sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ameaça Terrorista (Unthinkable) - 2010



Já é comum ver no Cinema Americano o uso recorrente do argumento das ameaças terroristas de fanáticos islâmicos contra os EUA. Após os atentados de 11 de Setembro de 2001 que deixaram quase 3.000 mortos com a explosão das Torres Gêmeas em Nova York, o argumento tornou-se mais útil para os produtores, roteiristas e diretores desse tipo de filme, porém ainda é muito questionável adotar tal postura de que esses fanáticos suicidas que matam inocentes civis são o estereótipo dos povos do Oriente Médio. Na verdade, é um grande equívoco nutrir a ditadura do medo na Cultura dos USA com o argumento de que uma bomba pode explodir a qualquer momento e ela pode ter sido acionada por um islâmico, pois não faltam inimigos aos EUA; sua política externa que intervém nestes países incomoda cidadãos de distintas culturas. Nesse contexto de difíceis dilemas éticos de quem é vítima e quem é vilão, Ameaça Terrorista, thriller psicológico com Samuel L. Jackson, Michael Sheen e Carrie-Anne Moss traz uma pertubadora reflexão sobre o tema, com uma narrativa enfocada na tortura física e psicológica de Steven Arthur Younger/ Yusuf (Michael Sheen), homem criado pelos EUA que, convertido ao Islamismo, decide plantar três bombas nucleares em diferentes cidades Americanas. Como líder da operação no FBI, a Agente Helen Brody (Carie- Anne Moss) conduz a investigação a fim de obter o depoimento confesso do terrorista sobre onde estão estas bombas. Ao lado dela, o investigador H. (Samuel L. Jackson, impiedosamente insano) é chamado pelas autoridades do país para torturar Yusuf, custe o que custar, nem que seja necessário usar algum método 'impensável' (Unthinkable).










Ameaça Terrorista é um filme que incomoda por abordar a conflitiva relação entre os USA e um terrorista de uma forma visceralmente violenta e intimista, percorrendo a realista câmera no dramático trio de atores citados; e por sê-lo assim, traz à tona a contundente reflexão de que até que ponto é necessário usar a violência contra um terrorista para salvar outras pessoas, até que ponto o terrorista também tem razão, considerando que os EUA tem uma política externa que invade os territórios do Oriente Médio e nutre o ódio desses povos. Qual é a ética ao lidar com terrorista? Há uma ética no ato de torturar? Estas são perguntas pertubadoras e recorrentes durante a sessão. É um longa-metragem cuja câmera enfoca a tortura em um ambiente mais fechado e 'secreto', chega a ser claustrofóbico, logo o corpo de Michael Sheen está em evidência, principalmente a emoção transmitida em seu olhar, sua face, liberando desde a frieza do segredo até as lágrimas de desespero; no decorrer da tortura, as práticas são diversas: dedos cortados, choques elétricos, perfurações em orgão genital, sufocamento com saco plástico, e não há como ficar inerte ao sentimento dúbio - "ele é um terrorista, mas torturar assim é tão desumano, e não necessariamente, é eficaz para revelar a verdade". H. é contratado para ser um homem impiedoso, mau. Não há compaixão alguma nele, ele é um torturador, por essa razão o talento de Samuel L . Jackson é aflorado no papel, ele é insanamente assustador, o homem 'no mercy' e será ele o encarregado de fazer o 'inimaginável' para obter a informação de onde estão as bombas, provocando até mesmo a indignação da agente Helen Brody.












O filme é bem conciso e focado no que tem que mostrar na tortura até chegar ao clímax do que é 'inimaginável fazer nela' - o extremo do que seria o ponto fraco do terrorista. Não há grandes reviravoltas nesse mise en scène, mas é importante visualizar o efeito da relação entre H., Helen e Yusuf em cena e o forte impacto de questionamentos éticos que surgem dela. Há momentos que é possível estar do lado do terrorista, do lado de Helen ou do lado de H, daí parte a força pertubadora da película e como é impossível estar alheio a estes dilemas. Todos os atores tem uma excelente performance dentro de suas funções dentro do filme; há um expressividade vulnerável em Michael Sheen que não emplaca um terrorista sanguinário, psicopata; pelo contrário, ele é um homem comum, abandonado pela esposa e os filhos e que demonstra emotividade ao falar deles; ao realizar um pedido ao Presidente dos EUA, fica claro que ele não está pedindo nada diferente do que deveria ser, então a voz dele se torna a voz de cidadãos que não são terroristas, torna-se uma voz coletiva que, ao mesmo tempo, não é uma voz inocente já que ele plantou 3 bombas nucleares. Samuel L. Jackson incorpora a crueza de seu papel, chegando a ter um viés de desequilíbrio emocional, tomando drágeas de uma medicação durante as sessões tortura, e sempre dando espaço ao expectador para as seguintes indagações: "Esse é o homem que deveria estar na função de um torturador? Esse é o tipo de homem que trabalha para as autoridades norte-americanas 'na confidencialidade'? Esse é o homem que pode ajudar a salvar vidas sob risco terrorista?" Por outro lado, o dilema inevitável do expectador mais atento é pensar que somente um homem frio como H é treinado para torturar homens como Yusuf, que são treinados para suportarem torturas. Carrie-Anne Moss desempenha o papel que poderia ser de qualquer cidadão. Ela é uma mulher da lei, da ética, da moralidade, do bom senso e da justiça, então ela está no meio de um terrorista e de um torturador, equilibrando as duas pontas pois ela não concorda integralmente com os métodos cruéis de H., mas ela também não consegue influenciar Yusuf a dizer a verdade. Os focos em seu rosto transtornado e impregnado de dilemas éticos e que são suavizados pela leveza de sua interpretação fazem com que Carrie-Anne Moss entregue uma boa e harmônica atuação. É inimaginável não elogía-los, assim como o provocativo enfoque de mais um filme de ameaça terrorista, no qual nenhum dos lados tem total razão.





Avaliação MaDame Lumière




Título Original: Unthinkable
Origem: EUA
Gênero(s):
Drama, Suspense psicológico
Duração: 97 min
Diretor(a): Gregor Jordan
Roteirista(s):
Peter Woodward
Elenco: Samuel L Jackson, Michael Sheen, Carrie-Anne Moss, etc.

Um comentário:

  1. Oi Madame. Já havia ouvido falar algumas coisas sobre este filme, mas não sabia realmente sobre o que ele se tratava. Eu, corro um pouco desses filmes que falam sobre o terrorismo, 11 de setembro e derivados. Não sei, simplesmente não gosto. Mas este em especial me pareceu ser muito interessante, vou tentar vê-lo, sua crítica me convenceu.

    Até mais!
    Abs.

    PS: Eu vi "Atração Fatal", rs ... Por algum motivo a senhorita me lembrou a Alex Forrest, mais olha é bem vagamente tá ? hahahaha

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