sábado, 11 de abril de 2015

É tudo Verdade 2015 : Últimas Conversas (Last Conversations) - 2015



Acompanhe uma seleção de documentários no MaDame Lumière




O último filme do Mestre Eduardo Coutinho é destaque 
no 20º Festival É tudo Verdade e faz parte da sessão de abertura. 
Imperdível!


Por Cristiane Costa


Se há uma virtude que Eduardo Coutinho tinha e nos deixou como um dos legados de sua Arte documental é a sua honestidade com o público e com seus entrevistados, mesmo que sua sinceridade seja acompanhada com um humor enviesado por desabafos emocionais honestos demais. Em seu último filme, Últimas conversas (Last Conversations, 2015), não é diferente. Ele entrevista jovens estudantes cariocas e, no primeiro plano, evidencia as dificuldades e desafios de entrevistar adolescentes e como seria bom fazer um documentário com crianças. 

Com essa honesta abertura, resta a inicial reflexão : o bom documentarista é um curioso investigador mas também uma pessoa sincera com o que sente a respeito do seu trabalho. O gênero documentário exige essa autenticidade, essa honestidade. Eduardo Coutinho não esconde o mal estar em algumas palavras do filme, e o que poderia ser negativo para o público, acaba criando uma conexão com ele, afinal, se estamos assistindo a um documentário, por que não perceber o estado de espírito do documentador? Conforme diz o produtor João Moreira Salles sobre essa última obra: "2013 foi difícil para Coutinho. Sua saúde estava frágil e ele se dizia desconectado da vida. Era com esse estado de espírito que chegava ao estúdio para o encontro com aqueles jovens do ensino médio."  Com entrevistas descontraídas, Eduardo Coutinho se conecta com essas personagens cotidianas, ainda que ele não negue que entrevistar adolescentes é complicado. Ele realmente não esconde seu estado de espírito.




Últimas conversas é um olhar sobre a juventude Brasileira. É a carioca por conta da origem dos entrevistados, porém são jovens que poderiam ser de qualquer lugar do país.  A maioria é de origem humilde, boa parte de jovens negros e de lares com pais separados, alguns tendo sido criados por avós ou por somente um dos pais. Falam de estudos, sonhos, preconceitos, família, mágoas, alegrias. Soltam as ditas "pérolas" e fazem a gente rir, assim como Eduardo Coutinho, cuja sinceridade contribui para o riso da plateia. Porém, por trás do riso, há uma seriedade inevitável nessas vidas: a adolescência é uma fase infernal, uma fase na qual os jovens entram em crises, não sabem exatamente o que são e o que querem, começam a ir à terapia e ao psiquiatra, escrevem sobre sentimentos em poesias e textos, sofrem bullying e outros tipos de abusos. Enfim, mostra que todos nós já fomos adolescentes e ela traz um certo desconforto e uma inadaptabilidade à essa vida. Quem nunca se sentiu um patinho feio ou entendiado durante e mesmo após a adolescência?  É um processo natural e, por incrível que pareça, o documentário acaba sendo universal pois essa inadaptação ao mundo é comum em várias idades, origens e contextos.  





O filme é singelo e objetivo em seus 85 minutos de duração. É mais divertido do que triste quando observada a naturalidade dos jovens ao contar de suas vidas. Por outro lado, o drama é evidente, principalmente o social, o familiar. São jovens de lares desestruturados que, em algum momento sentiram a falta de seus pais ou não puderam estabelecer um bom relacionamento com um deles, dessa forma, sofrem dessa ausência. Também têm falta de fé ou  apresentam mecanismos de autopreservação como o "se dar bem", a  arrogância como rota de fuga para inseguranças e a falsa autoconfiança, comportamentos tão comuns em adolescentes. No geral, essa é a realidade apresentada e, portanto, entre jovens que contam quem são como também demonstram que ainda são imaturos devido à pouca idade, o filme mostra que há toda uma vida pela frente e eles têm muito a aprender.

O que interessa muito no documentário é como os relatos resultam em uma não ficção do jovem Brasileiro e o seu futuro. Embora haja um esvaziamento natural no pensamento de muitos jovens, que ainda estão se conhecendo e perdidos, eles ainda são pessoas com histórias e com sonhos. Pessoas que vão viver mais, amadurecer com a experiência e que podem ser felizes e inspirar a outras pessoas. Tudo é possível, ainda que o cenário atual não seja bom, ainda que não haja caminhos fáceis para quem nasceu e continua pobre no Brasil. O material investigativo do documentário não maqueia a  triste realidade, ela está ali, mesmo quando os jovens se calam, agem como tolos ou não têm nada de interessante para dizer, cada um traz uma diversidade em suas histórias. Essa variedade de experiências retrata sempre um aspecto pessoal e/ou social relevante.






Aparentemente, o futuro não é tão otimista pelos relatos, mas Eduardo Coutinho e o coeso trabalho da  montadora Jordana Berg formam uma dupla perfeita e sincera. No tocante desfecho final, com um elemento surpresa que ilumina o documentário, Últimas conversas encerra a herança de Eduardo Coutinho com vida, doçura e esperança, afinal ser um documentarista é trazer esses personagens reais ao Cinema,  revelar a espontaneidade das pessoas, trazer vidas (e Vida) à tela.  Ele mesmo disse: "Os meus filmes vieram ao mundo num lar feliz". E assim, foi o seu adeus.





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