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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Em Verity, adaptação do romance de Colleen Hoover dirigida por Michael Showalter, o suspense psicológico promete um jogo intrincado de segredos, mas entrega uma narrativa marcada por conveniências evidentes. O filme escancara esse problema logo na primeira sequência: o atropelamento violento na rua com sangue espirrando no rosto da protagonista e o encontro imediato com o personagem masculino soam artificiais demais, denunciando uma história que aposta no choque fácil antes mesmo de construir qualquer clima real de tensão.
Esse artificialismo enfraquece o próprio uso do espaço cênico. A casa isolada durante o inverno cria uma atmosfera visual interessante, mas não passa de um cenário estático. Os personagens circulam por aqueles cômodos sem que haja um atrito verdadeiro entre eles, desperdiçando um ambiente que tinha tudo para sufocar a narrativa e amplificar a sensação de perigo.
O mistério que deveria nascer da convivência com uma mulher acamada acaba sendo transferido quase que inteiramente para a leitura do manuscrito. Em vez de a direção trabalhar o medo e a desconfiança pelo silêncio ou pela presença incômoda de Verity, o roteiro se apoia no relato cru do texto que foi deixado para trás. A trama se resume a perguntas óbvias sobre a veracidade da paralisia da dona da casa, a integridade do marido e o momento exato em que a hóspede vai ceder àquela aproximação.
Diante de um material tão raso, o elenco fica limitado a impressões superficiais. Dakota Johnson não compromete e entrega a beleza estética e o olhar impassível que já marcaram outros papéis de sua carreira, mas sua personagem desmorona pela falta de ação prática: contratada para dar continuidade a uma série literária, em momento algum a vemos investigando ou escrevendo uma linha sequer. Ela atua apenas como uma leitora passiva, ganhando alguma movimentação somente quando decide ocupar o lugar afetivo da mulher enferma.
Anne Hathaway, por sua vez, aparece principalmente nos flashbacks, nos quais seu charme e sua presença conferem maior realismo à personagem. O problema é que o roteiro não transforma o corpo imóvel de Verity em um verdadeiro centro de tensão. O próprio diretor tenta explorá-lo como uma presença quase fantasmagórica em alguns momentos, mas o recurso é tão óbvio que produz mais estranheza artificial do que inquietação. Em vez de fazer desse corpo uma força dramática capaz de alterar o ambiente e a percepção dos demais personagens, a narrativa o mantém como objeto do olhar e da suspeita alheia. Para uma atriz de recursos tão amplos, é uma oportunidade desperdiçada: o filme mobiliza sua presença, mas pouco exige dela além da própria imagem.
Do outro lado, Josh Hartnett repete a figura do homem calmo e dócil demais, levantando uma desconfiança imediata que escancara a previsibilidade do flerte. A tensão sexual que surge entre eles não decorre de um erotismo construído aos poucos pelo perigo ou pela culpa, mas de cenas apelativas e imediatistas, construídas para produzir impacto visual a partir das confissões do manuscrito.
Essa fragilidade dramática cobra seu preço na reta final, quando o filme busca surpreender o espectador com uma contranarrativa abrupta. Como a história passou a maior parte do tempo em uma observação letárgica e sem camadas prévias de conflito, a virada não se sustenta. O choque final soa menos como uma discussão legítima sobre os limites da verdade e muito mais como um truque de roteiro calculado para desorientar o espectador, expondo a fragilidade de um mistério que nunca teve densidade suficiente para se sustentar.
Primeira Imagem: Acervo pessoal. Divulgação. Crédito: Amazon MGM Studio/ Sony Pictures.



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