sexta-feira, 17 de junho de 2016

A viagem de meu pai (Flórida/ Floride, 2015), de Philippe Le Guay


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière







O retorno de Jean Rochefort a um novo filme é sinônimo de celebração. Vencedor honorário do César Awards (1999) por sua extensa carreira no Cinema Francês, ele tem um carisma que traz maturidade, ternura e simpatia à tela. Em parceria com o diretor Philippe Le Guay ("Pedalando Molière" e "As mulheres do 6º andar) na comédia dramática "Flórida" (Floride), o ator atua como Claude Lherminier no auge de seus 86 anos, um senhor que começa a ter acessos de demência e requer os cuidados da filha Carole (Sandrine Kiberlain) que tem que dividir o seu tempo entre as responsabilidades com o pai, a direção da empresa da família e a necessidade de levar sua vida afetiva. 



Philippe Le Guay e Jean Rochefort: 
uma adorável parceria com a qual o público só tem a ganhar


Le Guay é um crível cineasta e roteirista para comédias dramáticas. Suas adaptações conciliam o humor e o drama com notável versatilidade no roteiro, com uma realização leve, criativa e que tem muito a dizer sobre os homens em diferentes ciclos e situações. Normalmente seus filmes têm protagonistas  do sexo masculino divertidos e em um momento de crise . Ele costuma trabalhar bem com outro grande ator francês e cômico, Fabrice Luchini. Trazer Rochefort para abordar o mal de Alzheimer conduz o público para uma jornada de risos e lágrimas, além de toda a honra de ver o icônico ator em plena atividade.






O agradável trabalho de Le Guay  permanece com o  recorrente ar da graça ainda que seja triste abordar um senhor em processo de esquecimento de suas lembranças. É uma forma de mostrar que a comédia ganha muito ao tratar temas dramáticos com bom humor, espontaneidade e a aceitação de que faz parte da vida vivenciar o ato de envelhecer e ser constantemente desafiado pela memória. Trabalhar com Rochefort acaba sendo um presente para o público devido à delicadeza esculpida em um filme que aborda o envelhecimento, a perda de memória, as angústias e tensões familiares ao lidar com idosos e as perdas da própria vida.





Pai e filha : entre o afeto e as discussões


Este roteiro é uma adaptação da peça "Le pére" de Florian Zeller, um elogiado dramaturgo Francês. É uma bela história que mescla uma atmosfera solar, combinando o plano real da França onde os personagens principais habitam com o plano onírico de uma Flórida imaginada na mente de Claude. Ele tem um motivo para sonhar com a Flórida, que é um dos detalhes que tornam a história mais onírica, mais comovente. Ele precisa torná-la presente em sua vida a qualquer custo e significa a materialização do amor paterno, com direito a sol, palmeiras e suco de laranja. De uma maneira bem articulada com a decupagem dos planos e a montagem final, Le Guay consegue mostrar a passagem do tempo narrativo como também um tempo psicológico, com portas temporais que se abrem e se fecham como a memória de Claude. 




Sandrine Kiberlain no papel da filha que cuida do pai idoso:
 as escolhas entre a família e sua vida pessoal


Em sua essência, a história aborda as reações do idoso que luta contra a demência. Então, por trás do riso solto e da forma francesa de brincar abertamente sobre temas dramáticos, há a dura realidade do Alzheimer.  Para quem convive com idosos que têm uma personalidade mais forte ou excêntrica ou um estilo mais ativo de viver, de maneira geral, é muito desafiador para eles aceitarem que estão envelhecendo, que estão doentes, que necessitam ser ajudados por outra pessoa, que terão  determinadas limitações a cada dia. Por várias vezes, eles são mal humorados ou podem ser cruéis nos desabafos, mas também há o amor  e o sentimento de fazer parte da vida dos filhos e ainda poder comandar a família. As mais cômicas - dramáticas cenas do filme trabalham bem este aspecto enfatizando que Claude é um homem brilhante que, diante das vulnerabilidades provocadas pela idade, pouco a pouco, convive com a solidão e a constante tentativa de lembrar da infância e da família.




Que momento! Que fotografia!


A honestidade de "Flórida" é exatamente mostrar que um envelhecimento com perda gradativa da memória testa a todos, tanto o idoso como os familiares.  A personagem de Sandrine Kiberlain, sendo  a única filha que resta para apoiar o pai, sente-se dividida entre o afeto e a angústia, entre impor limites ao pai e à sua própria vida pessoal. Seu desafio mostra que o envelhecimento dos pais não é nada fácil para os filhos,  por isso, sua personagem complementa  a excelente performance de Rochefort. Não há como não sentir empatia pelos personagens destes adoráveis atores Franceses, principalmente quando eles passeiam em um carro conversível em uma extraordinária paisagem verdejante que jamais deveria ser apagada da memória de ambos. É um momento único entre um pai e uma filha, um momento que está registrado na memória do Cinema Francês.




Ficha técnica do filme Imdb Flórida
A viagem de meu pai ( no Brasil ) - título no Festival Varilux : Flórida
Distribuição: Mares filmes
Data de estreia no Brasil: 11 de Agosto de 2016
Fotos: uma cortesia Gaumont e Mares filmes

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière