segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

As Sufragistas ( Suffragette) - 2015, de Sarah Gravon


“Todos temos de nos unir uns pelos outros” (Meryl Streep)




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



12 de Dezembro de 2015 é uma data de conquista para eleitoras e candidatas às eleições em um dos países mais tradicionais do mundo: A Arábia Saudita. Pela primeira vez na história do país, as mulheres conquistaram o direito ao voto e aos cargos elegidos por ele. Uma tímida conquista em comparação às realizações de anos de luta das mulheres pelo protagonismo em diversas áreas do conhecimento e da sociedade em geral, entretanto, um grande passo para ter direitos essenciais ao exercício da cidadania e uma evolução na igualdade do gênero em uma pátria que pouco lhes dá voz.






Se a Arábia Saudita apenas cedeu o direito ao voto às mulheres em pleno século XXI, na Inglaterra, entre o final do século XIX e início do XX, “As Sufragistas”, um grupo de mulheres se colocou diante da autoridade presunçosa e machista da época e lutou pelo direito ao voto. Resistindo à opressão e a humilhação, principalmente, as vindas de homens poderosos como políticos e juízes, da polícia, de empregadores e, até mesmo, de seus maridos, As Sufragistas se rebelavam de forma passiva contra um amplo sistema misógino que tinha como objetivo calar a voz da liberdade feminina.



Inspirado por esse movimento, a roteirista Abi Morgan (de “A Dama de Ferro”) e a diretora Sarah Gavron (ganhadora do BAFTA) encabeçam a liderança do drama “As Sufragistas” (Suffragette), estrelado por um elenco grandiosamente feminino e formado por atrizes fantásticas como Carey Mulligan, Helena Bonham Carter e Anne-Marie Duff, além de uma participação especial de Meryl Streep e de experientes atores como Brendan Gleeson e Ben Whishaw. Na história, Maud Watts (Mulligan) trabalha em uma lavanderia em péssimas condições de trabalho desde a infância. Após testemunhar uma jovem colega como vítima de assédio pelo chefe e reconhecer uma colega como manifestante das Sufragistas, Maud decide unir-se à causa e tem uma reviravolta em sua vida, afetando diretamente seu casamento com Sonny Watts (Whishaw) e a convivência com o seu filho pequeno. Muito além da causa coletiva, o longa-metragem toca em questões como a liberdade de escolha e as renúncias que mulheres têm feito em suas trajetórias pessoais para ter dignidade e novas conquistas.







“As Sufragistas” é uma produção que chegou em uma boa hora. Não apenas pelo momento de eleições na Arábia Saudita, um país que tem calado muitas mulheres com uma política extremista que não separa o Estado da Religião , mas também porque é um filme inspirador para a igualdade de gênero e o empoderamento feminino dos últimos anos. Concebido por uma dupla de mulheres vencedores no audiovisual, a narrativa concilia três perspectivas necessárias: a luta pelo voto, o direito à escolha e ao ativismo, a opressão e a resistência do sistema, respectivamente, as naturezas coletiva, individual e social do drama, desta forma, embora o longa não tenha um roteiro e direção excepcionais,  a natureza da proposta pode ser comparada ao que Ava DuVernay fez em “Selma”. Ambas as diretoras recortaram um momento e um movimento histórico e trabalharam com os elementos contextuais em cena, mesclando os dramas individuais da protagonista (Maud) e demais colegas com o grande antagonista em jogo, o próprio sistema impregnado de preconceitos e  de resistência que mina os direitos dos indivíduos e reforça a desigualdade social.






O grande peso da atuação é de Carey Mulligan  e sua Maud que, abre mão de sua vida ordinária e submissa, para lutar pela transformação social. É uma grande atriz, de incrível sutileza para encarnar personagens corajosas e que, em alguma fase da vida, decidem mudar, como foi o caso de sua personagem em “Uma educação”, de Lone Scherfig. Neste tocante drama feminino, ela faz o papel de mãe, esposa, trabalhadora e ativista. Em cada uma das cenas que mais exigiram uma intensa carga dramatúrgica, principalmente as com o filho e com o marido, ela demonstrou mais uma vez ser uma das melhores atrizes de sua geração.






"As sufragistas têm aquela habilidade de abstrair as suas próprias necessidades e dedicar sua vida às necessidades das gerações posteriores” (Carey Mulligan)



Por outro lado, a rápida aparição de Meryl Streep, emocionante e inspiradora, além da participação de Helena Bonham Carter poderiam ter sido mais exploradas pelo roteiro, que ainda se mostrou conservador. Existe uma forte preocupação da diretora em trabalhar as emoções individuais de Maud e, no plano coletivo, mostrar o embate físico das mulheres quando confrontadas pela Polícia. Nestes planos, a diretora realiza um bom trabalho que lembra as decisões tomadas por Ava DuVernay em "Selma" para mostrar os bastidores de uma reinvindicação com agressão policial. No entanto, com relação ao desenvolvimento da história, o filme tinha potencial para explorar  melhor as estratégias das Sufragistas  e os seus bastidores. Em alguns momentos, fica claro que o movimento era passional e  amador e não havia uma organização estratégica para a ação, o que acabou por empobrecer a manifestação de uma melhor inteligência ativista. Se a líder, no papel de Meryl Streep, tivesse aparecido mais em cena, o longa ganharia na valorização da causa. Provavelmente, ou faltou material histórico ou foi uma opção da dupla Gavron – Morgan. Ainda assim, o drama tem cenas de intenso valor emocional e, certamente, muitas mulheres terão empatia não apenas com a causa, mas sentirão na pele como é desafiador ser uma mulher e, ao mesmo tempo, como é libertário e maravilhoso.







As Sufragistas vem a acrescentar uma pérola aos lançamentos cinematográficos do final de ano e está previsto para estreia no Brasil em 24 de Dezembro. É como um presente inspiracional e motivacional para as mulheres, inclusive as jovens, que podem assistir a como a luta das mulheres atravessa séculos e geografias e permanece em contínua expansão e desafios. O longa também é um ótimo material de reflexão para os homens e, de como as instituições, em grande parte, masculinas, também são responsáveis por dificultar o acesso das mulheres a melhores direitos e benefícios e, portanto, os homens têm grande responsabilidade em facilitar o processo de empoderamiento feminino. A luta continua, então, avante, mulheres e homens! Sejamos cada vez mais irmãos pela luta da igualdade de gênero!


Ficha técnica do filme ImDB As Sufragistas 



Distribuição: Universal Pictures
Lançamento nacional: 24/12/2015
Editora: Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Fotos: uma cortesia Universal Pictures


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