segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy) - 2009



O Garoto de Liverpool
narra a vida adolescente do Beatle boy John Lennon (Aaron Johnson) em uma cinebiografa que prima por uma ótima direção de arte, nostálgica trilha sonora de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Screamin' Jay Hawkins e primorosas atuações coadjuvantes de Anne Marie Duff e Kristin Scott Thomas, respectivamente nos papéis de Julia e Mimi, mãe e tia do saudoso astro. À primeira vista, nem a beleza juvenil do estiloso Aaron Johnson sustenta a qualidade biográfica da película, embora é evidente o seu esforço em expor a rebeldia teen e a experiência desajustada e mal resolvida que John Lennon teve com a mãe, que o abandonou quando ele era criança. John acabou sendo educado pela tia Mimi, uma mulher austera que também o amou e soube incentivá-lo no início da carreira ao comprar sua primeira guitarra.






Ao assistir o longa
, somos mais projetados a vivenciar a emoção do drama adolescente de John Lennon. Ele é um garoto talentoso, porém é um jovem de carências maternas e sem as respostas que a juventude requer quando o cerne familiar é desestruturado. Ao ser criado por uma tia que tem dificuldades de expressar sentimentos, John Lennon encontra na confusa mãe uma oportunidade de recuperar o tempo perdido. Julia tem uma alegria de viver que encontra ressonância em momentos silenciosos, deprimentes, e ela tem outra família. O filme projeta valiosas cenas que John e Julia interagem como se tivessem um relacionamento de amigos e de amantes, e muito pouco de mãe e filho exatamente para enfatizar que há um estranhamento na relação que dá abertura à uma interpretação incestuosa, fazendo côro aos boatos de que John tinha uma atração sexual por sua mãe. No entanto, ao transcorrer do roteiro, fica claro que com ou sem Complexo de Édipo, John Lennon foi um mito que sofreu como um homem comum. Sob este aspecto o filme é um humanista entretenimento pois o 'garoto de lugar algum' pode ser um garoto qualquer com traumas familiares que demonstram que até os deuses do Rock N'roll são vulneráveis como infelizes mortais.







Muito do êxito da película é a atuação de
Anne Marie Duff que ganhou várias premiações por este trabalho, incluíndo o embate imperdível entre ela e Kristin Scott Thomas que interpretam irmãs com mágoas que não foram perdoadas. Ambas estão muito bem, mas a atuação de Anne Marie é magnífica porque ela incorpora uma mãe culpada e uma mulher flertante. Há uma voluptuosidade bem marcante em seu comportamento como se ela fosse a qualquer momento seduzir John e levá-lo para a cama, porém há uma instabilidade na qual ela se fecha para o mundo, saí de si mesma para ancorar-se no silêncio de sua casa. Sem dúvidas, é um papel bem peculiar que colabora para as demais atuações do elenco, inclusive do próprio Aaron Johnson que, ao lado de Anne Marie, é desafiado a expor o seu drama de filho, entre a atração por uma mãe ausente que insiste em escapar-lhe nos momentos que ele mais precisa dela. A película também conta com Thomas Brodie Sangster como o jovem Paul McCartney em aparições curtas porém com ótima presença musical em cena, demonstrando que Paul já era um Beatles boy prodígio, grande compositor e canhoto.





Como amplamente divulgado pela mídia, a diretora
Sam Taylor Wood no auge da sua idade de loba adotou o novilho Aaron Johnson como seu marido. Independente da relação do casal, Sam Taylor soube aproveitar muito bem o visual do ator como se estivesse fazendo uma ode à beleza de seu amor; de belos close-ups a inspiradores topetes e figurinos, Aaron tem estilo britânico e transpira a Liverpool pré-aquecida pelo rock n' roll. Em um das mais poéticas cenas, Aaron tem seu rosto enfocado por uma idílica fotografia enquanto a fumaça do cigarro flutua no ar, em outra cena mais quente, ele transa com a urgência adolescente cheia de tesão, por conta de exemplos visuais como estes e como eles são filmados, o background da cineasta que, antes de estrear na direção, já trabalhava como artista plástica foi de grande valia. Ela homenageou a atmosfera da cool Liverpool e tirou proveito da direção de arte, elenco, fotografia , e principalmente da trilha sonora que nos presenteia com cenas imperdíveis como I put a spell on you, clássico sedutor de Screamin' Jay Hawkins e In Spite of all the danger, do Quarrymen, banda fundada nos anos 50 por Lennon durante seu período no colégio . Para os mais exigentes e que esperam uma super cinebiografia de John Lennon, este não é o filme. O Garoto de Liverpool é uma narrativa da adolescência de John, é pura e simplesmente um recorte contemplativo de sua biografia. Em uma primeira impressão, é possível concluir que John Lennon merecia um filme melhor, porém ao analisar um pouco mais profundamente a proposta argumentativa, a película descontrói o forte mito musical, aproxima-o de sua frágil essência de adolescente, a de um garoto com todo o potencial para o sucesso, amado por gerações e gerações e que sofreu afetivamente com prematuras ausências e perdas.


Para ouvir a trilha sonora de Nowhere Boy,
visite o Cinema Musique




Avaliação MaDame Lumière





Título original:
Nowhere Boy
Origem: UK, Canada
Gênero: Drama, Cinebiografia
Duração: 98 min
Diretor(a): Sam Taylor Wood
Roteirista(s): Matt Greenhalgh
Elenco: Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas, Anne Marie Duff

4 comentários:

  1. Amém! Madame voltou!!!!!
    Já estava na hora, hein...

    Madame, não sou muito fã de Lennon, mas adoro cinebiografias e ainda por cima a atriz Kristin Scott Thomas, ou seja, TENHO QUE VER!

    Abs madame!

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  2. Quero muito assistir este filme. E esse Aaron Johnson é muito charmoso, hein? rsrsrs.

    Beijos! ;)

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  3. Darling,

    você ganhou um selo de seu curador. Rs! Depois vai buscar HE HE!

    Preciso muito ver este filme. Não acredito que é com o Kick-Ass Aaron Johnson?! Rs!

    Beijos
    Rodrigo

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  4. Quero muito assistir a este filme. Parece ser bem legal!

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