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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O cinema nunca se resumiu a uma sala escura com tela iluminada para distrair a vista durante o descanso semanal. No circuito independente e autoral, a câmera funciona como espelho implacável da sociedade: acolhe as periferias, as dores de quem enfrenta o cotidiano nas margens, as identidades plurais e as contradições que os grandes conglomerados e os telejornais preferem ocultar. O filme autoral é também uma das formas pelas quais a democracia aprende a olhar para si mesma.
A política, portanto, não é um tema alheio a essa engrenagem; é a matéria que define quem tem o direito de respirar. A memória latino-americana carrega marcas profundas dessa relação. Ao longo das ditaduras militares que assolaram o Brasil, a Argentina e o Chile, a criação cultural esteve entre os alvos do autoritarismo. Cineastas foram empurrados para o exílio, filmes foram submetidos à censura oficial e vozes críticas foram silenciadas pela força. Projetos autoritários temem a criação cultural porque uma população consciente da própria história encontra mais ferramentas para questionar a versão dos fatos que lhe é apresentada. A tentativa recente de asfixiar órgãos públicos, cancelar editais por filtros morais e criminalizar quem vive de arte nada mais foi do que a repetição desse velho roteiro de controle.
Existe uma narrativa fabricada para colocar a sociedade contra a sua própria cultura, alimentando a farsa de que a produção de cinema retira verbas da saúde ou da educação. Na realidade, mecanismos como a Condecine e o Fundo Setorial do Audiovisual são vinculados ao próprio setor e seus recursos são reinvestidos no desenvolvimento das produções nacionais.
Além disso, a realização de um filme é trabalho braçal e coletivo. Antes de chegar aos festivais, uma filmagem movimenta motoristas de transporte, carpinteiros de cenários, costureiras de figurino, técnicos de eletricidade, fornecedores de refeições, pequenas pousadas e operadores de câmera e som. O recurso investido na produção também circula pelo comércio local e sustenta famílias inteiras que dependem da cultura para colocar o pão na mesa. Cortar verbas do cinema não é eliminar privilégios fictícios; é tirar o sustento de quem vive do trabalho comum.
O cenário atual impõe ainda a urgência de encarar as grandes plataformas internacionais de streaming. Sem uma postura firme do poder público capaz de defender a soberania do país, realizadores e pequenas produtoras locais correm o risco de se tornar prestadores de serviço precarizados diante dos gigantes da tecnologia. É indispensável fixar cotas de catálogo, cobrar tributação proporcional aos lucros obtidos em território nacional e garantir que os direitos das obras fiquem nas mãos de quem cria.
A decisão no segundo turno não passa pela busca de salvadores da pátria, mas pela definição do chão onde o país vai pisar nos próximos anos. De um lado, está o projeto da censura moralista, do desmonte institucional e do rancor contra a liberdade de pensamento. Do outro, está a defesa de estruturas públicas em funcionamento, da dignidade humana, da diversidade social e da liberdade de criação sem perseguições ideológicas.
O voto consciente no segundo turno é a defesa concreta da soberania cultural, do emprego de milhares de trabalhadores invisíveis e do direito de o Brasil continuar a se reconhecer nas próprias telas.
Imagem: Acervo pessoal criado por engenharia de prompt (IA).
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Cristiane Costa, MaDame Lumière