Jason Swanson (IMAX) e Luciano Taffetani (Dolby Laboratories), em painel mediado por Ricardo Laporta (Neolux), durante a EXPOCINE 2026.   Es...

O Templo em Disputa: A Tecnologia de Ponta e o Dilema da Identidade na Sala Escura





Jason Swanson (IMAX) e Luciano Taffetani (Dolby Laboratories), em painel mediado por Ricardo Laporta (Neolux), durante a EXPOCINE 2026.


 Especial Expocine 2026 no MaDame Lumière


Ensaios exclusivos sobre o Mercado de Cinema e Audiovisual.




Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos



Entre os debates da EXPOCINE 2026, o encontro entre lideranças da Dolby e da IMAX evidenciou um dos grandes desafios contemporâneos da exibição: convencer o público de que a experiência da sala ainda oferece algo que o ambiente doméstico não consegue reproduzir. O painel destacou a consolidação dessas marcas globais e a precisão técnica de seus ecossistemas de som e imagem, historicamente chancelados por diretores como Christopher Nolan e Denis Villeneuve, cujas narrativas de grande escala encontram nessas telas a sua dimensão pretendida. Ao mesmo tempo, a ênfase na flexibilização dos formatos premium e na recepção de conteúdos alternativos, como transmissões esportivas e grandes concertos musicais, revela uma mudança importante no modelo de negócios. A tecnologia criada para potencializar a experiência cinematográfica passa também a depender da diversificação da programação para sustentar sua operação.



​No Brasil, entretanto, essa discussão encontra uma realidade própria. Espaços como a Sala 1 do Cine Marquise, equipada com Dolby Atmos, demonstram a potência da fidelidade acústica e da infraestrutura de ponta no coração da Avenida Paulista, consolidando-se como referências de fruição para o público urbano. Ao mesmo tempo, a presença de apenas doze salas IMAX no país revela tanto a exclusividade desse padrão quanto o tamanho do desafio de ampliar esse tipo de experiência para além dos grandes centros.



​Mesmo diante de alternativas comerciais voltadas ao mercado corporativo e do recurso histórico aos modelos de patrocínio, manter esse nível de sofisticação tecnológica continua sendo um desafio para boa parte dos exibidores brasileiros. Ao mesmo tempo, o acesso a essas salas de ponta também encontra limites no orçamento de parte do público, especialmente quando ingressos, transporte e conveniência entram na conta. Nesse cenário, a ida ao cinema deixa de ser uma atividade corriqueira para se tornar uma escolha cada vez mais planejada. Diante dessa realidade, a comodidade, a economia e a variedade dos catálogos de streaming passam a ocupar um espaço cada vez mais definitivo nos hábitos cotidianos de consumo.



​Nesse contexto em que a própria tela se torna um território em disputa, a ampliação da programação para além dos lançamentos tradicionais deixa de ser uma estratégia complementar e passa a ocupar um papel cada vez mais central. Transmissões esportivas, concertos musicais, sessões temáticas e eventos especiais refletem o esforço dos exibidores para manter as salas ativas em diferentes períodos do ano. Aos poucos, o cinema passa a operar sob uma lógica de programação mais plural, em que diferentes formatos convivem lado a lado e a própria composição da grade assume, em alguns casos, contornos de uma curadoria voltada à experiência coletiva.



​Como parte dessa renovação de repertório, o mercado aposta com entusiasmo na força da memória afetiva e na celebração em comunidade. O retorno de marcos da cultura pop às telas grandes, a exemplo dos relançamentos celebrados de Harry Potter e a Pedra Filosofal e Vingadores: Ultimato, além de projetos especiais como sessões surpresa, mostra a vitalidade da relação do espectador com histórias consagradas. Essa redescoberta do catálogo não apenas reúne comunidades de fãs e atrai públicos interessados em revisitar essas obras sob uma nova perspectiva, mas também evidencia a capacidade do cinema de transformar o reencontro com narrativas em uma experiência de fruição.



​Em um cenário no qual a ida ao cinema deixa de ser habitual para se tornar uma escolha cada vez mais pensada, as novas estratégias da indústria mostram sua capacidade de reinvenção. Jogos e shows ajudam a manter as salas ativas. Essa mudança amplia o encontro ou os filmes dividem com outras formas de conteúdo a responsabilidade por manter vivo o templo que ajudaram a criar?


Imagem: Acervo pessoal

Imprensa credenciada 



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