonstrar seus sentimentos por ele. O núcleo dos personagens de Charles e Clémence é igualmente divertido, complementa com sinergia as cenas com Jeremie e garante boas risadas. Gastambide e Cottin são excelentes atores para a comédia, com destaque para a última, uma atriz bastante expressiva. Com poucos lances de câmera, sua atuação minimalista e peculiar é hipnotizante.





A escolha de Pio Marmaï  é perfeita. Além da habilidade cômica, do estilo galã desajeitado e de ser responsável por sustentar o entretenimento até o fim com seu carisma e talento, com leveza, ele representa um homem com um dilema afetivo: dividido entre o desconhecido, o novo, o estrangeiro representados por Adna e o conforto , o lar e o ambiente familiar já bem instalados com Antoine. Se Pio Marmaï não tivesse competência para desenvolver empatia no público com seu jeito de garoto bonitão, original , engraçado e sensível, este papel poderia ser uma negação por tocar em um assunto delicado. Poderia simplesmente ficar ridículo, caricato e ofensivo! Mas não ocorre isso. Muito mais do que ter tido somente uma noite de sexo com Adna, Jeremie é gay e não imaginaria ter sentimentos intensos por ela. Pio Marmaï desempenha o papel com certa doçura e ingenuidade, apesar de vários momentos de um Jeremie confuso, egoísta e covarde para encarar os fatos. O primeiro crédito a dar para esta comédia é perceber como Jeremie ainda é imaturo e tem muito a aprender com a vida, inclusive conhecer a si mesmo.






Beijei uma garota foi escrito como uma fantasia delicada, uma história de amor inesperada e sobre um homem que precisa tomar uma decisão que impactará não somente sua vida, de seu atual parceiro e família, mas a vida de uma mulher que foi sincera com ele desde o início, por isso o filme deve ser encarado como um conto de fadas moderninho, um romance que pode ser factível como tantas histórias de amor improváveis que já aconteceram por aí. Já é sabido que muitos homens e mulheres já  "saíram do armário" e vice e versa. Embora seja difícil acreditar que após 10 anos, um homem  que tem relacionamento estável com outro homem fica muito balançado por uma mulher ao ponto de colocar em risco um casamento, no mundo contemporâneo da ÜBER sexualidade, tudo é possível, logo o filme não é tão heteroafetivo como parece ser. Para atenuar qualquer controvérsia, os roteiristas recorreram a algumas estratégias como a relação de amizade entre Jeremie e Antoine, capaz de superar separações e tristezas. É uma maneira simplista de encarar o conflito, é, e a comédia permite resumir e facilitar algumas polêmicas, porém pessoas entram e partem de nossas vidas. Compreender relacionamentos que não dão certo faz parte do jogo.








O roteiro acaba recorrendo a desenvolver um Jeremie que tem uma boa relação com a família, amigos e Antoine tal que o público tenha espaço para não se chocar com a indecisão dele, considerando que, até mesmo suas mentirinhas são compreendidas. Neste contexto, a excelente atuação de Lannick Gautry ajuda a fazer um bom par com Pio Marmaï. Ambos têm ótima química. Muito elegante e sensível nas suas cenas, Gautry atua como um gay apaixonante e evidencia que seu personagem sabe lidar de forma madura com os relacionamentos e seus problemas. Certamente, ninguém em sã consciência trocaria um  partido como Antoine por Adna, por mais simpática e fofa que ela seja.  O personagem de Gautry também ressalta que muitos homens homossexuais são atrativos e se aproximam a características desejadas tanto por homens como por mulheres. Antoine é sofisticado, sóbrio, bem sucedido, inteligente, compreensível e sensível, ou seja, o parceiro que muitos (as) pediriam a Deus. Portanto, o conflito da história é muito mais interessante: é sensato abandonar uma pessoa assim após anos de um relacionamento duradouro? Coisas que só o Amor  louco explica.







Ficha técnica do filme ImDB Beijei uma garota

Por Cristiane Costa Com o expertise dos Franceses em realizar boas e divertidas comédias, raramente surge uma bomba cheia de clich...



Por Cristiane Costa


Com o expertise dos Franceses em realizar boas e divertidas comédias, raramente surge uma bomba cheia de clichês em seus lançamentos, porém o mundo do Cinema é cheio de altos e baixos e o Cinema Francês não está fora destas oscilações. Sexo , Amor e Terapia (Tu veux ou tu veux pas, 2014), filme de Tonie Marshall, com Sophie Marceau e Patrick Bruel é um recente exemplo de um filme com boa ideia porém de roteiro e execuções fracas . O resultado é um filme que combina com as medianas comédias "Globais" do Cinema Brasileiro e com uma direção que não aproveitou o potencial destes dois grandes atores franceses.

A história é uma comédia romântica adulta com clichês imaturos sobre a relação homem e mulher e situações normalmente inverossímeis que não aconteceriam na vida real. Judith Chabrier (Sophie Marceau) é uma mulher de espírito livre e que adora colecionar envolvimentos  fugazes com sexo casual e nenhum relacionamento mais afetivo. Lambert Levallois (Patrick Bruel) é um viciado em sexo que está participando de um grupo de apoio e em tratamento de abstinência sexual. Após a chegada de Judith à Paris, eles começam a trabalhar juntos como terapeutas de casais e começam a se sentir atraídos um pelo outro, mas Lambert faz de tudo para evitar transar com Judith.  Por outro lado, Judith começa a se apaixonar por Lambert e controlar sua vontade por sexo.






A ideia do script e o background de ótimas comédias Francesas poderiam render um ótimo filme, no entanto, o roteiro tem falhas claras de como Lambert e Judith se conhecem e convivem um com o outro, sem uma lógica e desencadeamento de acontecimentos muito estruturado. Um dos exemplos é como começam a trabalhar juntos de uma hora para outra como se arrumar um emprego de terapeuta fosse a coisa mais fácil do mundo. Sophie Marceau, embora muito talentosa e carismática, se vê obrigada a performar vários clichês baratos como a mulher que  quebra o salto  na frente de um homem, tem que virar o bumbum de um lado para o outro para mostrar seus dotes físicos e se oferece como uma desesperada para um homem que a evita de várias maneiras. 




O charmoso ator e cantor Patrick Bruel, no auge de sua simpatia e beleza maduras, também não tem como desenvolver todo o seu potencial cômico em cena. Seu personagem é um homem que fica travado na masculinidade por conta do rehab sexual. O roteiro não lhe oferece muita amplitude e profundidade de desenvolver o seu personagem no que se refere à própria abstinência sexual e o coloca em situações irrealistas na qual um homem ou uma mulher viciada em sexo cederia facilmente à transa. Com uma estonteante Sophie Marceau ao lado, o filme é uma grande fantasia pois um homem heterossexual não aguentaria as investidas de Judith por mais romântico e poliano que o público tente ser.




Sexo , Amor e Terapia é uma diversão apenas para prestigiar o carisma de Sophie Marceau e Patrick Bruel e se tiver tempo para assistir a um filme cheio de clichês de um homem e uma mulher que se apaixonam e demoram para se acertarem na relação. A direção de Tonie Marshall é ligada no piloto automático e não fez nenhum sacrifício para melhorar este roteiro fraco, como por exemplo, explorar o lado mais cômico-dramático de ser um(a) viciado(a) em sexo e de ter dificuldades de amar uma  pessoa. O que incomoda é a reunião de clichês que deixam o longa-metragem artificial para contar um romance.



Patrick Bruel, em entrevista para o público durante o Festival, diz que gostou das cenas que eram mais improvisadas e que a história tinha potencial para ser melhor aproveitada, além de mencionar que nem sempre o ator tem autonomia para mudar a rota de um filme. Certamente, com um depoimento sincero como este, fica claro que o longa-metragem optou por um caminho mais fácil na execução e os experientes atores pouco tinham a fazer além do orientado. As únicas cenas que são mais honestas no campo dos relacionamentos amorosos  são quando os apaixonados percebem as boas qualidades um do outro e interagem com maior espontaneidade. Nesses momentos, quem gosta de comédias românticas mais realistas e honestas com o público, sentirá o bom e velho afeto que faz toda a diferença quando se fala de Amor no Cinema.






Ficha técnica do Imdb Sexo, Amor e Terapia

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