segunda-feira, 20 de setembro de 2010

MaDame Cult: As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides) - 1999




Em As Virgens Suicidas, seu primeiro longa-metragem de beleza ímpar, a cineasta Sophia Coppola demonstra verdadeiramente que herdou o peso do sobrenome, o talento e o bom gosto de seu pai, Francis Ford Coppola. Embora ambos tenham estilos bem próprios. Ela, mais cult. Ele, mais clássico, há um ponto de convergência entre ambos que se apoia no DNA Coppola: a sofisticada câmera que nos conduz a sublimes e contemplativos planos e sequências que descartam palavras. Basta trazer à memória o casamento de Connie Corleone, filha de Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão; como Francis Coppola move a câmera naquela festa familiar. Corleone recebe seus amigos e afilhados, os convidados dançam e conversam entre si, a imagem fílmica diz tudo, aquela ali é uma tradicional família Italiana em clima de celebração. Bem apoiada por excelente direção de arte, uso de uma elaborada palheta de cores, delicada fotografia e figurinho vintage romântico, Sophia Coppola dirige bem o cotidiano melancólico de uma família americana nos anos 70, igualmente tradicional e autoritária.



Baseado no romance homônimo de
Jeffrey Eugenides, As Virgens Suicidas é uma película tão melancólica e comovente que chega a ser maravilhosamente poética e impregnada de uma aura (sur)real mesmo em meio à sua real solidão. O pai Ronald Lisbon (James Woods) e a mãe Sra Lisbon (Kathleen Turner) têm cinco filhas lindas e loiras, as irmãs Lisbon, que vivem a prisão do isolamento em pleno frescor da juventude. Dramaticamente, essa entendiante vida as transforma em As Virgens Suicidas, tão belas e tão fadadas à precoce trágedia de suas mortes. No elenco virginal, estão Lux (Kirsten Dunst), Mary (A.J Cook), Cecília (Hanna Hall), Therese (Leslie Hayman) e Bonnie (Chelse Swain). Para interpretar o galã Trip Fontaine Josh Hartnett foi escalado para a fase adolescente, e Michael Paré para a fase adulta.







Dirigido com o ponto de vista de um grupo de garotos vizinhos que as idolatram, sob a narração em off do ator
Giovani Ribisi e os diálogos do cotidiano das Lisbon na família e na escola, As Virgens Suicidas tem o seu trágico inicio bem marcado pela tentativa de suicidio da irmã mais jovem, Cecília. Assim como a transparência do título, a tentativa de suicídio de Cecília evidencia que Sophia Coppola não dará voltas para falar sobre o contexto familiar que estamos adentrando. Somos conduzidos a compartilhar da tristeza dessas jovens que têm suas vidas punidas pelo tradicionalismo hipócrita da sociedade suburbana Americana, e tem suas juventudes desperdiçadas pela ignorância de seus pais. Com a revelação do psiquiatra de Cecília, Dr Hornker (Danny de Vito), fica mais claro a verdade que nunca se cala, a de que o suicídio é um grito de socorro e, ainda que muito jovem, através das palavras de seu diário, Cecília conhecia o mundo e não queria viver nele, simplesmente não se enquadrava nele e queria optar por não viver. É a partir do suicídio de Cecília, que o filme abre espaço para uma reflexão muito controversa: O suicídio é uma escolha coerente? Com o trágico acontecimento, os pais das virgens ficam mais atentos ao chamado para uma relativa liberdade de suas filhas e fazem alguns esforços, porém o autoritarismo do casal Lisbon é bem perigoso para as filhas, torna-se punitivo e silencioso. Nesse cenário familiar sufocante, o mal de Cecília passa do individual para o coletivo, pelo menos, no círculo formado pelas cinco irmãs adolescentes.





O ponto de vista dos garotos que não se aproximam facilmente delas nos dirige a ser qualquer um deles, afinal quem são as
virgens suicidas? O que elas sentem? O que elas fazem? O que motivou seus suicídios? Como poderíamos ajudá-las? O ponto de vista dos garotos é distanciado porque há uma aura de idealização como se elas fossem verdadeiras virgens em pedestais mas também capazes de despertar o desejo terreno, principalmente através do personagem de Lux (Kirsten Dunst em sensual performance, a sexualmente emancipada). As cenas nas quais as irmãs se comunicam com os garotos através de músicas tocadas ao telefone estão entre as imagens mais poeticamente melancólicas e bonitas, impregnadas pela triste e aprisonante condenação, sem saída; além do filme resgatar temas recorrentes no feminino adolescente como a decepção amorosa, o primeiro baile de formatura, o primeiro encontro com garotos, a entrega ao sexo desmedido, a experimentação de drogas, o apego aos discos de vinil de rock, o abandono pós relação sexual, etc. Todos esses elementos são dirigidos com sensibilidade, sem as obviedades do universo fílmico adolescente, sem deixar de lado a estética adotada pela direção.







Embalado por uma trilha sonora fascinante com destaque para a musicalidade cool e introspectiva da dupla Francesa Air, As Virgens Suicidas é um filme cult belíssimo porque ele ressalta delicadamente a melancolia dos suicidas que não necessariamente sabem que são suicidas, e como em um plano que mistura a dicotomia do sonho e do real, somos movidos a concluir que não saberemos nunca quem são as irmãs Lisbon e o que elas sentiram ao lidar com tanta proibição. É provável que ninguém suportaria uma vida tão apática que anulava a própria existência humana, a capacidade de ser livre, de se fazer presente no dia a dia. As irmãs Lisbon não são garotas autodestrutivas, enlouquecidas por transtornos psíquicos que tentam se matar frequentemente e vivem em um ambiente obscuro, decadente, sangrento; pelo contrário, elas são carismáticas, simpáticas e belas musas de um cotidiano ordinário, o qual é filmado pela cineasta de uma maneira sutil e delicada que ressalta ainda mais a beleza das virgens. As irmãs Lisbon são um mistério assim como a decisão pelo suicídio coletivo. Elas são como incógnitas e o estranhamento de quem elas são é tão interessante que, mesmo com a possibilidade de curtirem a vida adoidado na primeira chance que tiveram, elas ainda se enquadram em uma travada normalidade, uma não adaptação àquela sociedade comum. Aí reside a provocação do filme da jovem Coppola, a de que qualquer um é capaz de se suicidar em uma sociedade sufocante como essa. O fato de ser um filme honesto que não esconde a tragédia diária de suas vidas, mas deixa uma ambígua brecha de quem elas realmente eram torna-o uma intrigante película, uma poesia fílmica sobre um tempo e tema tão dolorosos como o são a adolescência e o suicídio.




Avaliação MaDame Lumière





Título Original: The Virgin Suicides
Origem: EUA
Gênero(s): Ação
Duração: 97 min
Diretor(a): Sophia Coppola
Roteirista(s): Sophia Coppola, baseado no romance homônimo de Jeffrey Eugenides
Elenco: James Woods, Kathleen Turner, Kirsten Dunst, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A.J. Cook, Hanna Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain, Anthony DeSimone, Lee Kagan, Robert Schwartzman, Noah Shebib

5 comentários:

  1. Ótimo texto Madame, impecável. Mais um filme que tenho uma curiosidade do tamanho do mundo, mas de tão cult, é um pouco difícil de achá-lo, mas espero vê-lo em breve. Da Sofia, apenas vi Maria Antonieta, filme que gostei bastante e tenho até um apego.

    Abs.

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  2. Darling!

    A Sophia é excelente em abordar o tédio humano pelo prisma de sua câmera.

    Em 'Encontros e Desencontros' Bill Murray era um ator que vivia pelo trabalho e seguia o que um agente dizia num estranho e desconhecido Japão. Em ' Maria Antonieta' uma moça é levada a uma corte esnobe e fofoqueira, sofre por não viver uma vida e sela seu destino como uma estrela do rock (o que motivou sua lendária má fama e os brioches).

    Aqui, Sophia faz o mesmo com essas garotas suburbanas com senso poético, senssibilidade feminina e com a melhor trilha sonora que ele pode usufruir.

    'As Virgens...' é lindo e assustador.

    Beijos

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  3. Acho este filme deveras superestimado. Aliás, acho a Sofia Coppola uma diretora pra lá de superestimada.

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  4. Estou com a Kamila aqui, acho Sofia para lá de superestimada. Contudo, seus filmes são bons sim. Especialmente este aqui(para mim o seu melhor). Gostei da moral que vc extraiu do filme.
    Beijos

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  5. Madame,

    Não sou muito chegada em Sophia Coppola, mas gostei bastante especificamente desse filme. Mas de verdade, pelos elementos que você gostou do filme, AMARIA o livro. Deveria ler!

    Beijos!
    Juliana P. @ FalaCultura

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