quarta-feira, 15 de junho de 2016

Chocolate (Chocolat, 2015), de Roschdy Zem


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière 





"A história de Chocolate me tocou. Nascer escravo, fugir e se tornar um artista é um percurso inacreditável. Imagina a dose de coragem e trabalho que ele precisou ter para chegar lá." (Omar Sy)



É notável reconhecer que um verdadeiro ator tem uma missão histórica e não meramente artística e individual. Quando ele consegue conciliar o seu desenvolvimento como ator com o interesse genuíno de contar a narrativa de outro grande artista, valorizar seu legado e sua importância em um determinado contexto social, podemos dizer que este ator tem uma consciência artística coletiva além de seus propósitos de carreira. Ele está está a serviço da sociedade, de fazer chegar ao público a relevância dos artistas para a História e Cultura de um país.





Neste ponto, Omar Sy, admirado por trabalhos comoventes como "Os intocáveis" e "Samba", conciliou seu desejo de interpretar o primeiro artista circense negro da França, Rafael Padilha, mais conhecido como o palhaço Chocolate, que fez grande sucesso na Paris do século XIX ao lado de seu companheiro de trabalho, Footit. Inspirado no livro "Chocolate" do historiador Francês Gérard Noiriel, o novo longa do diretor e ator Roschdy Zem apresenta uma parceria incrível entre Omar Sy e James Thierrée ( grande artista circense, neto de Charles Chaplin), no qual o público poderá conhecer a ascensão e a queda do artista negro. 







O projeto foi iniciado quando Sy conheceu a obra de Noiriel e apaixonou-se pela trajetória de Chocolate, um dos artistas mais populares na cena circense de Paris. O roteiro foi apresentado ao diretor que não teve dúvidas sobre aceitá-lo. Como paralelo, as motivações do ator para levar um personagem tão esquecido na História foram a vontade de fazer um filme de época, a desafiadora experiência de realizar a performance de um palhaço e a admirável vontade de mostrar ao público o valor da vida de Chocolate.




"Chocolate conta a história de uma dupla que se encontra, cria junto e que a vida separa. Mas também conta a história da emancipação de um homem - Chocolate -  que descobre a vida, se torna um adulto, conhece a maturidade  e também certa amargura." (Roschdy Zem)



Na história, Rafael Padilha/ Chocolate nasceu em Cuba e foi filho de escravos. Após a fuga, ainda criança, ele cresceu nas ruas do interior da França e viajou com um circo itinerante, fazendo apresentações como uma figura exótica africana. Conheceu o artista Footit (Thierrée) no circo, e este viu em Chocolate a chance de formar uma dupla, inovar o espetáculo, explorar a excêntrica parceria entre um palhaço negro e um branco em uma Paris elitizada. Após receber a proposta de um dono de circo na capital Francesa, ambos partem para uma jornada de maturidade. A  partir daí, a história relata os altos e baixos de Chocolate:a popularidade, a ascensão social, os vícios, os amores , as amarguras e questionamentos e a queda.






Inegavelmente, Sy desafiou a si mesmo ao interpretar um palhaço, desta forma, o grande presente do filme para o público é ver o ator interpretando um artista negro em uma Paris massivamente branca que, com o sucesso de Chocolate, teve um momento de questionamento dos estereótipos sobre negros. Além do mais, o artista teve uma vida de quebra de paradigmas para a época como ser um negro famoso, endinheirado, com relacionamento afetivo inter-racial, entre outros, portanto, Chocolate é inspirador e merece ser prestigiado. Sy ressalta a inspiração biográfica do palhaço para o trabalho: "Chocolate era um artista. Queria que sua vida, seu trabalho e seu talento fossem reconhecidos"






Ainda que seja um ator carismático e com uma evidente veia cômica, representar um palhaço em um filme de época é uma experiência inédita para Sy e não é uma tarefa simples. A dupla com Thierrée tem boa sinergia e uma equilibrada força dramatúrgica entre o drama e o humor, entre a amizade e as tensões existentes na relação. A decisão de Roschdy Zem de colocar um experiente comediante e artista circense como Thierrée cooperou para a prática técnica de um leve screwball, tanto que, para  Sy, a experiência exigiu bastante pesquisa e treino de como movimentar o corpo como um talentoso palhaço.  A maravilhosa habilidade de Thierrée, que tem um valioso DNA circense para o Cinema, eleva consideravelmente a qualidade das cenas.


Chocolate entrega emoções que são comuns à trajetória de um artista que nasceu em lar humilde e cresceu sem educação e apoio familiar e, em um certo dia, atinge o sucesso e também a queda. Tudo isso é muito comovente quando pensamos que, qualquer pessoa, inclusive as do meio artístico, estão vulneráveis a alcançar o céu e o fundo do poço em pouco espaço de tempo, entretanto, o mais belo deste roteiro é a relação entre Footit e Chocolate, duas pessoas bem diferentes que, são parceiros de palco e amigos, mas também, há um lado bastante dúbio na amizade, um linha tênue entre a confiança e a desconfiança, entre os lucrativos ganhos da popularidade para a dupla e a necessidade de Chocolate de crescer como artista. 






Estas contradições da relação não necessariamente têm a ver com a etnia de cada um. Tem muito mais a ver com o próprio contexto artístico, os interesses econômicos dos donos de circos e de entretenimento do público em espetáculos, nos quais eram reforçados os preconceitos, assim, Chocolate era um negro que, nos números apresentados no palco, apanhava do homem branco e o público achava isso engraçado. Com o tempo, Chocolate passou a conhecer a si mesmo, a perceber como a sociedade funcionava e a desenvolver vontades próprias, inclusive de atuar no teatro e ter sua independência. Por outro lado, Footit é relevante na vida de Chocolate, afinal, seja por gratidão e amizade, seja pelo trabalho, Footit gostava do colega e Chocolate sabia reconhecer isso.





Com uma história tão reveladora do talento deste grande primeiro artista negro da França, de maneira muito nítida, Sy demonstra  uma nobreza na atuação. Ele não é um palhaço nato e, em determinados momentos, nota-se claramente que existe um leve desconforto ou um lado mais engessado na atuação em determinadas cenas, entretanto, isso não chega a afetar a veracidade da atuação. Sy tem carisma e ponto final. Seu sorriso largo, seus olhos negros brilhantes e seu porte alto e elegante seduzem e conquistam as plateias do filme e, com as daqui, não será diferente.

É evidente que o diretor Roschdy Zem não quis  criar polêmicas como Chocolate foi tratado pela sociedade branca Parisiense durante mais de 20 anos. Ele é bem discreto neste aspecto. Sua direção na mise en scène foi crível para suportar as qualidades artísticas das cenas. Ele investiu na direção de atores, na direção de arte, figurinos e no tratamento da fotografia e da montagem. Sob o ponto de vista do roteiro x decupagem, ele não quis tocar fortemente nas feridas do racismo, não exerceu um papel de juiz na abordagem dos preconceitos, não se posicionou firmemente, mas também não ocultou certas situações constrangedoras pelas quais o palhaço passou.  Tendo em vista esta escolha, o filme em si não é tão passivo para tratar o preconceito, mas o faz discretamente. A amargura de Chocolate é um sinal de questionamento diante do racismo e é um precioso traço dramático da narrativa.





Desta forma, o filme é uma boa combinação de drama e comédia, muito mais inclinada ao drama e que deixa a reflexão de que, por mais que um palhaço nos faça rir, ele pode ter uma historia muito triste  e de fracassos. Esta angústia e vazio não estão apenas em Chocolate, mas também em Footit. A crível atuação de Thierrée deixa claro que o palhaço chora por dentro e ambos choraram. Chocolate é representado como uma alma doce e divertida, um artista com uma doçura e ingenuidade que, infelizmente, contribuíram para o seu fracasso. 


O desfecho comovente não aponta culpados de uma maneira inquisitória e revela o valor da amizade, do trabalho, da memória de uma vida dedicada à Arte. Mostra um outro lado da história da França que precisamos conhecer e que não tem finais felizes nos grandes salões Parisienses.  Ele dá uma ideia clara de que  injustiças não se apagam com a História e de como as pessoas têm memória curta com relação ao valor de outras pessoas.



Ficha técnica do filme ImdB: Chocolate
Distribuição: Califórnia Filmes
Estreia no Brasil: 21 de Julho de 2016
Créditos fotos: uma cortesia Gaumont/California filmes 
e ag. Febre/Festival Varilux



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