domingo, 6 de dezembro de 2015

Califórnia (2015), de Marina Person



Por Renato Alves
Jornalista, historiador e escritor de quatro contos independentes.



De uma forma geral, o cinema brasileiro é criticado por tramas fracas e o padrão de televisão existente nas obras. Porém, discordo totalmente, apesar de respeitar. Particularmente entendo de que precisamos perder essa construção, radical e fria, de que todas as produções cinematográficas nacionais, para serem merecedoras de elogios, dos críticos, precisam ser densas, reflexivas ou chatas. Sou a favor da mescla entre o sério e o bom humor. A reflexão e a brincadeira.


No dia 17 de novembro fui ao “1º Espaço Educação, Arte e Literatura”, em Praia Grande, lançar meu livro “Rainhas”. Entre as diversas perguntas que me fizeram uma, de um jovem de aproximadamente 15 anos, me marcou: “como valorizar a cultura e o cinema nacional com tantos produtos estrangeiros chegando ao Brasil”?




Paulo Miklos, grande experiência na música e no cinema Brasileiro, 
agora no elenco de "Califórnia"


Em minha resposta tentei ser direto e realista: Precisamos conhecer mais a cultura brasileira. Não somente os produtos que a grande mídia nos apresenta através de embalagens enlatadas e direcionadas. Valorizar a arte nacional fará com que o país tenha orgulho de si mesmo. De forma natural. Conhecer o Brasil é se apaixonar por si mesmo.

O curioso é que eu tinha feito praticamente essa mesma pergunta ao Produtor Diler Trindade no extinto programa Sala de Cinema – TV Sesc – anos atrás, e a resposta dele foi muito semelhante à minha.


O público precisa conhecer, de verdade, a tradição brasileira. Do cinema, a literatura, a música, etc. Fico abismado de como o povo brasileiro, em sua grande maioria, não veste suas raízes na alma. Digo isso tudo porque fico abismado como o cinema nacional possui joias raras, que retratam nossas raízes e valores e que não conseguem obter o sucesso merecido. Produções sensíveis, densas, históricas e que precisavam ser valorizadas e guardadas no coração do povo brasileiro. A cada bobagem estrangeira que sai em todas as salas de cinema, perdemos espaço para bons filmes e produtos nacionais. Quem assistiu “Narradores de Javé”, por exemplo?


Agora, vamos falar do filme “Califórnia”, sob minha ótica:

Se a primeira impressão é a que fica, como diz o ditado, parabéns para a estreia de Marina Person em seu primeiro filme de ficção – antes a cineasta tinha dirigido o documentário Person (2007).




Juventude e nostalgia dos anos 80, dois pontos fortes do longa




Filme afetuoso e nostálgico que traz um retrato do Brasil, na década de 80. E o mais apetitivo, a meu ver, é que faz esse retrato sem levantar julgamento ou perguntas. A obra nos traz almas e descobertas. Não é uma obra espetacular, digna de Oscar e inesquecível. Entretanto, porque não podemos apenas assistir a um filme com o resgate da década de 80, onde tudo é homenagem e nostalgia?


Raul Seixas cantou na sua música “Anos 80”: -“Hey! Anos 80! Charrete que perdeu o condutor”. Ousaria dizer, através de liberdade poética, que Marina Person, em termos cinematográficos, soube ser uma boa condutora. A cineasta foi condutora através de uma trilha sonora saborosa (que me levou a muitas viagens no tempo) e um roteiro charmoso e afiado, vencedor do Prêmio da categoria no Mix Brasil 2015.








Caio Horowicz e Clara Gallo, destaques na nova geração de atores no Cinema Brasileiro


A diretora merece aplausos também pelo trabalho de inspiração com o elenco, que tem conquistado prêmios de Melhor Ator Coadjuvante – Caio Horowicz, no Festival do Rio 2015 e de Melhor Interpretação para Clara Gallo, no festival Mix Brasil 2015. Paulo Miklos (que tem se mostrado um ótimo ator desde “O Invasor”), dessa vez, faz o papel de pai sério, contraste absoluto dentre suas músicas rebeldes no auge do grupo Titãs.


Elogios acalorados e sinceros também a bela direção de arte do filme, trabalho de Ana Mara Abreu. Cada boneco presente na tela é um espelho do interior de quem viveu o auge da década onde o mundo descobria a AIDS. No meu olhar só faltou algum boneco do Playmobil.




Caio Blat, crível e experiente a cada atuação, sensibilidade em cena




Entre as cenas que mais apreciei citaria a  que o personagem de Caio Blat toma sorvete com a sobrinha e tenta, mas, não consegue, dizer o que sente. Ele tenta gritar e expor a sobrinha a dor que sente ao estar doente. Ele quer pedir socorro. Porém, sua fragilidade, como a de todos os humanos, o impede. Retrato da dificuldade de diálogos entre toda humanidade.


Não o percam! É uma viagem nostálgica e deliciosa. Vamos abrir o espaço que o cinema nacional quer e precisa para ser mais descoberto. Urgente.








Ficha técnica do filme Imdb Califórnia
Distribuição: Vitrine Filmes
Lançamento nacional: 03/12/2015
Editora : Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Fotos: uma cortesia - "Califórnia", o filme







2 comentários:

  1. Gostei do filme.

    Sonia Alves

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  2. Não era tão bom como me disseram ou quanto o Renato recomendou no texto.....mas, é melhor do que a média nacional.

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