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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
No atual cenário do cinema de horror, gênero que divide com a comédia a ingrata tarefa de tentar constantemente oxigenar fórmulas desgastadas, as produções independentes frequentemente encontram no minimalismo a chave para o verdadeiro incômodo. É exatamente sob a premissa da simplicidade que Obsessão (Obsession, 2025) dirigido por Curry Barker, constrói sua narrativa. Ao explorar as ramificações de um desejo forçado, entendido como o anseio egoísta de moldar o afeto alheio às nossas próprias carências, o longa se afasta das convenções mais barulhentas de possessão para se concentrar no horror do cotidiano. O filme se estabelece como um retrato sufocante sobre como a insistência em pular etapas e obter o amor por meio de atalhos sobrenaturais pode se transformar em uma prisão mental sufocante para ambos os lados.
Essa sensação de confinamento moral é potencializada por uma estética que abraça a escassez de recursos como uma escolha estética consciente. Sem a necessidade de grandes efeitos visuais, a atmosfera de vizinhança pacata, que remete aos clássicos suspenses suburbanos das décadas de oitenta e noventa, serve de palco para um desmoronamento íntimo. A direção de fotografia utiliza as sombras com precisão cirúrgica, projetando uma iluminação expressionista sobre os rostos dos personagens nos ambientes domésticos. Esse contraste visual funciona como um espelho da própria deterioração interna decorrente de um relacionamento artificialmente induzido, provando que o verdadeiro horror reside na perda paulatina da privacidade, da liberdade e, em última análise, da própria vitalidade.
No centro desse embate silencioso, o desempenho de Michael Johnston como Bear se destaca como o grande pilar dramático da obra. Ao emular com extrema sensibilidade a figura do homem comum, tímido e fragilizado pela própria insegurança, Johnston humaniza o erro de seu personagem, transformando sua escolha desesperada em un ato de trágica fraqueza e não de vilania. Por outro lado, essa excelente construção encontra um severo contraponto na atuação de Inde Navarrette como Nikki. Em vez de transmitir a ameaça sutil de uma influência maligna ou a obsessão magnética que o roteiro propõe, sua performance esbarra em comportamentos infantilizados que a tornam por vezes caricata. É possível que a atriz tenha sido orientada pelo diretor a adotar atitudes mais pueris como recurso cômico e de estranhamento, mas, mesmo nesse caso, tais escolhas não se mostram atrativas, enfraquecendo algumas cenas.
Merecem menção também os coadjuvantes Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless), que ajudam a manter certa interação com Bear, personagem já naturalmente aprisionado em sua própria fragilidade mental. Essa presença secundária contribui para dar ritmo às relações e reforçar o contraste entre o isolamento interno e o convívio externo.
Ainda assim, o roteiro demonstra um frescor admirável em sua essência ao utilizar a metáfora sobrenatural do salgueiro dos desejos como um comentário agudo sobre a toxicidade relacional na vida real. Embora o terço final do filme recorra a soluções e clichês convencionais do gênero para encaminhar seu desfecho, a narrativa não se perde em subtramas desnecessárias. Trata-se de uma obra enxuta e bastante objetiva em suas intenções, cujo maior mérito reside em ilustrar como as relações forçadas drenam a energia daqueles que nelas insistem, revelando que a verdadeira tragédia do egoísmo amoroso é a destruição da própria capacidade de amar.
Como dica de exibição para se desfrutar ainda nos Cinemas ou na intimidade do streaming doméstico, Obsessão se revela uma experiência valiosa e reflexiva. A despeito do tom por vezes imaturo conferido à sua metade antagonista, o filme triunfa ao lembrar o espectador de que o afeto autêntico não se impõe. Ao final da projeção, o que permanece não é o susto fácil, mas o desconforto persistente de constatar que, muitas vezes, a realização imediata de nossos desejos mais profundos pode vir acompanhada de um preço alto demais para a nossa sanidade pagar.
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