quarta-feira, 22 de junho de 2016

Marguerite (2015), de Xavier Giannoli


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière





"Eu sentia que aquela voz imperfeita tinha algo a me dizer, um segredo."
(Xavier Giannoli, diretor)



O Cinema é uma Arte de reinvenção e, como toda inventividade que abriga várias histórias inspiradas em biografias reais, o Cinema nos ajuda a compreender as dimensões emocionais dos personagens que souberam se reinventar apesar de seus seus defeitos, excentricidades e falhas.


O cineasta Xavier Giannoli (de "No princípio") encontrou uma humanizada inspiração para seu novo longa "Marguerite": a desafinada aspirante à cantora de ópera Florence Foster Jenkins que viveu nos USA nos anos 40. Vencedor do prêmio Nazareno Taddei no Festival de Veneza 2015 e de 4 Césares em 2016 (Melhor atriz - Catherine Frot, melhor figurino, design de produção e som), o longa é ambientado na Paris dos anos 20  e é uma fabulosa comédia dramática, digna de ter compaixão de Marguerite, sua terrível voz e falta de autocrítica.

Interpretada magnificamente por Catherine Frot, que dá à personagem uma personalidade acessível, refinada e carismática, Marguerite é casada com Georges (André Marcon) que se sente bastante constrangido pelo péssimo canto da esposa. Ambos os atores personificam muito bem este ambiente classudo de ilusões que cercava Marguerite.


Todos sabiam que ela era um fracasso e não conseguia identificar em si quão mal cantava, ainda , como uma forma de proteção e amor, Georges e o leal mordono Madelbos (Denis Mpunga) fazem de tudo para não contar a verdade a ela e esta é uma das dimensões mais dramáticas e compassivas da história. Marguerite tem a alma de artista mesmo que lhe falte uma boa voz, ela é adorável, por que frustá-la? Todos vivem a mentira que faz parte da sociedade do espetáculo.


                              


Ela era uma mulher rica e apaixonada pela música clássica, que tinha muito dinheiro para arcar com seus refinados gostos para demonstrar a Arte da ópera e, também, tempo e empregados para isso, entretanto, lhe faltava o dom e a habilidade técnica do canto, lhe faltava a voz. Ela cantava muito mal a ponto de ser motivo de riso e zombaria. A sociedade elitizada e hipócrita, bem evidenciada na história, tenta enganá-la agindo como se ela fosse talentosa  e com potencial para apresentação em palcos. O cinismo social é o lado amargo em cena, o que faz o contraponto com a doçura de Marguerite.


Estes comportamentos da sociedade, que funcionam como uma crítica, entre eles o do engraçado (e mal humorado) professor de música e fracassado cantor de ópera,  Atos Pezzini (Michel Fau) e do contraditório e interessseiro jornalista Lucien Beaumont( Sylvain Dieuaide) são uma mostra de que as pessoas suportavam os sonhos de Marguerite e também sabiam fazer parte do espetáculo da mentira, dos interesses financeiros. Como bem dito por Giannoli, "A mentira é um espetáculo que precisa de várias pessoas. E trata-se de uma situação muito cinematográfica porque ela embarca o espectador na sua lógica, no seu delírio" 


De alguma forma, ela sabia conquistar a todos, seja pelo dinheiro , seja por virtudes como a bondade e a confiança.  Mesmo não cantando bem, Marguerite sabia reconhecer quem cantava e investir até mesmo em uma jovem cantora sem posses como Hazel (Christa Théret) e iniciativas humanitárias de apoio às vítimas de guerras. Marguerite é encantadora, um personagem bem desenvolvido e interpretado que eleva consideravelmente a qualidade do longa.



"Marguerite vive uma paixão, em todos os sentidos da palavra: o aprendizado do sofrimento e a alegria de viver pela música. Ela canta desastradamente mal mas sentimos que ela expressa uma necessidade feroz de viver." (Giannoli)



Este longa é um bel prazer para quem ama Cinema de época, ama Paris dos anos 20, ama música clássica e teatro. Os prêmios do César dados aos aspectos artísticos da cena como figurino e design de produção são merecedores e embelezam a cena.  Giannoli teve um cuidado extraordinário com a direção de Arte na mise en scène e com o caráter teatral das personificações de óperas interpretadas  por Marguerite, com uma ênfase na relação da fotografia com a cenografia. 



Catherine Frot está uma diva fabulosa. O filme é dela, com ela e para ela. Ao mesmo tempo está humanizada, de carne, osso e coração, ao mesmo tempo marcada por uma aura de  atemporalidade que apenas as mulheres imortais do Cinema e da Ópera têm. Para quem não conhece a biografia de Florence Foster Jenkins, observar os delicados gestos, a ingenuidade, a solidão e a insanidade da atuação de Frot corroboram para que sua verdadeira história seja pesquisada e lida.




André Marcon:  excelente atuação no drama de um marido que ama e ilude a esposa


O filme é como um grande palco da sociedade Parisiense dos anos 20, seus teatros, glamour e excentricidades, mas também tem uma dinâmica bem cômico- dramática, mais restrita ao lar de Marguerite, sua relação com o marido e com os conhecidos, com os que quem tinham que suportar sua irregular voz. O público é colocado no grande palco criado por Marguerite, sua vida solitária e seu amor pelo marido que, nem sempre, sabia como valorizá-la. Seu amor por Georges é comovente. Sabe aquelas mulheres que querem ser muito amadas por seus maridos, que querem que eles a enxerguem? Marguerite é uma delas! Ela quer que o marido a enxergue.




Os momentos mais engraçados contam com o excelente Michel Fau.
 A mentira faz parte do espetáculo.



Esta imperdível "dramédia" é uma das melhores surpresas do Festival Varilux de Cinema Francês 2016 e um dos filmes que têm de tudo para cativar o público. É uma produção feita com tenacidade e perfeccionismo por Xavier Giannoli que não transforma a história em uma cinebiografia convencional. Nisto está uma de suas principais forças como Cinema pois o diretor ressalta " minha convicção é de que precisamos da ficção para tentar compreender e sentir a realidade do mundo e dos seres humanos. Eu não me contentaria com uma abordagem documental nem com um puro trabalho de ficção"


Diante disso, há um recorte claro no roteiro, alicerçado por uma escrita com excelente senso de humor, um pouco de biografia, de ficção,  de onirismo, de um mundo feminino muito próprio. O diretor pesquisou sobre divas sublimes em fotografias na biblioteca da Ópera de Paris e soube dar bastante humanidade à Marguerite, uma mulher que tudo tinha menos o canto lírico que tanto amava. Uma mulher que se apegou à música não apenas como uma paixão mas por que a ópera era sua companheira, sua amiga em todas as horas. 


A voz insuportavelmente ruim e a vulnerabilidade de Marguerite, expressas através de um auto-engano e algo mais próximo da negação são honestos com o espectador. É como rir da tragédia alheia, uma tragédia que funciona como um espelho e mimetiza tantas outras falhas que temos e não conseguimos enxergar. Ela criou o seu próprio mundo e ninguém tinha coragem de derrubá-lo. Ninguém tinha coragem de fazê-la infeliz porque, com seu jeito autêntico, ela também sabia trazer o sonho para a superficial e solitária vida de muitas socialites da época. Talvez Marguerite se deixou enganar por ingenuidade, talvez por uma cegueira disfaçarda, o bem da verdade é que Marguerite se deixou levar por sua paixão e não há mal nisso.  Podemos ter paixões e nenhum talento.



"O importante é ter uma visão pessoal, propor um ponto de vista sobre a verdade humana que se exprime num destino bastante original... e depois sentir-se livre para fazer cinema." (Giannoli)





Além do bom gosto artístico, cuidadosa direção,  esplêndida atuação de Frot e set de músicas como "Casta Diva" (Norma, de Bellini) e clássicos de Bach, Mozart, Purcell e Vivaldi, o mais apaixonante nesta imperdível produção é que Marguerite é  insana e apaixonada. Ela não tem consciência ou não está preocupada com o que os outros pensam. Há vivacidade  e paixão na sua obsessão, no melhor dos sentidos. Ela é obcecada, uma adorável e autêntica mulher.  Com isso, a compaixão dos outros ao conhecê-la é natural, afinal, em vários momentos da projeção, a pergunta mais óbvia e recorrente é: "Marguerite, será que você não enxerga como tem uma péssima voz e não merece ser ridicularizada em público? De repente, a resposta é mais óbvia ainda: Viva a sua paixão e sua loucura, Marguerite! Ouça a música e viva a Arte à sua maneira. Não nos esqueceremos de você."







Ficha técnica do filme Imdb Marguerite
Distribuição : Mares Filmes
Data de estreia no Brasil: 23 de Junho de 2016
Trechos da entrevista e fotos: uma cortesia Mares filmes




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