quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Clã (El Clan / The Clan - 2015), de Pablo Trapero




"O contexto diz muito sobre o que está acontecendo na intimidade desta família"
(Pablo Trapero)


Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Este ano, o Cinema Latino Americano se destacou por apresentar três dramas contundentes nos quais prevaleceu a maestria de uma essencial combinação:  a produção e a direção que, em uma parceria marcada por projetos realistas e provocativos e um estilo singular de fazer Cinema, trabalharam para entregar filmes de evidentes diferencial e qualidade, entre eles: "O Clube", do chileno Pablo Larraín e com produção de Juan de Díos Larraín ("No"), "Desde Allá", do Venezuelano Lorenzo Vigas e com produtores como Guillermo Arriaga ("Amores brutos", "21 gramas") e Michel Franco ("Depois de Lucia") e, finalmente, o mais recente lançamento, "O clã", do argentino Pablo Trapero, com produção de Pedro e Agustín Almodóvar. Neste excelente contexto para a América Latina, convém também parabenizar a Colômbia por colocar "O abraço da serpente" entre os 9 finalistas da short list para a categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2016.




O Clã, sucesso de bilheteria na Argentina e foi o candidato da Argentina 
na corrida por uma das vagas como melhor filme estrangeiro - Oscar 2016


Baseado na biografia da Família Puccio que, nos tempos da Ditadura, no decorrer dos anos 80, começou a sequestrar, torturar e matar pessoas na Argentina, a narrativa enfoca o líder da família e principal protagonista, Arquímedes Puccio (Guillermo Francella) que, a pulso firme, era o mentor de todos os crimes e demonstrava um comportamento extremamente frio, calculista e sádico. Sem qualquer sinal de arrependimento e piedade, ele conduzia o filho Alejandro (Peter Lanzani) como cúmplice dos sequestros e outros capangas. O jovem Puccio, dividido entre o sonho de prosperar no esporte e ter dinheiro para realizar seus projetos, perde a autonomia sob a própria vida e passa a participar dos crimes. Assim, por trás de uma família tradicional Argentina, o roteiro demonstra uma trama de autoritarismo na instituição do lar que mescla interesses políticos e uma chocante corrupção e violência dos envolvidos, com destaque para a excelente performance de Francella, um dos melhores atores do Cinema Argentino, que entrega a impactante figura de um fascista atemporal que está disfarçado de homem comum.




O magnífico ator Guillermo Francella como Arquímedes Puccio: 
um pai cruel que não aprendeu e não quis ser diferente


Além do fenomenal  Francella e um drama violento de primeira linha, O clã é um primor na direção de Trapero. É ela que dá muito prazer cinéfilo ao observar a linguagem cinematográfica e  faz bastante diferença no resultado final. Isso explica porque ele ganhou o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2015 como melhor diretor.  Seguramente, a orquestração plano a plano do cineasta está no topo das virtudes do longa, muito bem apoiada pela fotografia de Julián Apezteguia. É uma direção bem articulada entre a intenção do diretor sob a perspectiva dramática, emocional, mas também, ele explora a mise en scène com movimentação de câmera e enquadramentos diferenciados e que fogem do lugar comum; desde uma das cenas com automóvel, quando ocorre uma situação crítica e inesperada durante um sequestro, Trapero combina uma variedade de elementos em cena que causam um impacto visual e dão um toque de profissionalismo ímpar.  Nesse ponto, é perceptível como uma direção engenhosa consegue dar um toque de frescor e estilo aguçado a qualquer cena e/ou sequência. 



Os fascistas também oram. 
Qualquer semelhança com alguns políticos do Brasil não será uma mera coincidência.


Tão igualmente interessante é perceber que uma direção sem desenvolvimento das personagens não é uma direção completa. Felizmente, Trapero entrega uma bem executada em toda a totalidade. O cineasta não se preocupa apenas com  a engenhosidade audiovisual, meramente técnica, realista e objetiva. Pelo contrário, o filme é um festival de emoções, em especial na relação entre Arquímedes e Alejandro, ambos com uma sinergia impressionante como pai e filho e, em como a família Puccio é envolta em uma casca de negação como se não estivesse cometendo nenhum crime. É a gênese da maldade dentro de uma família, na qual fingem que um sequestro é apenas uma coisa natural, necessária e justificável. É exatamente esses comportamentos que mais chocam na história, é essa natureza cruel que é assustadora por excelência e está no seio das tradicionais instituições.




O talentoso Peter Lanzani: um jovem com sonhos, 
entre a ambição, a violência e o autoritarismo de um pai doenio



Embora ninguém pode obrigar o outro a sequestrar, torturar e matar, para analisar melhor os aspectos biográficos e individuais do desenvolvimento dramatúrgico do roteiro, é essencial observar o personagem  Alejandro. Nota-se que a situação de um filho mais velho é relevante nesta história. Ele quer ser admirado pelos  irmãos e irmãs, amigos, namorada e fãs, ser empreendedor, dono do próprio dinheiro e apoiar a família, mas tem como desafio incontrolável ser o filho de um fascista e lidar com um modelo masculino de conduta que o leva para o "lado negro da força". Alejandro  convive em um clima de aprisionamento individual, dividido entre o ético e a violência no lar. Em muitos momentos será uma pessoa sem personalidade, medrosa, acomodada e ficará pequeno  diante de Arquímedes. Nem mesmo sua vida social de aparências nas festinhas e jogos e o desabrochar de um romance parecem tirá-lo das rédeas do autoritário pai. É uma situação bastante conflituosa e, portanto, rica para o desenvolvimento da história. Todos os filhos, por mais ruim que um pai ou uma mãe seja, querem ser amados por seus pais. Essa passividade de Alejandro é bem dolorosa e realista.






Em um dos poucos momentos de afeto, Arquímedes é um pai cruel para o qual a família é prioridade,  porém, apenas se as coisas forem feitas do seu jeito



Arquímedes é a força do mal em pessoa. Lembrar dele é lembrar de filmes que intensificam a gênese do mal como "A onda", "A fita branca" ou qualquer outro com personagens fascistas. A excelente atuação de Francella coopera para que o público veja a crueldade humana.  Sem muitas manifestações de afeto, salvo pelos filhos e à sua maneira, ele dedica-se a elaborar os sequestros e mantê-los sob controle. Para ele, isso chega a ser um prazer, um ofício sério que requer disciplina, um ritual que preza pela perfeição , por mais louco que pareça. No entanto, na maior parte da projeção, o filme deixa para o público julgar ou não este pai, por que, por mais cruel que a história seja, ele é um pai tradicional, um homem que poderia ter tido o livre arbítrio de escolher outro caminho, um general do lar que valoriza a família dentro dos moldes de pensamento que ele cultiva. Ele é um pai que cresceu com a ditadura Argentina, ou seja, ele teve maus exemplos na História do país assim como também há péssimos exemplos na trajetória do Brasil. Ele não tem nada de bom a ensinar aos filhos e é o produto ruim de sua geração. Analisar este pai em um contexto de ditadura e de troca de favores entre pessoas influentes, de silêncio de vizinhos, jornalistas e políticos é entender parte considerável do drama. É compreender que ele não é o único réu da história.


Especificamente em "O clã", Trapero faz uma homenagem para as famílias das vítimas, assim a narrativa está além do drama no seio familiar e ganha uma dimensão universal. Com essa forma excepcional de recriar boas histórias, o Cinema Argentino demonstra mais uma vez o fôlego para produzir filmes que resgatam a essência de muitos aspectos históricos do país e, com isso, fomentam o fundamental: um cinema contemporâneo alinhado ao melhor da cinematografia mundial e com dramas coletivos e individuais de intensa força dramática. 





Ficha técnica do filme ImdB O Clã
Lançamento nacional: 10/12/2015
Editora: Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Fotos: uma cortesia El Clan, el filme



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