quinta-feira, 16 de junho de 2016

Um amor à altura (Un homme à la hauteur, 2016), de Laurent Tirard


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière 





" A priori este tipo de comédia não faz muito o meu estilo, mas fiquei curioso de saber como poderia, tecnicamente, interpretar um homem de 1,40 m" (Jean Dujardin)





Laurent Tirard, conhecido por "O pequeno Nicolau" e "As férias do pequeno Nicolau" retorna à direção com a comédia romântica "Um amor à altura", estrelando charmoso galã francês Jean Dujardin e a bela atriz belga Virginie Efira. O argumento mescla um assunto ligado a complexos e preconceitos: relacionamentos amorosos com anões. Na história, Diane (Efira) é uma advogada recém separada que tem, como sócio, o ex-marido Bruno (Cédric Kahn). Após ela perder o celular, ela e Alexandre (Dujardin), um bem sucedido arquiteto, marcam um encontro e, para a surpresa dela, ele mede um pouco menos de 1,40 m. Ela terá que quebrar o próprio preconceito com relação a homens baixinhos para ser feliz no amor.




A história não é inédita, embora seja pouco comum no Cinema. Tirard aceitou realizar esta refilmagem de "Coração de Leão" (Corazón de León), produção argentina de 2013, dirigida por  Marcos Carnevale e que tem o ótimo Guillermo Francella, para disponibilizar o filme comercialmente na França e dar-lhe uma roupagem mais "europeia". Para o diretor, refilmar esta comédia possibilitou mostrar a humanidade do personagem de Dujardin, explorar a beleza de Marsellha e usar como referência clássica, Frank Capra, grande diretor de comédias que sabia muito bem mostrar a bondade das pessoas em sua filmografia.


A comédia toca em uma temática de delicada exposição, em determinadas cenas, chega ao leve grotesco, considerando que, por mais que ninguém queira rir de um homem muito baixo, o próprio roteiro brinca com os estereótipos ao colocar uma bela loira ao lado de um arquiteto empreendedor que tem qualidades comportamentais que compensam a sua baixa estatura. Não há como não perceber que Alexandre é um homem inteligente, charmoso, afetuoso e que gosta de surpreender a amada. Serão estas qualidades que dão título ao filme "Um homem à altura", em outras palavras, Alexandre tem apenas 1, 40 m mas é um grande homem em caráter. 





O maior estranhamento em cena não é um personagem baixíssimo que tem que lidar com os momentos de insegurança afetiva, as piadinhas e indiferenças. Dujardin tem talento, muito charme e é focado na atuação. Ele transforma Alexandre em um homem muito especial, daqueles que fazem qualquer mulher ou homem se apaixonar. Em parceria com Efira, uma boa atriz com timing cômico e encantadora beleza para comédias românticas, ambos demonstram um esforço mútuo para desenvolver um romance que pouco a pouco cede à aceitação e quebra paradigmas. O mais estranho na direção é a própria técnica utilizada para deixar o ator minúsculo. Por mais que utilizaram truques simples como uso de dublê para os enquadramentos de corpo inteiro, filmar Dujardin de joelhos e do ombro para cima, há uma falta de naturalidade nesta baixa estatura, como se tivessem criado uma colagem do personagem na edição.

Ainda que os efeitos visuais para reduzir o tamanho de Dujardin deixam as cenas mais artificiais, provocando um desconforto visual e inevitáveis risadas, a  charmosa Marsellha foi uma boa escolha de locação. Ela garante leveza e um efeito solar na fotografia. Ela é "so French" e ao mesmo tempo tem um ar Californiano como algumas comédias Hollywoodianas. Dá vontade de se entreter com o par romântico , igualmente agradável assim como a cidade. A doçura de Dujardin e Efira ajudam o público a criar uma conexão afetuosa com a história.   Mas nem tudo é romance e flores, a história também incomoda. 






Mesmo sendo uma comédia romântica com um toque de fantasia e idealismo e que histórias de amor como esta também existem na vida real,  ela proporciona um momento de reflexão com relação aos nossos próprios preconceitos em um mundo que sempre pregou um ideal de estética :  branco, magro, alto e de  beleza europeia. Desta forma, perguntas que não se calam durante a projeção e que fazem parte da experiência: você namoraria um homem/mulher de 1,40 m? namoraria uma pessoa com deficiência física ? só o(a) namoraria se tivesse outras qualidades compensatórias como ter dinheiro, ter um bom carro e uma boa casa, um excelente emprego? Ficaria preocupado ou irritado se as pessoas olhassem para vocês ou criticassem sua escolha? 





Por que esta comédia tem de tudo para trazer certo desconforto ?  Por diversas vezes, a reação de Diane é exatamente a reação da maioria das mulheres já que, desde muito jovens, as mulheres são  incentivadas a acreditar que os homens têm que ser fortes, belos e altos, têm que passar aquela sensação de segurança, não apenas afetiva e material mas também uma vigorosa proteção física.  "Um amor à altura" desconstrói um pouco isso, embora também reforce alguns estereótipos como a mulher alta, magra e loira e o homem endinheirado e bem sucedido. Se podemos tirar um lição deste filme, ela não é o Amor. A maior lição é trazer a reflexão de que, a sociedade não é legal com pessoas muito baixas. Elas acabam sendo transparentes ou rejeitadas pelos outros se não têm outras virtudes que chamam a atenção.




Ficha técnica do filme ImdB: Um amor à altura
Distribuição: Califórnia Filmes
Estreia no Brasil: 04 de Agosto de 2016
Créditos fotos: uma cortesia Gaumont/California filmes 












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