Com produção executiva do influente de J.J. Abrams conhecido por Star Trek, Star Trek - Além da Escuridão e série Lost , Sentimentos ...




Com produção executiva do influente de J.J. Abrams conhecido por Star Trek, Star Trek - Além da Escuridão e série Lost, Sentimentos que curam (Infinitely Polar Bear) é o primeiro longa-metragem da roteirista Maya Forbes. Para sua estreia na batuta da direção, ela optou por uma história bem pessoal de sua família e realiza um drama com toques de humor ambientado em Cambridge. Quando era criança, Maya  vivenciou uma fase que seu pai, um maníaco-depressivo, teve um forte colapso. Além de ela e sua irmã conviverem com a bipolaridade dele e dificuldades como a falta de emprego, dinheiro e mudanças de escola, seus pais se separaram. Com o objetivo de buscar melhores condições de educação e qualidade de vida para as filhas, sua mãe foi morar em Nova York. Maya e sua irmã ficaram sob os cuidados do pai, recebendo a visita da mãe apenas aos finais de semana.







A história segue este argumento: filhas que são criadas pelo pai bipolar durante a ausência temporária da mãe. Cameron (Mark Ruffalo) é apresentado no meio de uma crise maníaca. Seu casamento com Maggie (Zoe Saldana) está por um triz. Ele precisa superar o colapso, ela está desempregada e precisa sustentar as filhas Amelia (Imogene Wolodarsky) e Faith (Ashley Aufderheide). Apesar do momento crítico da família, a energia entre eles é amorosa, incrivelmente de superação, de tomar algumas decisões difíceis  e deixar a vida acontecer. Nisto está o crédito que deve ser dado à Maya Forbes. Ela sentiu na pele este drama e opta por um texto leve e não estereotipado porque, verdadeiramente, ela aprendeu a conhecer um bipolar de verdade e, o melhor, sabe o valor do seu pai. Ainda que use algumas situações comuns do transtorno em nível mais severo de mania, como tomar atitudes embaraçosas em público ou perda temporária de um senso de realidade, situações que impactam o convívio com os outros, a roteirista  preza pelo afeto, pelo humor, pela honestidade na narrativa.





Muito mais do que um filme com elementos biográficos, Sentimentos que curam é um belo  exemplo de drama eficiente que abraça uma questão universal: aceitação de que somos quem somos, não importa quais transtornos mentais ou deficiências temos, todos merecemos ser aceitos e não subestimados em nossas capacidades intelectuais, físicas e afetivas. Não somos limitados por uma X ou Y doença. Não somos melhores ou piores do que outros, somos apenas seres humanos que têm talentos e, também, desafios pessoais em nossas personalidades,  temperamentos etc. Com a atuação  consistente de Mark Ruffalo, excelente ator em dramas mais realistas e independentes,  a bipolaridade é tratada com dignidade. As jovens atrizes e Zoe Saldana cooperam com atuações bem alinhadas ao ator e com o cotidiano de quem convive com um bipolar. Aqui, o mais positivo na relação da família é que ela não o trata como uma "vítima". A sinceridade existe nos diálogos.



Ainda que a diretora opte por equilibrar o humor com o drama e o lado mais obscuro da bipolaridade é pouco demonstrado, é possível observar as leves nuances comportamentais que se relacionam à alterância entre a mania e a depressão de Cameron. Mark Ruffalo é tão bem sucedido na interpretação, que ele não deixa o personagem cair no descrédito, reforçando que foi uma ótima escolha e um dos poucos em Hollywood que seriam realmente bons para este papel. ´É importante considerar que, mesmo que esta seja uma ficção baseada em fatos reais, a roteirista foi muito competente em fugir ao máximo do estereotipo do transtorno e não ridicularizar e/ou ofender quem é bipolar. A sociedade, em geral, usa o termo bipolar com irresponsabilidade, equívocos e falta de conhecimento sobre os diferentes graus de severidade da alteração de humor. Além de existir muito preconceito com a bipolaridade por pura ignorância.  O filme ajuda a compreender parte dos comportamentos de bipolares que têm mais episódios maníacos do que depressivos, também ajuda a perceber a sensibilidade e inteligência de Cameron.







Com uma narrativa agradável, o filme acerta em desenvolver um núcleo familiar e colocar Cameron em um convívio com as filhas que o ajuda a ter uma rotina e  a colocar mais e mais em prática sua missão como pai. Ela faz uma boa montagem, com recortes de imagens filmadas com câmera na mão  como se fossem vídeos caseiros de uma família e inclui cenas bem cotidianas desta convivência com tomadas internas no apartamento e com os novos amigos da filha. Também,  ao diluir no texto um desafio pessoal para Cameron sem que ele perca sua essência bipolar, que tem inúmeras qualidades e ótimos momentos afetivos no longa, Maya Forbes transmite ao público um dos melhores aprendizados do filme: Não há o que esconder! A bipolaridade é desafiadora e tem seus momentos dolorosos, mas, ela é gerenciável. Amigos e família aprendem o valor do verdadeiro Amor nestas circunstâncias, um Amor que tudo vence e tudo tolera, e são os sentimentos que curam que realmente importam.





Ficha técnica do filme ImDB Sentimentos que curam 
Distribuição: Imagem Filmes

Um filme, uma canção por MaDame Lumière: a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção ZAZ: umas das cantoras da nova ger...


Um filme, uma canção por MaDame Lumière:
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção



ZAZ: umas das cantoras da nova geração da música Francesa e 
destaque na trilha sonora de Belle e Sebastién

Preparei uma seleção especial de 10 músicas em Francês em 10 filmes para tocar o seu coração cinéfilo. Músicas que são como personagens. Conectadas com as emoções da história e, em grande parte, com o argumento e desdobramentos dos relacionamentos no filme, estas músicas  valem a pena tocar no seu celular, computador ou som e vão te levar ao universo dos filmes de língua ou referências Francesas.

Há músicas para todos os gostos. De cantoras icônicas como Edith Piaf e Juliette Gréco a nomes jovens da cena pop ou folk como Louane, ZAZ e Emilie Simon, além de trazer filmes de diretores que gostam de usar ótimas canções em seus longas como François Ozon  e Xavier Dolan.

A seleção  levou em conta considerar apenas músicas cantadas, com belas letras e  delicadas melodias que intensificam a carga emocional da história, além de priorizar filmes e cantoras francesas, com algumas exceções como Mommy (Canadá) e Educação (UK/USA).
Esta seleção está imperdível! Aproveite-a!

Abraços da MaDame




 Canção: Non, Je ne regrette rien por Edith Piaf








Uma Nova Amiga (2014), de François Ozon
Canção: Une femme avec toi por Nicole Croisille









As canções de Amor (2007), de Christophe Honoré
Canção: La Bastille pelo elenco

 








8 Mulheres (2002), de François Ozon
Canção: Toi, mon  Amour, mon amie por Virginie Ledoyen








Mommy (2014), de Xavier Dolan
Canção: On ne change pas, de Céline Dion 








 Belle e Sébastien (2013) , de Nicolas Vanier
Canção: L'oiseau, de ZAZ








 A Família Bélier (2014), de Eric Lartigau
Canção:  Je Vole, de Louane






A delicadeza do Amor (2011), de David e Stéphane Foenkinos
Canção: Mon Chevalier, de Emilie Simon





PAS son Genre (2014), de Lucas Belvaux
Canção: C'etait une histoire D'Amour por Emilie Dequenne








Educação (2009), de Lone Scherfig
Canção: Sous le ciel de Paris por Juliette Gréco


Por Cristiane Costa Depois de Amor e Ódio (2010), Rose Bosch realiza nova colaboração com Jean Reno em  Meu Verão na ...




Por Cristiane Costa



Depois de Amor e Ódio (2010), Rose Bosch realiza nova colaboração com Jean Reno em  Meu Verão na Provença (Avis de Mistral), uma comédia dramática sobre segunda chance, perdão e reconciliação familiar. Com uma atmosfera solar, ambientado em região provinciana da França, o longa  apresenta um elenco de diferentes gerações que resulta em uma boa conjunção de personagens para a agradabilidade da história.



Paul (Jean Reno) vive na Provença com sua esposa Irène (Ana Galiena). Dedicado à plantação de oliveiras e à labuta no campo, Paul costuma ser um homem turrão, assim como guarda uma mágoa e uma perda familiares que contribuíram para seu comportamento fechado. Quando seus netos Léa (Chloé Jouannet), Adrien ( Hugo Dessioux) e Théo (Lukas Pelissier) chegam à sua casa para passar férias, os conflitos surgem e a oportunidade de conhecê-los.





Meu Verão na Provença não inova no roteiro e nem na direção, embora apresente uma bela história e tem como brilho estelar o veterano  Jean Reno. A experiência com o longa é como receber uma visita deste carismático ator que agrega valor a qualquer projeto. Seu personagem  Paul possibilita reviver a nostalgia de vê-lo na Tela Grande com seus olhos  marcantes e dóceis e atitude protetora que tanto cativaram cinéfilos em "Léon, o profissional". Agora, ele é  um avô que precisa tirar a casca dura para conquistar os netos. Jean Reno realiza uma atuação minimalista, com tiradas cômicas e transita no personagem com um estilo rústico e autoritário que, aos poucos, mostra novas e boas nuances comportamentais que engrandecem o seu papel . Embora o roteiro o limite em todo o seu potencial de interpretação, o ator é a razão de ser do filme. Como exemplo, suas cenas com o gracioso e belo ator mirim Lukas Pelissier são adoráveis e carregam a poesia do relacionamento entre netos pequenos e avós.


Sempre é positivo pensar em como o Cinema é um campo fértil para conhecer variadas narrativas sobre família e seus problemas de relacionamentos. O Cinema ajuda a observar a tolerância com o outro e como um "livro não pode ser julgado pela capa", que o amor tira as correntes da prisão egoica e cura mágoas, que é possível ser otimista ao final da sessão e pensar em superar as crises familiares. Meu Verão na Provença é uma história que cativa pela chance de dar-se uma segunda chance. Tudo isso em uma cenografia bucólica que torna a atmosfera mais suave, solar, inspiradora.





O Cinema Francês apresenta boas histórias nas quais as pessoas saem de Paris e vão para o interior para encontrar a si mesmas ou, quem vive em regiões como a Provença, aprende a reconhecer o valor de seu estilo de vida e das conquistas no campo. No roteiro , também elaborado por Rose Bosch,   ela não esquece de referenciar a estes elementos na composição da narrativa. Ela  acerta em prover a uma geração mais jovem o convívio com os avós e com o campo, em trazer ao público a França que não é apenas o cartão postal da glamourosa Paris e as paisagens com lavandas que aparecem em propagandas de perfumes e folhetos de viagens. A França campesina  tem suas festas e tradições pictóricas, uma França mais simples nas quais os valores familiares são resgatados. Assim, a jovem geração tem a oportunidade de desvincular-se da loucura da metrópole e das implicâncias imaturas para ter contato com outras experiências geracionais e locais. Neste aspecto, este é um belo filme, revigorante como uma paisagem ensolarada de um verão inesquecível.







Ficha técnica do filme ImDB Meu Verão na Provença
Distribuição: Pandora Filmes

Por Cristiane Costa Quentin ( Nat Wolff ) e  Margo ( Cara Delevingne ) são vizinhos e amigos desde a infância. Quando chega a ép...





Por Cristiane Costa



Quentin (Nat Wolff) e  Margo (Cara Delevingne) são vizinhos e amigos desde a infância. Quando chega a época do colegial, eles não tem mais a mesma amizade próxima. Quentin ainda cultiva o mesmo amor platônico por ela, por mais que tente esquecê-la. Em certo dia, após uma noite pontual de aventuras com Margo, ela desaparece. Ele decide embarcar uma viagem para procurá-la, apoiado pelos seus grandes amigos Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith). Esta é a história de Cidades de Papel,  uma adaptação do livro Paper Towns de John Green, conhecido pelo sucesso do best-seller  "A Culpa é das estrelas".







A linguagem acessível e cativante de John Green, ao mesmo tempo, envolvente, profunda e capaz de se conectar com os jovens o tornou um fenômeno de tiragem de livros. Desta vez, a produção do filme (Marty Bowen e Wyck Godfrey, de "O Crepúsculo") repete a parceria de "A Culpa é das Estrelas" com os roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber. Eles têm experiência com narrativas cômicas e dramáticas com nuances românticas, tanto que escreveram os roteiros de "500 dias com ela" e "O Maravilhoso Agora". 


Dirigido por Jake Schreier ( "Frank e o Robô"), o longa oferece muito mais do que um mero blockbuster para um público  jovem. Acaba funcionando bem para todas as idades, é agradável e tem um grande mérito:  desconstrói expectativas românticas, ou seja, pessoas lidam com decepções que podem trazer mais benefícios para o amadurecimento do que ilusórios idealismos e pueris fantasias.  Parte disso se dá pela obra humanizada de John Green que reflete experiências comuns aos jovens. Aqui, ele evoca o rito de passagem da vida adolescente para a vida adulta, inclui novas experiências como uma viagem com um apelo de coragem, autoconhecimento e busca por um amor, além de ter uma trama mais elaborada que adiciona elementos misteriosos através de uma investigação feita por Quentin.  
 


Além de uma "feel good" cinematografia assinada por David Lanzenberg que capta a atmosfera da história assim como fez bem em "A incrível história de Idaline", o elenco jovem carismático é o carro-chefe, com destaque para Nat Wolff,  escolha bem acertada para o papel por ser um tipo de galã teen comum. Ele personifica o garoto estudioso, simpático e fofo, mas também, tímido e deslocado em suas dúvidas, inseguranças e temores. Na mesma linha da boa escalação de Ansel Elgort para "A Culpa é das estrelas", Nat Wolff se revela com um dos jovens e carismáticos atores. Como um ponto interessante, o roteiro inclui momentos bacanas entre amigos, amizade masculina que ainda é pouco explorada no Cinema, e oferece cenas de camaradagem e diversão, com destaque para Austin Abrams. As cenas entre eles em um ambiente escolar às vésperas da formatura são uma bela e nostálgica referência aos filmes de John Hughes






Margot é apresentada com uma eficiente atuação de Cara Delevingne por dois motivos: é uma personagem enigmática e de distanciamento, logo a sua escolha para o papel é compreensível. Ela não é carismática neste filme. A atriz a encarna com o "pé no chão", como uma moleca que ninguém pode controlar, uma jovem que não segue convenções sociais.  Embora  Margo mobilize ações de Quentin para dinamizar a história, ajude a compreender  o por que as coisas não precisam ser exatamente como desejadas,  ela é mais fria em cena, tanto que aparenta ter mais idade, ser um bicho solto no mundo que não mantém vínculos com quase ninguém.







Cidades de Papel é uma história honesta com o público em geral, principalmente com o jovem. Fica  melhor nos últimos 30 minutos quando se torna mais adulto, com o velho ciclo que se fecha para Quentin e o faz abrir-se à uma nova visão da vida. A ideia de que "é preciso se perder para se achar" é incrível, inspiracional, reflexiva e serve para todas as idades, além do conceito de "cidade de papel"  ser uma ideia genial na contação deste tipo de história.  Conceito que você poderá compreender melhor  no filme, caso não o saiba, pois faz parte da magia do Cinema descobrir esses detalhes especiais.








Ficha técnica do filme ImDB Cidades de Papel
Distribuição: Fox Film

Por Cristiane Costa  É sedutor quando um filme flerta com o público e orquestra uma combinação de gêneros cinematográficos, tons ...




Por Cristiane Costa 




É sedutor quando um filme flerta com o público e orquestra uma combinação de gêneros cinematográficos, tons obscuros nas personalidades de seus personagens e irreverência e bom humor que despertam o imaginário sobre as identidades sexuais. Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie), de François Ozon (de 8 Mulheres e Jovem Bela) mescla o melodrama com comédia e suspense psicológico e floresce com o despertar do desejo e da questão da identidade de gênero. Somos seduzidos a entrar no jogo de personas  do diretor, que também, assina o roteiro baseado de romance de Ruth Rendell. A escritora tem uma gama de obras instigantes e atraentes para o Cinema, entre as quais, Mulheres diabólicas  (1995) e Carne Trêmula (1997), respectivamente adaptadas pelos grandes diretores Claude Chabrol e Pedro Almodóvar. 




 
Após a morte de uma pessoa querida, a história começa a desenvolver uma relação afetiva que pode ser compreendida como uma grande amizade, assim como um contido desejo sexual e a descoberta de um amor que ultrapassa as diferenças de gêneros e identidades.  Laura (Isild Le Besco) é amiga  de Claire (Anäis Demoustier) desde a infância e vivenciaram momentos juntas como se fossem irmãs próximas. No início, o diretor recorre a uma apresentação desta amizade com flashbacks de como elas eram ligadas. Laura falece e deixa o marido  David (Romain Duris) com a filha pequena. Mesmo com um casamento tranquilo com Gilles (Raphäel Personnaz), Claire está apática e deslocada. Sente falta de Laura. Ainda sob o efeito da ausência da melhor amiga, Claire se aproxima de David para apoiá-lo nesta fase, e de alguma forma, manter este vínculo amigo com ele. Acaba descobrindo algo que não imaginava: David tem fascínio pelo universo feminino e ama vestir-se como uma mulher, tem prazer em se transformar em "Virgínia". A partir daí,  a narrativa evolui para um melodrama de identidades sexuais que confunde a relação de amizade, revela desejos ocultos, provoca  e brinca com a imaginação do público e oferece uma faceta honesta sobre a aceitação da diversidade e de novas configurações familiares.  





Em grande parte, Uma Nova Amiga seduz porque amplia para  a tela a obscuridade da complexidade humana, principalmente com relação à sexualidade. Todos queremos ser aceitos, sem hipocrisia, e em momentos de descobertas pessoais muito intimistas, ter coragem de expor que é, o que pensa e o que se deseja viver entra em choque com as convenções da sociedade e demais dificuldades que as pessoas têm para  se posicionarem a respeito de determinada questão de gênero e sexualidade. Ao abordar um recorte melodramático LGBT com foco em transgênero e com a personificação de uma homenagem ao feminino, o longa se transforma em um belo, amoroso e divertido filme sobre a Diversidade. Com bom efeito dramatúrgico, ele traz outros valores, o de como pessoas se aproximam a partir de uma perda e demonstram afetos,  como descobrem  novas formas de amar o outro, como amaram pessoas que tanto lhe inspiravam ou lhe eram queridas, como vencem as barreiras da tolerância através do amor, portanto, este filme aborda também a aceitação de si mesmo e do outro.





François Ozon  continua provocativo. Aqui, ele é perspicaz na proposta de direção ao manter o suspense na relação  de David e Claire, com estratégias de que tudo pode acontecer entre eles, da amizade ao sexo, de que há uma força misteriosa na tratativa da descoberta da identidade de gênero, de que os personagens confundem seus desejos e, mesmo que seja só na imaginação, se deixam seduzir por homens e mulheres. No entanto, ele trata o material com a leveza da comédia como contraponto, bem apoiado pela excepcional performance de Romain Duris, ator cômico, carismático e concentrado na personagem, e que dá um tom melodramático perfeito à sua "Virgínia". O longa tem mais delicadeza e humor do que uma pesada tensão, ainda que mantenha a obscuridade, mais comum à personagem de Claire, uma mulher estranha desde o início.





Com excelente atuação da revelação Anäis Demoustier que, por trás de seu rostinho de boa moça casada, dá a entender que Claire tem seus pensamentos pervertidos e desejos contidos e está entrando em um terreno da sexualidade que, até então, ela desconhecia, a atriz desempenha bem uma personagem que guarda o mistério da mulher dúbia, confusa, curiosa em uma encruzilhada de novas sensações. Assim,   o diretor brinca com o público e atiça a curiosidade sobre o que move estes  personagens em seus instintos mais obscuros: Claire já sentiu desejo sexual pela amiga Laura e está revivendo este desejo com sua amizade por David/ Virginia?  David/ Virginia é bissexual? Gilles  pensou em envolver sexualmente com um homem? Tudo é possível neste imaginário, porém, não se pode perder de vista que François Ozon apenas usa de referências ao travestismo e o desejo do Cinema de Almódovar e ao suspense de Hitchcock, seu filme é muito mais um melodrama com elementos cômicos que revisita seu tom provocativo, que nos entrega belos e sensíveis momentos e fica mais desejável com a bela trilha sonora de Philippe Rombi , que marca um dos momentos mais comoventes entre David/ Virgínia e Claire. 





Ficha técnica do filme ImDB Uma Nova Amiga
Distribuição : Imovision Filmes 
Estreia: 16 de Julho


Por Cristiane Costa A velhice é muito mais do que uma fase madura da vida, ela é uma conquista. Chegar a viver tantos anos não ...




Por Cristiane Costa


A velhice é muito mais do que uma fase madura da vida, ela é uma conquista. Chegar a viver tantos anos não é apenas ganhar  rugas, perder parte do vigor físico e aprender a conviver muito mais com a solidão, mas, ganhar sabedoria, compreender os bons e maus anos da experiência, buscar alguma redenção e ter o direito de desfrutar a velhice da melhor forma possível.  Embora os idosos não sejam bem tratados pela sociedade atual , e ainda, há uma cruel realidade de abandono de pais pela  família e até mesmo por muitos países em questões como aposentadoria e saúde, a velhice não é o fim da vida, a velhice é uma celebração da vivência de muitos ciclos de vida. Ter este olhar  de gratidão e respeito pelos anos vividos pelos idosos é essencial para entender o valor da vida, assim como alcançar a consciência  de que a velhice não é o começo da morte, que ela pode ter a vivacidade, a alegria e a paz que qualquer pessoa deseja.





No universo temático do envelhecimento, o Cinema recebeu um novo presente: o longa-metragem chinês de  Zhang Yang , O ciclo da vida. É um comovente e delicado drama com elementos cômicos que dá conta de várias situações que se tornam mais corriqueiras com a velhice, tais como: a relação distanciada , de rejeição ou mal resolvida entre pais e filhos, a solidão e o aprisionamento de idosos em casas de repousos, doenças e mortes, entre outras. 



Inicialmente ambientado em uma casa de repouso, o longa apresenta um simpático elenco de idosos, que variam na média entre 60 e 80 anos e conquistam pela naturalidade de suas atuações. Cada um à sua maneira são personagens reais que poderiam ser o avó ou avô de seu melhor amigo ou um familiar próximo. Todos têm um estilo muito pessoal, bem humorado e carismático, com destaque para os experientes Xu Huanshan e Wu Tianming. Essa autenticidade do elenco na representação da história cria um elo de empatia, e muito facilmente, o longa ativa uma relação franca entre eles  e o público. Assim, O ciclo da Vida é um belo retrato cinematográfico da velhice realizado com bastante honestidade. É um filme que tem ALMA.







A história começa com a entediante rotina de uma casa de repouso na China na qual os velhinhos são bem cuidados, mas não têm tanta liberdade de fazer o que desejam. Sua maior diversão é uma atividade lúdica que envolve um jogo. São enclausurados, e às vezes, recebem visitas  de familiares.  Até que um dia, um pequeno grupo decide fugir para realizar um sonho: participar de um show de variedades na TV. A partir daí, o longa se transforma em uma jornada de "road movie", vivaz e inspiradora, na qual os idosos reafirmam o entusiasmo pela vida e os seus sonhos de liberdade. 






Há o realismo e o poético na história, e isto faz enorme diferença para o seu efeito comovente. A velhice é tratada com dignidade. De cenas mais dramáticas, como um idoso que se sente triste ao ver suas fezes na cama e não ter percebido que tinha evacuado, até cenas divertidas, como uma viagem na estrada que resgata a alegria e a liberdade. A combinação da realidade vivida pelos velhinhos  alinhada ao olhar poético do diretor  e roteirista é de um singular equilíbrio narrativo. Como consequência, O Ciclo da vida reúne duas características importantes em sua realização e que o diferenciam como um bom longa para o atual Cinema Asiático :   Cinema independente com uma história e execução capazes de emocionar as massas. O roteiro  avança em algumas resoluções de maior carga emotiva que deixam claro que a intenção do diretor era tocar no coração das pessoas.



De uma maneira bem natural, famílias podem se identificar com o longa. Ele tem uma história universal, dirigida com um belíssimo trabalho de fotografia e com leveza e humor que abrem espaço para uma conexão mais genuína com o público. Ele aborda valores como a busca da felicidade, do perdão, do reencontro, da paz, mas também, não se distancia de  situações tristes como a doença e a morte que, inevitavelmente, cercam o envelhecimento. Somado a isso, todos nós temos entes queridos que envelheceram, que continuam envelhecendo e que vão envelhecer. Se a velhice tiver que chegar a cada um de nós, ela tem que chegar como uma bênção, como um ciclo a ser vivido bem, com alegria, gratidão e plenitude. Ninguém quer morrer preso a um cama de hospital ou depressivo em uma casa de repouso. O grande mérito do filme é que há o ideal de liberdade que independe de idade. Há o ideal de que a vida não termina com dias melancólicos, de que cada um tem o direito de escolher como deseja viver, de fechar o ciclo da vida como bem entende. 






 

Ficha técnica do filme ImDB O Ciclo da Vida 
Distribuição Esfera Filmes
Estreia: 16 de Julho

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