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Repescagem Mostra SP - 05 a 08 de Novembro



#mostrasp #44ªmostra #44mostra #EuvinaMostra #MostraPlay


Acompanhe o MaDame Lumière para saber mais sobre os filmes

Viva à permanência da Mostra SP em 2020!






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Se há algo indomável no espírito de uma mulher, esse é o desejo de liberdade  combinado a uma incansável resiliência. A vontade de uma alma feminina  é algo que nunca será totalmente controlado por nenhum sistema patriarcal, por mais que haja pressão social e uma cultura que tenha sido alicerçada para o domínio e controle das mulheres. À vista disso, mesmo com toda a tradição e o conservadorismo que prevalecem em alguns países e culturas no mundo, a mulher vai exercer o seu direito legítimo à liberdade e a preservação de suas mais íntimas vontades.












Partindo dessa constatação após assistir ao filme Assim desse jeito (Just Like that/ Aise Hee, 2019), temos aqui uma bela narrativa feminina (e feminista), uma joia Indiana tão preciosa como o coração de uma mulher.  O surpreendente roteirista e cineasta Indiano Kislay, escreveu uma história maravilhosa sobre a Sra. Sharma (Mohini Sharma). Essa adorável senhora, discreta e simples, é viúva. Mora em outro apartamento próximo ao filho Virendra (Harish Khanna), que tem dois filhos e esposa. 







O cotidiano da Sra. Sharma passa pelas mudanças da viuvez. Nos primeiros planos, assertivamente, o diretor apresenta a viúva que era esposa de um admirado funcionário público em  Allhabad. Como grande parte das mulheres Indianas, em especial, das antigas gerações, ela dedicou sua vida ao lar e à família. Com esse luto, vem a necessidade vital de superar a perda e ressignificar a vida.  Entretanto, Sra . Sharma faz parte de uma cultura que se escandaliza quando uma mulher madura tenta fazer algo diferente como ir ao Cinema, aprender um ofício independente, conversar com um outro homem. Desse modo, a família e vizinhança dela ficam atentas a essas mudanças e começam a questioná-la.












Muito mais do que o equilibrado ímpeto da Sra Sharma que, aos poucos, começa a fazer o que realmente gosta como aprender bordados, ir ao salão de beleza e tomar um sorvete na rua, a luminosa beleza do longa está em como a direção é realizada com absoluta delicadeza e sabedoria, assim, refletindo a personalidade da personagem, levando ao desabrochar dessa incrível mulher. Ela é uma senhora bastante discreta, mas isso não a impede de ter suas vontades e soltar as amarras. O roteiro trabalha bem no sentido de colocá-la em situações sem causar muito alvoroço ou escândalos em uma sociedade tradicional como a Indiana. Todavia, gradativamente, a sabedoria de Sra. Sharma a liberta.






É uma relação bem sucedida entre direção, roteiro e desenvolvimento de personagens porque há várias camadas dos conflitos que há na sociedade Indiana, com pressão social vinda das tensões entre gêneros. Com versatilidade, o cineasta consegue equilibrar todo o elenco da família, deixando claro o lugar e condição da mulher das três gerações. Neste contexto, a nora de Sra. Sharma é a típica mulher devota à casa e à família que se anulou. Talvez ela seja feliz nesse duplo papel de mãe e esposa, porém, nas cenas, ela apresenta um semblante triste e entediado, uma dona de casa que trabalha como empregada, fazendo todas as vontades dos filhos que, por sinal, são ingratos e imaturos. Sabiamente, Kislay coloca em cena como os filhos e o marido a dominam.






Igualmente sábia é a forma como o filho de Sra. Sharma surge nas interações com o chefe e a família. Para o superior, um homem submisso e insatisfeito com a situação laboral como terceirizado, reflexo do sucateamento e fragilidades das relações trabalhistas na Índia. Ainda que seja bom no que faz, repórter de rádio, Virendra, não tem aumento salarial. Com isso, a solução é pedir para a mãe esvaziar o apartamento dela a fim de poder alugá-lo. É interessante notar que, a privacidade e liberdade da matriarca, mesmo após anos de trabalho e dedicação à família, não são sequer respeitadas. Esse é um aspecto importante da narrativa considerando que cabe a Sra. Sharma aceitar a dominância do filho ou não.






As juventudes também não escapam à realidade dos fatos. O diretor não deixa de expor como o comportamento do neto da Sra. Sharma está relacionado a heranças culturais. Um rapaz insuportável e bobo que quer controlar a irmã, pensa que a mãe é empregada e é capaz de agir com agressões. São legados do patriarcado que ainda hoje resistem nas juventudes do mundo, não seria diferente na Índia que é ainda bastante conservadora neste sentido.











Na construção narrativa, além deste equilíbrio da participação dos coadjuvantes, o cineasta realiza uma edição bem sensível que recupera a memória desses personagens ao mostrar alguns registros documentais como fotos. Percebe-se o tempo e a memória nos quais essa família ainda sobrevive, mesmo em uma dinâmica social com tantas regras moralizantes. Neste ponto, essas fotografias humanizam e valorizam a família. Seus membros não são apenas peças de uma complexa e tradicional estrutura social, mas são pessoas com histórias e sonhos distintos que, provavelmente, ficaram para trás silenciados pelas pressões da sociedade.






Com muita qualidade, o roteiro e direção de Kislay oferecem um sopro suave em um assunto tão controverso como as diferenças de gênero em países como a Índia. Aqui não é Bollywood com seus exageros e fantasias, mas algo mais reflexivo e urgente. Além do natural carisma do Cinema Indiano,  Assim desse jeito é poderoso no seu sentido humanizado de transpor para a tela a realidade de inúmeras mulheres no mundo que, de uma hora para outra, ficam viúvas e ainda são vistas como se não tivessem desejos próprios, como se tivessem morrido junto com o marido. 







Cabe citar que, em certos contextos, mulheres ainda são reconhecidas como a viúva de "fulano", ou condenadas à eterna viuvez para manter a reputação e o sobrenome de seus finados esposos. Assim, "já notou como o homem viúvo se casa mais rápido  que a mulher viúva?, muitas vezes nem esperam o cadáver da mulher esfriar." São nuances de uma sociedade machista e patriarcal! Não há problema em casar novamente, ou se manter solteira, o mais importante é a mulher decidir o que deseja independente de forças externas que não a farão feliz.






Como a expressão que dá título ao filme, aos poucos, as coisas são mudadas "assim desse jeito" como tranquilamente diz a inspiradora Sra. Sharma. Ela não desiste de sua dignidade como mulher e viúva. Ela continua vivíssima (do seu jeitinho) para desfrutar a vida em paz e com sabedoria.









Fotos: Uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

  Lançamento @Parisfimes nos Cinemas em 12 de Novembro  Pré estreias 06, 07 e 08/11 nos Cinemas Terror | Horror  por   MaDame Lumière Por  C...


 


Lançamento @Parisfimes nos Cinemas em 12 de Novembro 

Pré estreias 06, 07 e 08/11 nos Cinemas

Terror | Horror 
por MaDame Lumière


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



O horror produzido pela Espanha, com ou sem a parceria de outros países, é uma válida tentativa de não deixar esse gênero nas mãos apenas do Cinema Americano. Eventualmente, eles acertam. Outras vezes, reproduzem as mesmas fórmulas que, em outros contextos e épocas, criaram referências clássicas para o horror. Produzir horror com vigor e frescor cinematográficos não é para qualquer um. No imaginário do público, aparentemente, gêneros como o horror e a comédia são mais fáceis de fazer. Mero engano. De fato, são filmes difíceis de trazer alguma inovação.


















Filmes como O Orfanato, REC e Olhos de Júlia são ótimas produções no Cinema de Horror Espanhol, assim, se tornaram referências nas últimas duas décadas, entretanto, para fins de entretenimento, experiência e análise fílmica, cada filme tem que ser observado individualmente. Quando se trata de terror/ horror, comparação nem sempre é saudável pois muitos recursos narrativos são reproduzidos, dando a impressão de que não há nada de novo. Neste sentido,  assistir ao lançamento O 3º Andar  - Terror na Rua Masalana (Masalaña 32, 2020) funciona melhor se o espectador não realizar comparações com outros filmes de horror Espanhóis e deixar a diversão fluir. Essa é uma recomendação para poder acompanhar melhor o sofrimento da família Olmedo e levar alguns sustos.
















Originários de um pueblo espanhol, como um interior, um estilo de vida provinciano, Candela e Manolo (Bea Segura e Iván Marcos) mudam-se com os três filhos e o avô (José Luis de Madariaga) para Madrid em um prédio localizado na Rua Masalaña. No 3º andar, eles se estabelecem com esperanças de ter uma vida melhor na capital Madrileña. O casal tem novos empregos e estão empolgados com as possibilidades de pagar a casa e proporcionar bem estar à família após a Ditadura Franquista. Porém, para o azar dos Olmedos, coisas estranhas começam a acontecer neste andar. Um dos apartamentos ao lado está vazio apenas na aparência, lá vive uma alma atormentada disposta  a não deixá-los em paz.








Partindo desta ideia, em uma Madrid ambientada na década de 70, o diretor  Albert Pintó realiza um horror convencional que traz a dinâmica da casa mal assombrada afetando a permanência de uma família.  Em um país que está renascendo para o desenvolvimento e a democracia, os Olmedos merecem encontrar no lar o seu porto seguro e em Madri as oportunidades para ganhar dinheiro e viabilizar seus projetos, entre eles, o da jovem Amparo (Begoña Vargas) que adoraria viajar para Paris. Porém, a ideia central é fazê-los sofrer, não por carregarem alguma culpa, mas porque são atormentados por um espírito que tem algo a falar e pedir.


















Visando a  incorporar o medo e a paranoia, a primeira hora de filme resgata vários recursos narrativos do horror já vistos em outros filmes ou semelhantes, como a criança graciosa, no caso, o ator Iván Renedo que interpreta Rafael, um dos filhos do casal. Sua participação traz à memória  grandes clássicos como Poltergeist e O Iluminado, assim, o diretor usa a figura da criança que vê os eventos paranormais e corre risco de vida. Paralelamente, a personagem Amparo - protagonista - tem relevância na presença cênica e no desenvolvimento até o plot twist por ser a pessoa que é mais perseguida  e investiga quem é esse espírito atormentado.

















No resultado do longa como um todo, é perceptível que o horror Espanhol tem bastante fôlego para reproduzir velhos esquemas de clássicos Americanos, e também, potencial para trazer uma atmosfera distinta, principalmente considerando que pode buscar inspiração em escolas como a do México Guillermo del Toro, que consegue reunir o drama, o horror e o fantástico.








Ainda assim, essa história segue algo mais Americanizado. Há um ritmo concentrado interessante até o meio do longa, que é bem amparado pela fotografia de época e a sonoplastia, porém, o que falta, na maior parte da narrativa, é um roteiro que arrisca mais e melhor aproveite os personagens, os conflitos, o drama e a tensão que, juntos, intensificariam o mal estar e o desconhecido. Ademais, como é uma família razoavelmente grande, era possível aproveitar melhor suas interações e conflitos que são, apenas, pincelados; por exemplo, a relação de Amparo com os pais, o comportamento frio e rude de Manolo, e a saúde debilitada do vovô Férmin.







Quando é chegada a hora do plot twist, fica claro que, sob a perspectiva histórica e social da Espanha, era possível investir mais no desenvolvimento da história e nessas chagas que se abriram em épocas de repressão, autoritarismo e patriarcado em uma sociedade governada por Franco, chagas que continuam a atormentar muitos.  Afinal, o horror tem essa capacidade de expurgar os males sociais na dimensão individual; na maioria, males que nunca serão esquecidos nem mesmo pelos espíritos.















Fotos: uma reprodução para divulgação do filme, via @ParisFilmes. 

  Um dos melhores filmes da Mostra SP 2020  segundo o blog   www.mostra.org #mostrasp #44ªmostra #44mostra #EuvinaMostra #MostraPlay Acompan...

 



Um dos melhores filmes da Mostra SP 2020  segundo o blog



#mostrasp #44ªmostra #44mostra #EuvinaMostra #MostraPlay


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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Luto, ancestralidade e resistência evocados por uma mulher extraordinária que não teme nem exploradores e nem a morte. Com uma sublime atuação da atriz Sul-Africana Mary Twala Mhlongo no papel de Montoa, uma senhora de 80 anos que vive nas montanhas do Lesoto e perde o filho, Isso não é um enterro, é uma ressureição (This is not  a burial, it's a resurrection, 2019) é um símbolo da luta pela preservação da terra, da comunidade, da vida.









"Pelos olhos de Mantoa, vemos que há muita escuridão para enfrentar, mas, no final das contas, esta é uma história sobre a resiliência do espírito humano" (Press material, diretor)







Com direção e roteiro de Lemohang Jeremiah Mosese, o longa apresenta uma belíssima dinâmica entre a vida e a morte, o corpo e o espírito, o individual e o coletivo, entremeando a solidão de uma mulher e a defesa da terra. Após a morte do filho, que trabalhava nas minas da África do Sul, Montoa entrega-se a um luto  silencioso que ela não poderia superar facilmente. 








Uma fotografia deslumbrante que merecia ( e merece) ser vista na tela Grande.






A dor do luto é tão dilacerante, assombrosamente registrada em imagens que atravessam qualquer tempo físico e corroboram a narrativa atemporal dessa respeitável anciã. Assim, a maternidade sofre um duro golpe com  o luto de Montoa, que perdeu marido, filhos e netos; além da mãe-natureza confrontar-se com os interesses do governo na construção de uma represa na região. São essas duas mães que, no ciclo da vida, transitam entre a sobrevivência e a iminente morte.







Com um título tão poético e inspirador, a narrativa resume um complexo desafio da vida: viver entre o nascimento e a morte, entre escolher renascer a cada dia frente as batalhas ou morrer e deixar o legado morrer. E o que há de mais precioso em vida?  As raízes, a identidade, a comunidade, a historia e a cultura. Essas são a herança de um povo. Com isso, o filme apresenta a luta pela preservação das tradições frente ao progresso e do espírito de resistência ao invasor.














Nesse sentido, toda a narrativa conserva a valorização da tradição, das ancestralidades e das histórias orais que não devem ser esquecidas pela sociedade.  Na sua estrutura, há um senhor que realiza a narração, como um narrador do povo, movido pelo espírito de antigos ancestrais. Montoa é a anciã, como a das antigas cirandas dos povos Africanos. Ela representa a memória, a referência entre gerações e a força moral e espiritual da mulher idosa. Ainda que mergulhada na profunda dor da perda, tem forças para o enfrentamento, na palavra, no choro e na ação. 







Ao lado de uma sobrenatural atriz como Mary Twala Mhlongo, o cineasta realiza uma direção excepcional que preza por um cuidadoso e impactante trabalho de fotografia que extrapola os limites entre o realismo e o mítico. Em alguns planos, Montoa é fotografada como uma força da natureza, de poderosa representação espiritual. Ela é a mulher sábia que atravessa gerações e ensina a todos o respeito pela tradição, terra e família. Ela é a líder que respeita os mortos e suas covas. Ela é a anciã que tem a voz da sabedoria e da resiliência.









Vencedor do Prêmio Especial do Júri da seção World Cinema Dramatic do Festival de Sundance.






Diferente de vários filmes presentes em festivais que perseguem apenas prêmios, Isso não é um enterro, é uma ressureição conserva sua autenticidade a todo o preço. É um filme simples e atemporal que impõe respeito sem precisar recorrer a egos e pretensões de produtores e diretores. Pelo contrário, certamente, é um filme que continuará atual, unindo as pontas da tradição e do contemporâneo, sobrevivendo às décadas como uma herança Africana para o mundo ver e aprender.











Pôster filme, fonte https://thefilmagency.eu/ . Direitos reservados.

Fotos: uma reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Radicado na Grécia, onde estudou Cinema, o diretor Iraniano  Siamak Etemadi realizou Pari (2020), um filme feminino e ousado em contraposição ao conservadorismo na História e Cultura do Irã. Se ele vivesse na sua terra natal, seria perseguido, preso ou morto pela forças repressoras. Pari narra a jornada transformadora de uma mãe em busca do filho Babak em Atenas. Protagonizada pela atriz Alemã-Iraniana, Melika Foroutan, Pari é o centro da narrativa em todos os sentidos. Babak é somente o que a move.













A ideia do roteiro surgiu como um desejo do diretor de imaginar o que sua mãe faria se, ao chegar ao aeroporto de Atenas, não o encontrasse e nem conseguisse qualquer contato com ele. Ela voltaria para o Irã? Buscaria outras fontes de informação? Desistiria da busca após algumas tentativas? Certamente, uma mãe se arrisca a tudo pelo filho, mas até que ponto? Em quais lugares ela estaria disposta a entrar? Com quais tipos de pessoas ela conversaria? Quais mudanças ela vivenciaria?







O cineasta coloca Pari em uma Atenas decadente e sombria, fugindo de uma jornada tradicional de buscar autoridades governamentais e pessoas politicamente corretas. Na verdade, trata-se de uma caminhada intimista, solitária e desesperada na qual, em distintas situações e com poucas interações, ela adentra o submundo da cidade e conhece outras pessoas que vivem e pensam diferente de um Iraniano como jovens anarquistas e prostitutas.














Com o bom uso do simbólico em determinados planos,  o cineasta utiliza representações que são relevantes para desenvolver e mostrar essa ideia de autoconhecimento e libertação de Pari.  A narrativa ocupa-se de colocá-la em situações fora do comum para uma Iraniana tradicional. Para isso, por exemplo, o véu muçulmano "hijab", que cobre a cabeça de Pari, é um objeto a acompanhar essas mudanças na personagem, além do mais, as experiências relacionadas a cenas violentas como ação policial e de abusador desafiam  Pari ao enfrentamento. 











Diante de tantas situações diferentes,  é interessante observar como ela chega ao aeroporto e como ela encerra o filme. Muito mais do que a mudança psicológica, há uma mudança física, passando da figura sacralizada da mulher para uma visão mais autêntica e dona de si. Com pertinência, o diretor utiliza alguns close-ups importantes para transmitir essas mudanças físicas e comportamentais, assim, de uma bela e libertadora maneira, Pari vai sendo descoberta de toda a rigidez. Ela também confronta-se com as dificuldades do idioma, ainda assim, lê o livro deixado pelo filho e, como uma conexão de palavras e atos, traduz algumas linhas e dá vazão à subjetividade e reflexões.






Pari é  uma metáfora da transformação de uma mãe. É a jornada angustiante de uma mulher que não pode viver tudo o que acreditava mas, pelo filho, seria capaz de desafiar as convenções e perigos. É a caminhada de uma mulher que, pouco a pouco, vai se livrando de pudores e tradicionalismos. É provável que poucas ou nenhuma das situações ali narradas aconteceria efetivamente com uma mulher Iraniana, entretanto,  no campo do simbólico, é permitido construir uma narrativa de possibilidades que, na essência, dizem muito mais do que somos verdadeiramente no mundo.









Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Exibido no Festival de Berlim, Eyimofe (This is my desire, 2020) apresenta o vigoroso Cinema Africano ao narrar  duas histórias de moradores de Lagos,  na Nigéria, cujos sonhos de imigração são viver na Europa. Dirigido por Arie e Chuko Esiri, o roteiro foi desenvolvido com uma visão de como os personagens experienciam as dificuldades nas dimensões de emprego, moradia, relacionamentos e demais condições básicas para a sobrevivência e mantêm as aspirações de conseguir dinheiro e passaporte. Os sonhos persistem, porém a realidade é cruel e desmotivadora.








Jude Akuwudike, excelente performance. O ator têm experiência no teatro.





A definição de um roteiro com duas histórias que geram uma aproximação com relação ao sonho imigratório favorece a observação de distintas experiências dos personagens sob uma perspectiva de gênero e geracional. Dividida em 2 capítulos e um epílogo e ambientada em Lagos, a narrativa apresenta Mofe (Jude Akuwudike), um homem de meia-idade, funcionário de uma fábrica e eletricista, que deseja ir a Espanha; e Rosa (Temi Ami-Williams), uma jovem, bartender e cabelereira, que sonha em morar na Itália. São pessoas bem diferentes que enfrentam as lutas diárias que pouco facilitam a viabilidade de conquistas.







Arie e Chuko



São variados aspectos da vida em Lagos que são  contadas com um realismo impressionante presente na linguagem cinematográfica vívida. Do belíssimo multicolorido do figurino e desenho de produção a composição dos planos, enquadramentos, fotografia e locações, com uma qualidade excepcional, os diretores expõem o cotidiano da cidade e seus habitantes, inserindo o espectador nas áreas periféricas, em grande parte dos espaços. O cuidado com cada detalhe na decupagem agrega um frescor cinematográfico que chega a se aproximar de um registro documental, certamente, como uma inspiração do Neorrealismo Italiano.







É uma rica narrativa bem estruturada que funciona muito bem como denúncia da realidade de Lagos, porém, denunciar essas batalhas funcionam mais como meios de apresentar a condição de homens e mulheres do que propriamente o objetivo fim do longa. A direção não mostra os problemas sociais de uma maneira superficialmente expositiva e amplificada apenas para explorar a pobreza Africana, mas eles estão dizendo coisas sérias que circulam no cotidiano de Mofe e Rosa, como por exemplo, uma chefia de fábrica que prefere deixar o eletricista emendar uma tortuosa rede de  fios a ponto de causar uma explosão no local e está pouco preocupada com as condições de segurança de trabalho; e uma mulher estilo "gângster" oportunista que, para obter lucro, é capaz de pedir o filho de uma adolescente grávida, assim, servindo a práticas de tráfico humano.








Nesse sentido, os sonhos de Mofe e Rosa vão sendo podados por essas situações desagradáveis nas quais o dinheiro é o mestre. Em várias situações, os oportunistas que, inclusive, também sobrevivem com seus negócios ilegais, oferecem serviços com valores sobrelevados para Mofe e Rosa.  O passaporte torna-se mais caro, a venda de documentos falsos, idem. Nem um enterro sai barato com o alto custo dos túmulos.  O capitalismo selvagem se torna ainda mais impiedoso nesse contexto, logo, o longa deixa nítido como a falta de dinheiro endurece demais a vida e a realização dos sonhos.








Temi Ami-Williams, papel de Rosa, traz questões de gênero, raça e sexualidade






Em outras circunstâncias, desafios transversais de gênero, raça e sexualidade são bem visíveis na história de  Rosa. No caso dela, uma mulher atraente, surge a problemática do corpo negro feminino como desejo  e objeto. Nesse ponto, o filme traz questões sexistas, infelizmente, realistas, entre as quais: Rosa conhece um estrangeiro, Americano, que lhe proporciona alguns momentos em lugares nos quais ela não teria condições de pagar; e seu inquilino,   um senhor de meia-idade e com melhor poder aquisitivo, vive stalkeando a  jovem, oferecendo descontos no aluguel e disposto a mantê-la em troca de sexo ou casamento.  Tanto um com o outro são homens que reproduzem a objetificação dos corpos negros na forma como são apresentados na narrativa, mesmo que, na aparência, sejam "carinhosos". Rosa, sem muita opção, acaba cedendo à ajuda.






À Rosa também cabe a criação e educação da irmã menor, com isso, ela é também a mulher que não tem a liberdade que tanto deseja, que desempenha um duplo papel, irmã e mãe de Grace (Cynthia Ebijie), constatação que, além de ser arrimo da casa, ela não tem a mínima condição de sustentar as duas. Os trabalhos autônomos de Rosa, como cabelereira, bartender e revendedora de suas roupas, sapatos e perfumes, dão uma ideia triste de que, nesse contexto, não importa a identidade e realização profissional, o que importa é conseguir o dinheiro para a comida e o aluguel. 







Apesar de todos esses aspectos e desafios no cotidiano de Mofe e Rosa que, seguramente, poderiam deixá-los com o coração duro e com atitudes de revolta e violência, o oposto ocorre na narrativa e isso é muito bom de ver. Eles valorizam a integridade: lutam para pagar as despesas médicas, ajudam os mais jovens, trabalham como autônomo. Como uma reconfortante virtude desses personagens, eles não perdem a tranquilidade, a esperança e os afetos. 






Eyimofe (esse é o meu desejo) é sobre sonhos e frustrações, mas também é sobre sacrifícios que fazem parte da sobrevivência em uma realidade hostil. Nem sempre imigrar com dignidade será possível. Não fazê-lo não impede de ressignificar a própria vida.










Fotos: Uma cortesia Reprodução Mostra SP 

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