domingo, 6 de setembro de 2015

It's Only Make Believe (Eventyrland - 2013), de Arild Østin Ommundsen




Por Cristiane Costa 


Qualquer recomeço é um desafio. Exige autoconfiança e determinação. Requer deixar os erros e decepções passadas para construir uma nova vida ao lado de quem se ama.  E quando o recomeço é de uma mulher que cometeu um crime durante a juventude e, após cumprir pena, tem que se reintegrar à sociedade, criar sua única filha e se livrar dos criminosos que não a deixam em paz? Essa é a história de  It's only make you believe (EVENTYRLAND,2013), filme Norueguês do polivalente Arild Østin Ommundsen, que realiza vários aspectos da produção, inclusive o roteiro e a Direção de Fotografia, além de dirigir sua esposa Silje Salomonsen e sua filha Iben Østin Hjelle,  o que confere ao longa uma característica bastante pessoal e independente. 





Personagens Jenny e Frank. Um crime. 
Uma vida a dois interrompida.



Jenny (Salomonsen) é uma daquelas jovens apaixonadas que se envolvem em más companhias nas quais ela acreditou como reais amizades, fato muito comum em casos de mulheres que cometem crimes e vivenciam uma detenção. Ao estar na hora e lugares errados, envolve-se em um homicídio de danos trágicos para a sua vida. Além de permanecer na prisão por 10 anos, ela tinha planos de casamento com o namorado Frank (Fredrik S. Hana), estava grávida e na flor da idade. Em uma realista retomada do cotidiano fora da cadeia, ela não tem muito dinheiro, amigos e nem família para apoiá-la, o que torna mais desafiadora a sua condição de oferecer um lar decente para a filha Merete (Østin Hjelle), e ainda, dividi-la com uma mãe adotiva com situação financeira estável. Assim, essa história não é apenas sobre sair da prisão e enfrentar as hostilidades, mas também, o desejo de reassumir o papel de mãe e recuperar o tempo perdido que esteve longe da filha. 


Como nem tudo é perfeito para quem se envolveu com crimes, principalmente, em uma cidade pequena na qual os traficantes são como donos do pedaço, conhecem a população, sabem onde as pessoas moram e exercem uma visceral violência física comumente retratada no Cinema Escandinavo, aqui não é diferente. Quando ela se estabelece em sua nova e humilde moradia em Stavanger (Noruega), ela só pensa em encontrar a paz, porém, pagar a dívida da sentença judicial  não foi suficiente. Há um outro tipo de sistema fora da prisão, o dos traficantes. Ela está em dívida e na mira dos criminosos. Perseguida, chantageada e agredida, Jenny precisa de uma rota de fuga, uma saída.



Silje Salomonsen e Iben Østin Hjelle
Esposa e filha do diretor . Elenco familiar e em sintonia.



 O longa tem um bom argumento que dá espaço para desenvolver uma dramática via crucis na vida de Jenny, no entanto, perde muito de seu potencial ao ter um roteiro que nunca é levado muito à sério. Isso ocorre em virtude de que o risco de Jenny perder a vida não é retratado de uma maneira verossímil e, muito menos, cada um dos personagens criminosos. Mesmo quando ela sofre uma violência bruta, existe uma leveza de como essa violência é catalisada no conflito e ela não é inteiramente aproveitada como fio condutor de desdobramentos narrativos impactantes e realistas; em outras palavras, os vilões são pessoas rudes que nunca convencem, dessa forma, o longa parece mais uma fábula do que uma cruel realidade e tem um brando tom de humor  em determinadas situações dramáticas. O resultado da execução não chega a ser pobre, porém,  em comparação a outros longas noruegueses, perde parte da sua capacidade de mostrar uma história verdadeira, particularmente, quando o longa  cede espaço para a perseguição à Jenny . Se algumas cenas fossem realmente verossímeis, não aconteceriam da forma como o diretor e roteirista optou.



A direção de fotografia é o destaque. 



Por outro lado, ainda que o roteiro deixe de desenvolver melhor a jornada de Jenny, sua relação com a filha, um possível relacionamento com Gary (Tomas Alf Larsen) e a interação com os traficantes, essa é uma bonita história sobre uma mãe que tenta sobreviver fora da prisão. Suas cenas com Merete são os momentos visuais mais solares, líricos e inspiradores, apoiadas por uma excelente DOP que tem um olhar poético para a Fotografia e  soube conciliar a importância da luz natural e dos movimentos de câmera intimistas. Sob a perspectiva da relação entre a interpretação dos atores e o significado das cenas para a compreensão da história, as cenas entre mãe e filha guardam em si uma proximidade e um estranhamento, bem pertinente para expor o recomeço na relação mãe e filha. A jovem atriz Iben Østin Hjelle é pouco exigida no texto, no entanto, tem uma participação dócil em cena, estando aberta a receber o carinho da mãe.




Também, no plano afetivo, suas interações com o amigo Ådne (Vegar Hoel) são boas pois resgatam questões como confiança, perdão e redenção de uma forma não romantizada. Sendo ele um dos "bad guys" da região, a atuação de Vegar Hoel agrega valor ao drama ao retratar que a amizade deles é cercada de ambiguidades e que, a qualquer momento, ele pode não ser confiável o bastante. Assim sendo,  nesses melhores momentos, existe espaço reflexivo para que o público se coloque no lugar dela e imagine seus sentimentos, dúvidas, impasses, atitudes etc. 




Jenny Vampira? Não, apenas uma mãe tentando sobreviver!



Como o bom Cinema Escandinavo, a naturalidade na construção das cenas e as atuações viscerais propiciam uma experiência mais espontânea e humanizada com os conflitos individuais e com o contexto social abordado. Silje Salomonsen  realiza uma atuação equilibrada entre a frieza, a racionalidade e a coragem de seu personagem, mas também, apresenta-se como uma mãe vulnerável que está vivenciando um momento de insegurança muito maior do que cuidar de um lar e de uma filha, está lidando com a insegurança de ver a vida de Merete sob risco. Lamentavelmente, o roteiro não soube aproveitar esses ganchos para explorar e corroborar um drama potencialmente contundente.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière