Especial Expocine 2026 no MaDame Lumière Ensaios exclusivos sobre o Mercado de Cinema e Audiovisual.

Roteiro por intuição ou por evidência? A audiência entra na sala de desenvolvimento

 




Especial Expocine 2026 no MaDame Lumière


Ensaios exclusivos sobre o Mercado de Cinema e Audiovisual.



Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos



A reflexão mais contundente da Expocine 2026 não esteve voltada ao elogio da obra acabada, mas ao deslocamento do olhar para quem senta diante da tela. Em um mercado condicionado pela disputa acirrada de público, pelo avanço de novas plataformas e pelos limites estruturais de um país com menos de quatro mil salas de cinema, o perfil de quem assiste deixa de ser um cuidado tardio e exige presença já nas etapas iniciais da escrita: afinal, quantas escolhas de um roteiro ainda ocorrem sem nenhuma ancoragem na realidade?



Sem subordinar a liberdade criativa a fórmulas prontas, a introdução de pesquisas de mercado e tendências de comportamento surge para reduzir a margem de erro de uma indústria que não pode operar no escuro. A premissa central é direta: o dado não tem a ambição de escrever a narrativa, mas qualifica e redireciona escolhas feitas na página em branco. A triangulação analítica, ao cruzar mercado, público e movimentos culturais, funciona como uma lente capaz de revelar hábitos de consumo e transformações sociais que influenciam a recepção de qualquer história.



É dessa escuta que se compreende, por exemplo, o peso da fun-stalgia. A busca por referências já conhecidas, perceptível na atração gerada por adaptações em live-action como Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão, no retorno de O Auto da Compadecida ou na vitalidade de marcas sólidas da cultura pop, não reflete apenas um cálculo financeiro. Também evidencia o valor do reconhecimento prévio em um mercado saturado de opções. A familiaridade reduz barreiras de entrada e fortalece a conexão do público com a obra. O mesmo princípio ajuda a compreender os picos de interesse observados em torno de fenômenos culturais como Michael Jackson ou a expectativa criada por O Diabo Veste Prada 2.



Essa lógica também reorganiza a fronteira entre espectador e fã. Enquanto o primeiro encerra sua experiência ao término da projeção, a comunidade engajada prolonga a conversa, recomenda, comenta e amplia a circulação da obra. Fenômenos associados ao K-pop ou adaptações de sucessos literários contemporâneos demonstram que parte das audiências mais valiosas já existe antes mesmo da estreia. A construção de fandoms deixa de ser apenas uma estratégia de divulgação e se aproxima do próprio desenvolvimento dos projetos. Em vez de buscar espectadores após o lançamento, a indústria dedica atenção crescente a comunidades já mobilizadas por temas, personagens, afetos e identidades compartilhadas.



Ao olhar para as especificidades do público brasileiro, essa leitura ganha densidade social. Questões ligadas à família continuam influenciando decisões de vida e de consumo, enquanto transformações demográficas, como a longevidade e o protagonismo econômico do público acima dos 55 anos, revelam demandas ainda pouco exploradas pela dramaturgia. Investigar esses indicadores amplia o repertório de observação disponível para criadores e produtores. Também aproxima personagens e narrativas das mudanças que atravessam a sociedade brasileira.



A mudança de perspectiva apresentada pelo setor não se limita a um método de trabalho. O cinema contemporâneo aprende que conceber uma história também exige compreender para quem ela se destina. Em um cenário de disputas cada vez mais complexas pela atenção do público, o planejamento de audiência não anula a sensibilidade do autor. Ele amplia as condições para que a conversa iniciada pelo filme continue depois que as luzes da sala se acendem.



Artigo inspirado nas discussões do painel apresentado por Dani Tolomei (Método Transforma) durante a Expocine 2026.


Imagem: Acervo Pessoal

Imprensa credenciada 

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