quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Diário de uma camareira (Journal de Une Femme de Chambre - 2015) , de Benoît Jacquot




Estreia nos Cinemas: 03 de Setembro



Por Cristiane Costa



A terceira adaptação Francesa para os Cinemas do romance "Le Journal d'une Femme de Chambre" (Diary of a Chambermaid/ Diário de uma criada de quarto) de Octave Mirbeau chegou aos Cinemas Brasileiros hoje após passar pelo Festival Varilux de Cinema Francês em Junho desse ano. Desta vez, quem assumiu a batuta de mais um remake foi Benôit Jacquot, conhecido pela direção de personagens femininas nos últimos trabalhos como "3 Corações" e "Adeus, minha rainha". A primeira adaptação foi dirigida por Jean Renoir em 1946 e a segunda por Luis Buñuel em 1964. O filme de Jacquot é diferente de seus antecessores, fato que o motivou a realizar sua interpretação pessoal e crítica sobre a obra. A história acompanha um olhar contemporâneo que serve para analisar a dissimulada sociedade que, segundo o diretor, continua com os mesmos problemas tratados no clássico, entre os quais, "escravidão assalariada, antissemitismo e a discriminação sexual".








A história é ambientada no final do século XX, Celéstine (Léa Seydoux) é uma camareira jovem, discreta, bela e atraente,  contratada para prestar serviços a algumas famílias burguesas no decorrer de sua experiência. Decidida a deixar Paris e respirar novos ares, ela parte para uma região Provinciana da França para trabalhar para o Sr. e a Sra. Lanlaire (Hervé Pierre e Clotilde Mollet), que seguem, respectivamente, os arquétipos do patrão que assedia e se envolve sexualmente com as empregadas e da patroa rigorosa e controladora que se comporta como uma mulher medíocre e infeliz. Além dos Lanlaires, Celéstine conhece Joseph (Vincent Lindon), que trabalha para a família há longos anos em um cargo de confiança com atribuições de jardineiro e caseiro.











Essa é uma obra de natureza crítica em sua essência literária, portanto, Jacquot , que assina o roteiro com Hélène Zimmer, narra a história com o ponto de vista de Celéstine, a principal personagem e a responsável por assegurar um pouco de densidade psicológica em virtude dos personagens coadjuvantes pouco desenvolvidos. É através dos olhos dela que o espectador tem acesso às denúncias sociais e pode analisar como funciona a relação da burguesia com os empregados, a dissimulação nas atitudes mesquinhas e hipócritas dos Lanlaire, o racismo, a violência, o sadismo  e o plano ambicioso e vingativo de Joseph.  Ainda que Celéstine não seja uma donzela e seja tratada como uma prostituta do lar ou uma potencial meretriz de bordel em determinadas cenas, a delicadeza que há no longa vem exatamente da beleza  de Léa Seydoux, sua maturidade, naturalidade e frescor na atuação. Celéstine conserva sua postura obediente,  submissa e leal e é articulada para lidar com situações humilhantes, entretanto, sua personalidade tem esperteza, comicidade e rebeldia que, a qualquer momento, poderá fazê-la mudar de condição e virar o jogo, mesmo que não tenha opções dignas de ascensão social.  Por conta disso, o longa tem um leve toque de suspense, principalmente na relação entre ela e o misterioso infame Joseph.







A direção se apropria de determinados recursos narrativos para ampliar o campo de visão sobre a realidade profissional de uma camareira e de como ela circula nessa sociedade. Para isso,  muda o tempo e espaço com o uso de flashbacks e adiciona a relação de Celéstine com uma agenciadora de empregos, com vizinhos da região e com outra família ao cuidar de um jovem doente, Georges, neto da Senhora Mendelssohn. Com isso, o roteiro não mostra só a podridão moral nas relações de trabalho e sociais em geral, mas também, que existem bons momentos, os das denúncias escancaradas e, em especial,  os de afeto mesmo em uma sociedade que não costuma demonstrar amor e na qual os românticos sofrem as mazelas da doença e da morte. Assim, o fôlego narrativo foi combinar cenas de drama, suspense e comédia. Mesmo com essas estratégias, o filme tem problemas de execução e roteiro, entre os quais, ritmo lento, falta de desenvolvimento do personagem Joseph e de situações mais dinâmicas e de virada que apreendam a atenção do público e promovam um envolvimento emocional maior com essa realidade.






Em teoria, "Diário de uma camareira" tem uma proposta sócio-política rica e de variadas nuances psicológicas e comportamentais, mas não é bem executada em seu potencial. Léa Seydoux reina isolada em cena e não há um forte personagem coadjuvante para interagir com ela, logo, resta ao espectador entrar no seu mundo e desfrutar o que só ela tem a oferecer. Observar o drama de uma mulher que, ou é uma escrava assalariada, ou tem que estabelecer aliança com um homem ainda desconhecido para mudar sua vida. Ambas as situações ainda a colocam em uma posição de subserviência, além do mais, a mulher em sua posição é vista descaradamente como um objeto sexual  pela sociedade da época. O diretor explora pequenas cenas para expor essas críticas, como por exemplo, quando Celéstine é convidada para ser prostituta e é assediada por seu patrão;  quando não tem a liberdade de comer o que deseja sob o risco de ser descoberta e é humilhada pela Sra. Lanlaire;  quando não sabe quais são as reais intenções de Joseph e se, de fato, existe a possibilidade de amar e ser amada por ele. 







Assim sendo, as situações não são bem aproveitadas no todo e em uma coesão contínua de  vitais acontecimentos e  desdobramentos de impacto. Isso se dá também porque Vincent Lindon tem um personagem bastante ponderado na ação, um homem que nada faz em boa parte da história, é um repugnante antissemita, tem um comportamento violento, apenas observa e trama o seu plano por debaixo dos panos. Os momentos mais promissores e menos entediantes entre personagens se dão quando Celéstine e Joseph estabelecem uma comunicação entre olhares e pequenos gestos que dão a entender que há uma forte química sexual entre eles, uma promissora cumplicidade e história de amor ou um voto de confiança entre amigos já que ambos estão na condição de empregados. Eles têm uma relação estranha, um misto de atração e repulsa que deveria ter sido melhor explorada em picos climáticos ao longo da narrativa. O desfecho brusco só vem a evidenciar mais uma lacuna, a de uma finalização que pudesse combinar com um melhor e mais envolvente clímax. Ainda assim, o filme é um baita tapa na cara da hipócrita burguesia provinciana.






Ficha técnica do filme ImDB Diário de uma camareira
Distribuição : Mares Filmes

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