"Só o que tenho para você é uma palavra: Tenet. Vai abrir as portas certas; e algumas das erradas também. Use com cuidado" Lança...

 



"Só o que tenho para você é uma palavra: Tenet. Vai abrir as portas certas; e algumas das erradas também. Use com cuidado"




Lançamento do diretor Christopher Nolan chega aos Cinemas do Brasil

#Tenet #WarnerBrosPictures



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Christopher Nolan é cineasta consagrado de grandes ficções como Memento, A Origem, Interstellar, Batman - O cavaleiro das trevas, Dunkirk  que não se cansa de tirar suas ideias da gaveta e surpreender. Alguns dirão que ele é egocêntrico, outros que ele "viaja" no sci-fi, na ação e no tempo, mais alguns que ele é obcecado por grandiosas ideias de complexa execução, outros mais dirão que não conseguem entender seus filmes. Apesar de todas as distintas opiniões, de fato, ele é um cineasta genial que, a cada trabalho,  deseja trazer uma nova perspectiva sobre a relação tempo, espaço e gênero cinematográfico.







Tenet, lançado oficialmente  no Brasil em  29 de Outubro, uma imperdível produção de Christophan Nolan, Emma Thomas (sua esposa) e o produtor executivo Thomas Hayslip







Em Tenet (2020), lançamento que combina ficção científica com thriller de ação internacional, o diretor avança em paixões que lhe são preciosas como o tempo, a ética acerca das motivações e escolhas dos personagens e o clássico filme de espionagem, desse modo, o roteiro tem como força motriz colocá-los em situações no qual, a depender do contexto e das decisões pessoais e em equipe, o tempo atua de forma ativa e dinâmica como janelas temporais que trazem desdobramentos, positivos ou negativos, para a humanidade.








Locações em 7 países: Estônia, Itália, Reino Unido, Índia, Dinamarca, Noruega e Estados Unidos. O cineasta é apaixonado por filmes de espionagem internacional.







Com essa física do tempo aplicada aos conflitos humanos e um suspense de ação com locações em 7 países, Christophan Nolan reúne um atrativo elenco, com uma visão de artista e de homem de negócios, assim, conciliando o Cinema Blockbuster e o Cinema de gênero em uma mesma produção. Com essa estratégia,  ele alcança o equilíbrio de produzir um filme com sua competência investigativa sobre a temporalidade no Cinema, agregando o componente de atrair o público em massa.  Lembrando que o Cinema, na sua natureza mais essencial, é esculpir o tempo e o espaço na narrativa.







No elenco, o protagonista é John David Washington, excelente ator negro que, aqui, tem a oportunidade de atuar como figura central da trama. É ele que orquestra ações e toma decisões relevantes. Analisa o jogo no thriller e a relação do tempo x ação, realiza as pontes comunicacionais com outros personagens importantes como o parceiro Neil (Robert Pattinson),  a esposa do vilão, Kat (Elizabeth Debicki), e o antagonista,  Sathor (Kenneth Branagh). 









“John David é uma pessoa de tremendo calor e generosidade”, diz Nolan, “mas aqui trata-se do que ele pode fazer como ator, a sua versatilidade, força e o quanto ele pode canalizar tudo isso em sua performance. " (Nolan sobre o maravilhoso Washington)




Nesse ponto, o cineasta escala um elenco com profissionais com os quais ele já trabalha como Michael Caine e Kenneth Branagh, e inclui outros já estabilizados ou emergentes que, certamente, podem ser apreciados pelo público como Pattinson e Washington. Lembrando que ter um ator negro em uma Hollywood tão racista, e um ator que começou com Crepúsculo e conseguiu crescer no cinema fora do mainstream são pontos favoráveis, visionários e inclusivos do diretor e equipe. Essas duas escolhas no elenco são uma das melhores coisas que podia ter acontecido ao filme.


"Ele é um contador de histórias dinâmico e cinematográfico na forma como ele combina todos esses conceitos elevados e constrói esses mundos únicos. Você é cativado pelo que vê, seja a ação, os elementos de thriller cerebral, a trilha sonora... Mas no centro estão as conexões humanas e a maneira como ele é capaz de explorar a condição humana, nossa necessidade de companheirismo e as diferentes emoções pelas quais passamos. São sempre os personagens que mais me cativam”, diz  Washington.












No argumento,  o cineasta traz todas as características de um filme de espionagem. Há o protagonista, a equipe, a mulher , o vilão, e a força militar ou de ação. Bombas e armas. Ética da guerra e do conflito. A humanidade pode ser exterminada.  E qual é a diferença? A execução a la Nolan. E é esse aspecto que o cineasta, mais uma vez, foge do lugar comum, colocando a serviço do público, suas convicções, ideias, paixões pelo tempo e pela sua própria Cinefilia, que aprecia filmes 007 e ficção científica e nunca negou isso. Ele assume o risco novamente, inclusive o de ser criticado por criar uma narrativa fora da bolha, dessa vez, seguindo a lógica da inversão, recorrendo a alguns estudos da lei de entropia.


"Todas as leis da física são simétricas — elas podem ir para frente ou para trás no tempo e serem as mesmas, exceto para a entropia”, explica Nolan. “A teoria é que se você pudesse inverter o fluxo de entropia para um objeto, você poderia reverter o fluxo de tempo para esse objeto, de modo que a história do filme é fundamentada nos conceitos da física." 







E se a manipulação da narrativa com  suas pessoas, ações e objetos é importante para compor os planos e todas as sequências baseados na lei da entropia, é exatamente o que o cineasta faz. Ele utiliza o gênero ação e thriller de espiões para utilizar a entropia materializada na inversão de fluxo de tempo no desenvolvimento da narrativa. Dessa maneira, armas de fogo, balas, lutas, entre outros, são influenciadas pelo tempo e pelas tomadas de decisão humanas. 









Como se diz em inglês, realmente há uma sensação de "blow mind" na experiência com o longa, afinal, é difícil compreender essa lógica, porém, quando analisadas as relações entre tempo e interações entre sujeitos e o ambiente, ou seja, o que sentem, pensam, hesitam, fazem, fica mais fácil relacionar que, a todo o momento, não controlamos o tempo como queremos, que ele é muito mais poderoso do que imaginamos.






Pertencente a uma ultra secreta organização, Tenet, o espião Protagonista também tem essa arma Tenet. Uma metáfora, um conceito bélico, apenas uma palavra dona do seu tempo? Pode ser o que o espectador quiser. O sentido é múltiplo, as experiências, também. Como toda arma, há consequências. Desse modo, Tenet traz o estranhamento (e a instigante reflexão) de que, dependendo do que se faça no tempo-espaço, em algum outro ponto dessas variáveis,  intervenções geram perdas ou ganhos. São escolhas que, a todo o momento, o sujeito precisa pensar a respeito, então porque não criar um fluxo reverso do tempo para ver no que vai dar? Como aponta o ator Washington, "O filme desafia nossas formas tradicionais de interpretar o tempo, o que percebemos como sendo real, os comportamentos que aprendemos. Há muito mais acontecendo".













No decorrer da narrativa, o Protagonista tem que evitar a destruição do mundo. Entretanto, esse é apenas um pano de fundo para Nolan expor a dinâmica dos conflitos e relações temporais e subjetivas dos personagens. O triângulo Kat - Protagonista e Sathor, embora seja dramaturgicamente o núcleo mais frágil e previsível e poderia ter sido melhor trabalhado, traz o elemento das paixões e desafetos humanos e bebe da fonte da tradição dos filmes de espionagem. Kat é a mulher presa em um relacionamento abusivo e que sofre chantagens e ameaças do marido; Protagonista traz a figura do heroísmo e do sacrifício; Sathor é o antagonista bastante egoico e perverso para o qual só existe a destruição e da guerra.


"A natureza em camadas da história é um quebra-cabeça preso dentro de um enigma que, do meu ponto de vista, é claro, começa com Sator. Ele é implacável, egocêntrico e tem também essa característica mais perigosa em um personagem como este: ele tem muita energia e é capaz de fazer o que for necessário, ou seja, é alguém que todos precisamos temer. Esse tipo de amoralidade é verdadeiramente aterrorizante em uma pessoa inteligente, capaz de tamanha imprudência, e é sua ousadia temerária que coloca todos os outros personagens e nosso mundo em risco”, diz Branagh."








Se Christopher Nolan optasse por um filme de espionagem comum, ele não seria Nolan. Era necessário, até como provocação do artista e do pesquisador por trás do diretor, uma motivação a mais: desafiar o tempo cronológico, subvertendo essa entediante linearidade. Se o tempo é um elemento cuja percepção  muda de sujeito para sujeito, então ele é também subjetivo, baseado em caminhos e insights a seguir.  Nesse sentido, Tenet se insere em um ambiente de guerra, cujas decisões são permeadas pelas subjetividades e também por um senso de coletivo. É nesse coletivo que opera O Protagonista, Neil e Kat. Na atuação, Washington e Pattinson realizam um excelente trabalho em equipe.


"Eu imediatamente me interessei pela relação de Neil com o personagem de John David”. Ele é um amigo ou inimigo? Como você decide quando confiar em alguém e quando ser cético? Como sabe se seus instintos são confiáveis? São assuntos complicados no mundo como o conhecemos, mas gostei de ver o quão exponencialmente mais complicadas essas questões podem se tornar quando as regras da realidade conhecida são alteradas e invertidas. Como o lado humano das coisas é transformado ou fortalecido quando o que se sabe de certos personagens é apagado? Neil opera com uma combinação de especialização, experiência e instinto." relata Pattinson.












Christopher Nolan, reconhecido por usar muito bem o desenho e edição de som e optar por trilhas sonoras que se fundem ao êxtase imagético, consegue mostrar aqui que, realmente na sua complexidade discursiva, o filme depende integralmente de uma competência técnica que ele já tem com ótimos profissionais, em especial, no roteiro, direção, fotografia  (Hoyte Van Hoytema), montagem (Jennifer Lame) e trilha sonora (Ludwig Göransson). As cenas de ações, que exigiram um excepcional esforço de atores, dublês e movimentação de carros e objetos, são de tirar o fôlego, com uma qualidade acima da média que garante uma imersão na obra em IMAX e 70 mm.


“Trabalho com o formato IMAX há anos, que tem esse poder extraordinário em termos de quão profundamente é capaz de levar o público a entrar na história. Com uma história tão espetacular e divertida como esta tenta ser, nós realmente sentimos que queríamos envolver o público e levá-los para uma viagem”, declara Nolan.
















Como a maioria dos filmes do Nolan, Tenet tem camadas subjetivas muito próprias do diretor, vazada na técnica. Ele não precisa ser muito emocional para mostrar a importância do propósito que move o personagem Protagonista, e também, o excelente papel de Neil. Nas cenas mais finais, em um campo de batalha, é perceptível notar que o coletivo depende de como nossas subjetividades e escolhas definem o rumo das ações na dinâmica do tempo.  O dia que a humanidade perder a consciência coletiva e o altruísmo, ela estará fracassada por inteiro.










Por fim, há tanto o que dizer sobre Tenet, pois é um filme que permite leituras e releituras a cada sessão, mas cabe aqui dizer que é o tipo de produção que só se faz no Cinema, levando em conta que a ideia de inversão é imageticamente poderosa e intrigante e depende de um articulado trabalho de direção, fotografia e edição. A delícia é desvendar cada detalhe e tirar suas próprias impressões, sem se importar com o que os outros acham. A capacidade de ser surpreendido com reações genuínas, indo de um lado ao outro, da razão à emoção, é a maravilhosa potência ficcional de explorar o Cinema de Nolan.


"Com Tenet, o que espero é dar ao público uma razão para renovar e reviver o cinema de ação, e o gênero de filmes de espionagem em particular. Eu quero proporcionar-lhes uma maneira diferente de olhar para o gênero, para que eles sintam um pouco do encantamento que eu sentia, quando criança, ao assistir filmes de espião. Estamos tentando dar ao público uma nova experiência para (re)injetar essa sensação do desconhecido em sequências de filmes de ação. Nós realmente queremos oferecer ao público uma viagem e uma aventura diferente de tudo o que eles já viram ou sentiram", confessa Nolan.







Tenet não é o filme mais espetacular de Nolan, vale dizer, mas, ainda assim, é muito bom, inovador e contemporâneo, trazendo um vigor constantemente preciso em sua filmografia, unindo as pontas do universo pessoal e coletivo em um instigante híbrido de suspense, ação e ficção científica. É um daqueles filmes que, por trás de um diferenciado trabalho de técnica cinematográfica, há muito mais humanidade do que muita gente imagina. 











Fotos,  uma cortesia Reprodução do filme e citações dos diretor e atores, uma cortesia Tenet press book para veículos de cinema credenciados Warner Bros Pictures.

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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




As veias do mundo (Veins in the world, 2020) tem uma atmosfera graciosa, ainda que traga a triste realidade da ação das grandes empresas mineradoras nas estepes da Mongólia. É uma narrativa que reúne a infância, o amadurecimento e a relação entre pais e filhos com o drama de ver o lar sob a constante ameaça de desaparecer frente a ação destrutiva do meio ambiente pelos conglomerados industriais. Com tão delicado olhar, a direção é assinada por uma mulher, a cineasta Byambasuren Davaa.












Grande parte da graciosidade da obra está relacionada ao centro familiar do menino Amra, de 11 anos (Bat-Ireedui Batmunkh), em especial, sua delicadeza e inocência no primeiro ato, quando ele sonha em apresentar-se em uma competição musical na TV e tem, na figura paterna, um incentivador e um amigo. Em meio às belíssimas paisagens naturais da Mongólia, um cenário de encantamento pela terra e valorização das ancestralidades, Amra representa a futura geração que, a partir das experiências da infância, também precisa reconhecer o valor da identidade, da terra e da família.












Após um momento de luto, o jovem Amra passa por um processo de mudanças que não lhe tiram totalmente a doçura, mas é visível sua revolta. A fofurice cede mais lugar a um menino engajado que começa a se envolver na defesa da terra. Nesse ponto, a narrativa começa  a desenvolver um tímido arco dramático no personagem, uma vez que passa por um processo de amadurecimento que, ainda que não seja tão aprofundado na direção, apresenta ao espectador a importância de não desistir das próprias raízes.












Recorrer a  uma criança nessa dinâmica que envolve ancestralidade, família, casa, elementos internos como marcas identitárias de Amra e, paralelamente, denunciar a exploração das terras pelas mineradoras na Mongólia,  faz um bom contraponto entre a ação interna, da defesa das raízes, das terras e do pertencimento ao lar, e a ação externa, que é o antagonista presente nas terras que, aqui, não é personificado em um personagem, mas através de outras imagens de exploração do meio-ambiente.






Um filme sobre pais e filhos, terra e lar, sobre ancestralidade como força para o presente e o futuro.






É um filme que conquista pela simplicidade, beleza e sinceridade, em especial, porque há uma perda que , a princípio , desfavorece a resistência sob a perspectiva da força, exemplo e liderança, porém, mais adiante, é visível que, o futuro do planeta depende das crianças e dos jovens, de como eles se organizam, aprendem com os mais velhos, não desistem dos sonhos e do amor às suas referências familiares, nacionais, culturais. 






(3,5)





Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP, via assessoria para imprensa credenciada.

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Dias (Days, 2020) é uma joia rara do Cinema Asiático, formidavelmente bem dirigido por Tsai Ming-Liang. Aquele tesouro humanizado que a gente pode guardar em uma caixinha de música ao som de Terry de Charles Chaplin. O filme, com origem em Taiwan, narra a solidão na qual dois homens vivem e sobrevivem em um cotidiano que nem sempre é compreensível. Kang (Lee Kang-Sheng), homem de meia idade e de classe social média, vive sozinho, já estabelecido. Non (Anong Houngheuangsy), jovem, na condição pobre, vive em um apartamento modesto em Bancoc. Duas gerações diferentes. Dois homens originários de dois mundos distintos, o urbano e o provinciano; há alguma possibilidade de encontro em dias de profunda solidão?














Os dias correm rapidamente, atropelam sonhos, guardam sentimentos, silenciam as palavras, assim o indivíduo fica imerso em uma força que lhe puxa para uma solidão que se reflete na dor da alma e do corpo físico, no vazio da existência, na sensação de que, continuamente, algo lhe falta, ou que um encontro inesperado aconteça para perceber que ali, há um sujeito que sente, pensa, ama. Já no início do longa, o cineasta enquadra um close no experiente Lee Kang-Sheng.  O que seu personagem está olhando? Para o nada, ou para alguma saída que lhe salve do anonimato? ou,talvez, ele está pensando em como curar a dor psíquica que insiste em fragilizar o seu corpo?







Não há quase diálogos no filme. Há apenas dois corpos, solidão e silêncio que se alternam nesses homens. Com essa escolha narrativa, a força da imagem sem som, ou com apenas alguns sons do ambiente, do tédio e rotina do dia a dia, torna-se ensurdecedora.  A solidão tem desses emudecimentos. O silêncio que também grita na mente, que bem poderia ser substituído por um "como está se sentindo"? "Eu estou aqui, segure minha mão..." ou "apenas permaneça ao meu lado, olhe para mim, deixe-me sentir sua pele e calor". 











E o silêncio em Dias é um personagem tão protagonista como os outros. Ele está, desde permanecer na cama, fechar os olhos e não querer acordar com a mesma solidão, passando pelo toque nos corpos nus,  na massagem que alivia a dor ao curar, ainda que provisoriamente, um pouco dessa alma solitária, ou naquele beijo erótico e prazeroso que, no ápice do gozo, encontra o sabor dos afetos e desejos.





Dias são como dias, encerrados em sua continuidade de dias, semanas, meses, anos, encarcerados na própria semântica da palavra. Há um prolongamento do cotidiano, assim como há nas longas tomadas do cineasta que, com muita habilidade, diz muito no silêncio.  Em todas as cenas, o diretor mantem a força das imagens que tudo dizem, com um ritmo lento que adensa a complexa experiência da solidão.






Dias, dias e dias, e com um explorar crível do cotidiano que consome a existência, o filme expressa, de forma madura e realista, o drama de homens solitários, um drama universal de sujeitos à espera de algum afeto que, talvez, apareça, talvez não, assim são os dias que insistem em existir com tanta falta, dias que poderiam existir com mais amor; dias nos quais, pouco a pouco, as pessoas esvaziam o pouco de afeto que ainda resta no mundo; dias nos quais há incomunicabilidade, esperança, saudade e tantas outras dimensões da solidão humana.






(4,5)





Fotos: uma reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Com um título tão inspirador, bonito e poético "Nadando até o mar se tornar azul", o documentário do Cineasta Chinês Jia Zhang-Ke, presente na Mostra SP desse ano, é um evocativo retrato social da China Contemporânea desenvolvido a partir de relatos de escritores e acadêmicos Chineses de como se deu a construção dessa civilização. Situado em um vilarejo que concentra a vida provinciana de Shanxi, cidade natal do cineasta, o documentário entrecruza Literatura, História e Cinema na sua concepção e desenvolvimento.







Jia Pingwa e  Yu Hua





Jia Zhang-ke serve-se de uma sequência cronológica com registro histórico mas também preserva o reconhecimento das subjetividades sobre a China, utilizando o recurso memorialístico na narrativa. Ao convidar os escritores Jia Pingwa, Yu Hua e Liang Hong, ele assume uma direção que amplia o olhar sob essas experiências de formação da sociedade, abrangendo os anos 50, 60 e 70. É uma trajetória que se concebe através do percurso entre diferentes gerações, evidência que valoriza ainda mais a transversalidade entre memória, História e Literatura.












Levando em conta a China como atual gigante econômico, político e financeiro no mundo contemporâneo competitivo, o documentário se estabelece como um resgaste da simplicidade do interior e povo Chinês, e como essas bases ancestrais de disciplina, força e superação em meio à miséria e às dificuldades das famílias fazem parte do alicerce sobre o qual se estruturou e se fortaleceu a nação. É muito mais um documentário de homenagem à História e Cultura de um povo que não pode se esquecer de suas origens. Retornar à  infância e a juventude, percorrendo memórias literárias e históricas, é uma preservação do legado Chinês e uma inspiração renovadora para as atuais e futuras gerações.






O diferencial do documentário, além da experiência do consagrado diretor como um grande regente das imagens e das entrevistas, está relacionado à sua excelente capacidade de dar voz a autores literários que, através da Literatura, também ajudaram a formar o imaginário, a oralidade, a tradição e a história da China. A Literatura, como campo plural, simbólico e social, tanto  das subjetividades como também das experiências e relações dos sujeitos e grupos, se realiza a partir da construção de sentidos do leitor, assim, a Literatura  está em contínuo diálogo com o povo, sua história e cultura, e precisa dele para a sua preservação. Jia Zhang-ke  utiliza muito bem essa inter-relação ao longo da não - ficção, por isso, os escritores presentes são protagonistas especiais como exímios contadores de histórias.










Nesse sentido, um dos momentos mais belos é o relato da escritora  Liang Hong. Como uma mulher nascida na década de 70, mais contemporânea, seu depoimento é pleno de emoção sobre as memórias dos pais, da irmã, da vida rural e pobre. São lembranças tão vitais, mas também dolorosas, que ela mesma tem dificuldades para contar sobre a mãe doente e os esforços da irmã como arrimo da casa. É um relato honesto que encontrou, na Literatura e no Cinema, a importância da preservação da identidade, das raízes, da família e da memória.  Isso explica também porque o desfecho tinha que ter uma boa surpresa, refletindo as novas gerações Chinesas.






Assim é o documentário, preservar a memória, a História e a cultura, continuamente e profundamente, nadando até o mar se tornar azul.






(3,5)




Foto: uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Um argumento genial, humanista e bem executado na história transforma um filme em uma experiência atemporal e universal, na qual as representações simbólicas de temas complexos como a família, a morte e o sentido da vida possibilitam ressignificações do viver. Entre Mortes  (In Between Dying, 2020), uma coprodução do Azerbaijão, México e EUA, ultrapassa o tempo da realização e da exibição e permanece no tempo da memória, da experiência marcante capaz de ser continuamente rememorada para outros sentidos da existência.












Roteirizado e dirigido pelo cineasta Hilal Baydarov, o longa narra a jornada de Davud (Orkhan Iskandarli), um jovem inquieto e insatisfeito com a realidade familiar que o cerca. Diante da incompreensão da própria vida e do seu lugar no mundo, ele parte de casa e realiza um percurso em busca de significados e amor.  Nessa livre trajetória em paisagens distantes, ele encontra várias pessoas, principalmente mulheres em algum tipo de conflito e com diferentes decisões que culminam em violência e morte, sendo atravessadas por histórias de sofrimento e abusos. Ao retornar ao seu lar, essas experiências cooperam para seu amadurecimento e relação familiar, entretanto, o tempo é frágil, nem tudo pode ser  vivido novamente entre as mortes do cotidiano.










É interessante notar que o tempo cronológico da narrativa percorre uma jornada metafórica,  misturando essas impressões sobre o tempo do Cinema e da experiência. De fato, há uma duração pequena no plano real, entretanto, poderia ser um outro dia qualquer na vida de outro ser humano. Esse poderoso efeito sobre o significado da vida em uma jornada de descoberta extrapola os limites temporais, ainda que esteja claro que Davud teve um horário de partida e outro de chegada em sua casa em apenas um dia.






É um filme fascinante com uma força narrativa poderosa, considerando a visão de que, a todo instante e em algum lugar, as mortes possibilitam a descoberta e a ressignificação, assim, o ser humano aprende com a morte o sentido da vida e constata que a morte é permanência constante na vida. Uma presença que, por mais trágica que seja, exige a convivência com as possibilidades de partidas. Ela está todos os dias à espreita e na iminência de acontecer, desse modo, nenhum homem ou mulher saberá quando se confrontará com ela.











Nesse sentido, Davud encontra no seu caminho diferentes mortes, todas violentas e abruptas. Mortes que ele pouco tem como evitá-las. Mortes que dão uma dimensão coletiva que atravessam realidades como violências relacionadas a diferenças de gênero, de poder, de cultura e sociedade como um todo. São mortes em um microcosmo que corroboram o macrocosmo presente em muitas sociedades, com isso, é um filme universal, ricamente metafórico.










A beleza da fotografia juntamente com a competência nos enquadramentos de planos, na escolha das locações e na montagem une as duas pontas da poesia e da técnica, da sensibilidade e da racionalidade no Cinema Independente, do indivíduo e do coletivo. É um filme raro, daqueles que projetam imagens, asperezas e silêncios que dificilmente são vistos em qualquer longa-metragem. 






Na verdade, nunca saberemos se Davud encontrou o que queria nas reflexões sobre a vida e o sentido de sua existência. É um filme que, na sua força realista  e também simbólica, permite uma reflexão em aberto, transcendente e libertadora.









Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Dizem que quando os pais envelhecem se tornam como bebês que precisam receber maiores cuidados pelos filhos e demais familiares. Essa realidade faz parte do cotidiano de muitas famílias cujos pai ou mãe,  ou avôs e outros entes queridos são confrontados com um drama relacionado à velhice: alguma doença degenerativa como o Mal de Alzheimer. 





Em Apenas mortais (Being Mortal, 2020), do jovem cineasta Chinês Liu Ze, o centro de uma família gira em torno do tratamento dessa doença que atingiu o seu patriarca. O diagnóstico médico informa que ele se encontra em estágio severo da enfermidade, com isso, a história enfoca o drama de uma das filhas, Xian Tian (Tang Xiao-Ran) que, após terminar um relacionamento, muda-se para a casa dos pais para ajudar a mãe nesses cuidados. Como protagonista, ela tem que enfrentar a doença do pai mas também mudanças intimistas no amor, trabalho, tempo e privacidade. 











O recorte narrativo de Liu Ze agrega muito valor ao longa a medida que ele traz a experiência e dilemas de uma filha, assim, os sentimentos, as dúvidas e as renúncias baseados em uma realidade bem feminina.  Não é apenas Xian Tian que cuida do pai, mas a mãe dela tem que desdobrar nas atividades como cozinhar, cuidar da casa, levar o marido ao médico, alimentá-lo, limpá-lo, assim como outra irmã é responsável por ser arrimo financeiro e representa a mulher que não se afasta da carreira e do trabalho. Todas, de uma forma ou de outra, têm suas dinâmicas cotidianas e seus relacionamentos familiares e/ou afetivas influenciados pela doença do patriarca. 





Os conflitos são narrados de uma forma diferente de outros filmes sobre Mal de Alzheimer, mesclando a realidade com atmosfera de sonhos  que, desse modo, dão vazão às emoções de  Xian Tian diante da doença, da morte, do esgotamento da memória do pai, do amor e da compaixão. O diretor orquestra o melhor das cenas, desde a dificuldade de um banho no patriarca, passando por internações em hospital e as crises de apagamento da memória.  Ainda assim, a narrativa não apela para uma apresentação cênica mais tradicional e formatada. Ele não endurece ainda mais essa realidade, pelo contrário, ele orquestra questões complexas como morte, amor e velhice com afeto, ternura. 






Para enriquecer a narrativa de maneira realista sob uma perspectiva feminina, o cineasta contribui bastante ao colocar a relação amorosa de Xian Tian em cena, como aquela filha que vivencia com essas oscilações e inseguranças afetivas, a cobrança (in)direta da sociedade para a mulher ter um homem ao lado, uma casa, filhos e família. Ela é a mulher que tem que lidar com o adoecimento degenerativo do pai, com isso, o casamento  se torna um segundo plano por mais que ela sinta esse desejo e/ou pressão social.











É um belo filme, um dos melhores da Mostra SP 2020. Em sua duração de 96 minutos, ele é tão honesto que, quando chega ao desfecho, deixa a sensação de que a história não deveria ter terminado, de que havia um pouco mais a ser compartilhado e sentido com essa família. É comovente testemunhar esse espírito dócil e humanizado em um meio tão doloroso como o Mal de Alzheimer. Em sociedades Ocidentais como  a Brasileira que, muitas vezes, não respeitam sequer os  idosos, esse filme é uma lição de vida, uma experiência de amor, lealdade e solidariedade, uma representação que não é fácil conviver com a morte antes mesmo de chegar o último respiro.






A sinceridade fica visível a cada plano, a de que a velhice traz emoções ambíguas, entre a realidade e o sonho, entre a culpa e o amor, entre o querer fugir dos problemas e o querer permanecer, ajudar e amar. Não é fácil ver o sofrimento de quem tanto se ama e não poder lutar o suficiente contra uma memória que se esvai.







Fotos: Uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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