Com produção da Grécia,   O Retorno de Antígona é o segundo longa do diretor Yorgos Servetas , que neste filme possibilita um olha...





Com produção da Grécia, O Retorno de Antígona é o segundo longa do diretor Yorgos Servetas, que neste filme possibilita um olhar contemporâneo de como a violência aumentou  dos anos 80 para os dias atuais no país. Na história, Antígona (Marina Symeou) é uma mulher de meia idade que retorna à sua pacata cidade grega após ficar um longo tempo fora. Ao chegar ao local, encontra os amigos, arranja um emprego de professora de inglês e inicia um namoro com o jovem Nikos (Giorgos Kafetzopoulos). A triste realidade começa a surgir: ela se confronta com a onda de violência na região, principalmente a submissão e  humilhação  sofridas por sua amiga Eleni (Marianthi Pantelopoulou), amante do tirano local Nodas (Nikos Georgakis), um homem excessivamente violento, misógino e controlador das vidas locais, inclusive a de Nikos, um dos seus empregados.


O longa é um filme frio e deprimente. Ele demonstra uma perspectiva muito pessimista sobre a violência, que é a que submete a pessoa à uma prisão social, a uma aceitação das regras de um homem violento e que catalisa outros comportamentos destrutivos como cúmplices dessa violência, tanto que outros personagens praticam delitos ou agem de forma violenta. Isso fica muito evidente em Nodas, que é dono de um negócio local e o 'animal' da cidade. Ele gosta de bater em mulher e essas cenas serão recorrentes. Também costuma verbalizar que todas as mulheres são putas e há uma forte característica machista no personagem a ponto de que, se ele morrer, não fará falta. Ele também não permite que nem Eleni e nem Nikos tenham vida própria e personifica aquele que sufoca vidas.  Ele impõe suas  regras nem que para isso use de força física ou de manipulação. Jamais aceita um não como resposta, o que sedimenta mais ainda aquele entorno violento. Ele é a personificação da violência no filme . Por outro lado, Antígona é a personificação do mito grego ao retornar à sua cidade, demonstrar sabedoria, afeto, lealdade e coragem e se impor contra essa violência. Consequentemente, ela começa a incomodar Nodas, que começará a atrapalhar sua permanência na cidade.


Na narrativa, a protagonista é o que tem de melhor, apesar de que poderia ter sido melhor desenvolvida em sua complexidade. Marina Symeou se destaca porque ela representa a geração nascida nos anos 80 e que reconhece que a Grécia mudou e se tornou mais violenta. A atriz demonstra bem como Antígona é forte e corajosa mas também amiga. Mais interessante é notar que, mesmo sendo contra a violência local, Antígona também precisa agir com agressividade para enfrentar esse meio, logo ela também tem que agir como uma heroína.  Esse contraponto de ser afetuosa e violenta é positivo porque será ela a que enfrentará o status quo da violência, mesmo que corra riscos e tenha perdas. Outro aspecto interessante é como as individualidades são impactadas pela violência ao  analisar os comportamentos de quem sofre a violência, principalmente Eleni e Nikos. Eles se tornam pessoas moralmente fracas ou fragilizadas e parecem não ter personalidade alguma para qualquer enfrentamento. Há situações em que o público pensará: como é possível se submeter à essa violência? Como é possível ceder ao perpetrador? Sim, é possível e esse é um problema muito mais que individual, é um problema social. 





Ficha técnica do filme . ImDB O Retorno de Antígona




É renovador quando um diretor Brasileiro une as pontas de um cinema com códigos da coletiva realidade social e política do ...











É renovador quando um diretor Brasileiro une as pontas de um cinema com códigos da coletiva realidade social e política do país com um drama pessoal de uma heroína em busca de si mesma e ainda inclui sua marca, que recupera referências do Cinema dos anos 70, cultura POP e muito sarcasmo . Isso traduz um dos grandes acertos do novo longa de ficção de Daniel Aragão, cineasta Pernambucano, conhecido por Boa Sorte, meu amor e que, agora, está de volta com um filme que é uma insana jornada da vida de Joli (Bianca Joy Porte), a filha de Antônio (Zé Carlos Machado), deputado e pertencente à uma endinheirada família do Recife. Ela apresenta problemas psiquiátricos e, após sair de uma clínica de recuperação e considerar-se curada, ela quer retomar sua vida e recomeça-la de forma independente. Uma das primeiras cenas, com o psiquiatra, interpretado por Luiz Carlos Miele  dá a dica de sua incapacidade de recuperar a sanidade, um tom que permeará o drama da bela e jovem Joli.


Todo o filme é construído com boas referências, inclusive as que ressaltam o trabalho da heroína, como por exemplo, a de Tarantino. Ao ver Joli dirigindo o seu carro e tendo acessos de fúria, não há como não lembrar de Kill Bill. Nos primeiros planos, é evidente o humor do filme, instável e como uma viagem psicotrópica: a trilha sonora é perturbadora e a atmosfera é envolta em certo aprisionamento e pessimismo. Por outro lado, com uma escolha pertinente, o cineasta varia a  palheta de cores, a saturação da fotografia e uma boa montagem que coloca a protagonista em momentos de sonho e liberdade, o que pode ser uma esperança, um caminho. Esse equilíbrio de sensações e percepções que o filme provoca entre a insanidade, a realidade sócio-política do Recife, o contexto familiar ligam o expectador à essa atmosfera de forma a suavizar um pouco mais o longa e não deixá-lo pesado ao extremo. O filme se torna um belo exercício de como a narrativa é desenvolvida através de uma boa decupagem. Assim, houve um bom senso no tratamento das imagens já que, sendo mais cult e sarcástico, o filme ainda está inserido em uma comercial realidade cinematográfica no Brasil que  não está acostumada a esse tipo de provocação. Com isso, o diretor demonstra ter coragem de fazer o que deseja e equilibrar certas escolhas, o que só ressalta a excelente qualidade do Cinema Pernambucano que tem se destacado nos últimos anos.





O longa tem uma forma muito corajosa e não convencional de como fazer o Cinema Nacional. Nesse aspecto, ele tem um approach cult  que trabalha com uma protagonista disfuncional e que não se encaixa na sociedade.
Esse aspecto de trazer uma heroína que tenta se libertar das amarras sociais e familiares e ser ela mesma gera uma reflexão libertadora para o público, principalmente para os que não concordam em como os, digamos, autênticos são mal compreendidos. Por mais que ela seja "doida", a gente torce para que ela entre em seu carro antigo, dirija pela estrada até se libertar do namorado puxa saco (Sérgio Marrone)  e o pai sufocante e cheio de culpas que ela tem. Ele também tem traz uma dicotomia interessante e bastante controversa: Joli tem histórico de uso ilícito de drogas (o que é proibido) mas ela toma estabilizadores de humor (o que é liberado). Mais ao final, com os imperdíveis créditos, o diretor brinca com essa situação e realiza uma excelente colagem, com bom humor.  No geral, há situações que são tão sarcásticas que fazem com que se analise melhor o que o diretor quis dizer e procurar nossas próprias respostas. Há momentos dramáticos que dão muita vontade de rir. Certamente, esse é um filme que fica na mente por uns dias como uma droga injetada. 



Prometo um dia deixar essa cidade vale a pena ser visto. Essa fusão do social e político do Recife com uma protagonista que é forte, mesmo em sua fragilidade,  exige um papel mais ativo e degustativo por parte do expectador. O longa tem várias qualidades, ainda que possa não agradar o público que prefere Cinema de Hollywood, ele terá seus apreciadores. Muita da qualidade do filme está em 3 aspectos principais: a direção de fotografia de Pedro Sotero, o mesmo do premiado Som ao Redor. A fotografia tem vida própria, sempre muito ligada à personagem e  sua trajetória. O trabalho de Sotero fica mais assertivo à medida que se percebe como o cineasta realizou a decupagem, desta forma, fotografia e direção formaram uma boa dupla. O segundo aspecto é a atuação magnífica de Bianca Joy Porte que evoca o drama entre a tentativa de voltar à saúde mental, se inserir em uma sociedade de aparências e apoiar o pai em uma campanha política de inverdades. Ela é uma atriz interessante e com personalidade em cena: tem uma presença de imagem forte com aquele belo cabelo ruivo e discreto sotaque nordestino. Ao mesmo tempo, ela é acessível, insana e divertida. É possível criar um rápido processo de identificação com ela e Bianca torna as coisas mais fáceis pois tem carisma. Ela também teve coragem de aceitar esse papel, que não é fácil e só ressaltou o seu claro talento entre as novas atrizes do Cinema Nacional. Para finalizar, o último aspecto é como o roteiro trabalhou elementos pessoais e sociais. Ao assistir ao filme, é bom chegar à conclusão de que o roteiro não se esqueceu do Recife e de impor esse aspecto regional tão importante ao Cinema Pernambucano e que o faz ser um dos melhores do país. 





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Reino da Beleza é o novo filme do diretor Canadense Denys Arcand , conhecido pelo seu premiado  Invasões Bárbaras. Rodado  co...








Reino da Beleza é o novo filme do diretor Canadense Denys Arcand, conhecido pelo seu premiado  Invasões Bárbaras. Rodado  com uma ótima fotografia e boas paisagens de Canadá, Reino da Beleza é um exemplo de que só beleza de atores e de locações não faz um bom filme. A frieza da narrativa sem qualquer grande momento emocional ou de reviravolta e um argumento mais do mesmo sem trazer nenhuma vantagem reflexiva ao público tornam o longa muito regular.  


A história tem como protagonista, Luc (Éric Bruneau), um arquiteto jovem e boa pinta que é tão fútil como sua vida de classe média alta. É casado com uma bela mulher, Steph (Mélanie Thierry) e vive em um lugar paradisíaco, próximo ao Québec. Ambos são atléticos, praticam vários esportes considerados elitizados como tênis e golfe, curtem jantares com amigos e levam uma vida que muitos adorariam ter, porém nada parece suficiente. As coisas começam a desmoronar no casamento quando ela tem um problema psiquiátrico e ele se aventura em relacionamento extraconjugal ao conhecer Lindsay Walker (Melanie Merkosky).


O filme é dirigido de forma a ressaltar o estilo de vida do endinheirado e bonitão Luc. Como arquiteto, ele faz valer sua carreira. Gosta do que é belo. Ele é esteticamente bonito. Ele valoriza o que é plasticamente belo, tanto objetos como mulheres e, até esse ponto imagético, o filme cumpre uma função narrativa interessante que é mostrar ao público essa vida que é contornada de belas formas. No entanto, o roteiro é muito desprovido de complexidade e, mesmo que ele só fosse optar pelo mínimo de regularidade, não são ressaltados conflitos atraentes entre personagens, logo o expectador é desafiado somente a acompanhar uma história que mais parece um livro da série Sabrina e que é um desperdício para o talento de Denys Arcand. 


É um filme que tem uma característica muito masculina que gira em torno de Luc, que tem que lidar com perdas ou acontecimentos inesperados como a própria doença da esposa e as puladas de cerca,  mas o ator tem mais beleza do que talento e sua atuação se torna muito pouco convincente. Nesse aspecto, esse personagem poderia ser melhor desenvolvido em seus dilemas mas o diretor optou por um caminho mais fácil e mais óbvio. As mulheres do filme também tinham potencial para desenvolvimento de suas atuações, principalmente a da esposa e a da amante.  Mèlanie Thierry parece ser uma atriz mais sólida e dramática e sua atuação é mais interessante à medida que confronta o expectador a pensar sobre o drama de uma doença psiquiátrica, que incapacita e também afeta diretamente a relação conjugal. 


Certamente custará muito ao  expectador mais exigente encontrar algum valor agregado à experiência com o longa. Como toda beleza, o filme é frágil e se Arcand tinha como objetivo mostrar a futilidade desse reino, então o longa dele faz todo o sentido.






Ficha técnica do Filme: ImDB O Reino da Beleza 






A Pequena Casa ( The Little House ) do cineasta japonês Yoji Yamada é uma daquelas joias preciosas do Cinema Asiático e que f...









A Pequena Casa (The Little House) do cineasta japonês Yoji Yamada é uma daquelas joias preciosas do Cinema Asiático e que faz justiça à excepcional qualidade de direção de seu realizador, ligando as pontas da tradição e história japonesa à produção atual. Com a mesma lealdade aos valores japoneses, a mesma sutileza do texto e a real entrega a um passado que pode ser mimetizado na contemporaneidade do Cinema, Yamada, que também dirigiu o remake do clássico de Ozu, Uma família em Tóquio, dirige uma bela história com camadas que unem a trajetória entre guerras do Japão e destaca esse personagem que vai além de uma arquitetura: uma pequena casa com telhado vermelho e ares bucólicos onde viveram os personagens da história.

O filme é um melodrama histórico que relata as memórias de Taki, uma senhora idosa que escreve sua biografia como empregada doméstica e babá da família Hirai na antiga Tókio. O longa se divide em 3 tempos distintos de narração: A jovem  Taki (Haru Kuroki) trabalha na casa da bela Sra. Tokiko Hirai (Takako Matsu) e do Sr. Hirai (Takatarô Kataoka), um executivo do ramo de brinquedos.  Em outra camada, interpretada pela atriz Chieko Baishô, ela está relatando suas memórias ao sobrinho Takeshi (Satoshi Tsumabuki) e em outra parte, já falecida, o sobrinho encontra os seus escritos. De uma maneira muito bem recortada, Yamada e sua parceira de roteiros, Emiko Hiramatsu, entrelaçam o drama pessoal de Taki, sua mudança para Tókio, o cotidiano da família Hirai e a história do Japão com algumas  referências que impactaram como os japoneses reagiram às guerras e como esses contextos afetaram aspectos intimistas dos personagens. Com esse elenco preciso e cativante, Yamada demonstra mais uma vez ser um excelente diretor de atores, estar em excelente forma no auge de seus 83 anos e é um realizador que valoriza seu país e a capacidade do Cinema realizar a ponte entre o público e o Japão.


O filme é muito aderente à nobreza do povo japonês e, esta aí a sua primordial beleza. Ele se desenvolve de forma muito simples até culminar em uma emoção que explode, ainda que discreta. Com sutil humor, gestos delicados de dedicação à família, sentimentos escondidos e muitas vezes silenciados, a história de Taki é um exercício de Cinema Japonês para o público. É também cativante à medida que evoca perspectivas femininas que funcionam muito bem para o melodrama de mulheres devotas à uma época de Japão no qual os homens partiam para a guerra, tentavam sobreviver em seus ofícios ou eram donos do próprio negócio lutando para competir e sobreviver. Nesse sentido, existe uma complexidade muito inerente às personagens de melodramas japoneses, contida em suas próprias emoções, que é a sua capacidade de ser, ao mesmo tempo, tão acessível e tão misteriosa. Na maioria das vezes, as emoções são catalisadas em silêncios e lágrimas, discreta quebra de regras e  desabafos que guardam em si algum desconforto.


Como destaques, elenco, fotografia e direção, principalmente as tomadas internas realizadas na pequena casa, uma residência que é um dos evidentes protagonistas ao testemunhar a bela história dos Hirai e a dedicada entrega de Taki àquela família. Com relação ao elenco feminino, ele é o alicerce da história e é a representação do carisma, tanto que, em uma das falas do personagem, Sr. Itakura (Hidetaka Yoshioka), designer da empresa do Sr. Hirai e amigo da família, fica claro o porquê de ele ir para a guerra. Muito mais do que uma simples fala, ali está representado também um dos grandes valores desse filme: suas mulheres. O filme é belíssimo em como a atriz Haru Kuroki, vencedora do Urso de Prata do Festival de Berlim, tem uma atuação de total devoção, da bondade ao servir e ao incondicional amor e lealdade que ela tinha àquela casa e família. Com muito pouco texto, ela consegue representar o poder da imagem cinematográfica que, muitas vezes, dispensa palavras. Basta sentir e honrar essa imagem pois assistir a Yamada também é um ato de devoção, lealdade e respeito ao Cinema Japonês.






Ficha técnica do Filme : ImDB A Pequena Casa 


Se há um bom realizador de comédias no Cinema Atual, a França se destaca claramente em seus roteiros com bons e divertidos tex...








Se há um bom realizador de comédias no Cinema Atual, a França se destaca claramente em seus roteiros com bons e divertidos textos e ideias bem mais originais do que o humor pasteurizado encontrado no gênero. Prova disso é Les Combattants, o premiado filme de Thomas Cailley, um diretor que demonstra potencial para oxigenar mais a produção moderna Francesa e ganhador de prêmios da Quinzena de Realizadores de Cannes 2014. Nessa produção, ele e Claude Le Pape se destacam como desenvolveram um roteiro que amadurece o romance entre jovens considerados, à primeira vista, estranhos. Ela desconstrói, de uma forma bem leve e inusitada, a ideia de mocinha sonhadora e delicada e de príncipe bonito e encantado da maioria das comédias românticas.


Arnaud (Kévin Azaïs) e Madeleine ( Adèle Haenel) se conhecem da pior forma possível: em uma briga. Ela é o antiexemplo da mulher feminina. Deseja ingressar no exército e tem hábitos excêntricos  e atitudes mais brutas. Ele é a delicadeza em pessoa, um pouco tímido e nada sexy. Com perfis bem diferentes mas próximos em suas esquisitices, nasce uma amizade. O jovem, que trabalha nos negócios madeireiros do falecido pai, está disposto a conquistá-la. Esse flerte se dará de uma forma nada comum, trazendo à cena a ambientação de um treinamento no exército.  


No mínimo, esse é um filme  interessante para quem aprecia uma comédia francesa que atraí opostos e na qual o amor se rende pouco a pouco  e sem situações muito óbvias. A vantagem de degustá-lo é  perceber que a aceitação do outro, a delícia da descoberta afetiva e as gentilezas.  Ao construir um jovem amor a partir da aceitação de características que não são comuns nos relacionamentos atuais, o diretor acrescenta muito a um gênero que tem a dicotomia de ser facilmente aceito pelo público mas amplamente difícil de ser diferenciado a cada produção. Normalmente e na maioria dos casos, o homem é mais visual e aprecia a beleza e a feminilidade da mulher; ela tem uma necessidade de ser aceita nem que, para isso, tenha que mudar a sua imagem pessoal. Aqui, não há essa frescura das convenções de beleza porque Madeleine, mesmo sendo uma garota bonita capaz de despertar o desejo de Arnaud, tem uma outra beleza muito superior para ele: aquela que vale a pena ser conquistada, a interior. As melhores cenas são as que ele tem uma ação totalmente diferente que outros homens teriam, principalmente a de suportar sua teimosia.


Com relação ao elenco,  Kevin e Adèle formam uma ótima química, por incrível que pareça, a desentrosada. Esse tipo de combinação faz a diferença na proposta do argumento. Ela tem uma forte presença em cena com o frescor das atrizes francesas mas longe da elegância da maioria, tal característica a torna mais atrativa para um jovem talento e desperta a curiosidade sobre seu potencial para próximos filmes. Muita da qualidade do trabalho dela é como reagiu ao florescer do romance tendo uma personagem tão masculina e aficionada pela ideia de servir ao Exercito. Percebe-se que ela é muito mais frágil do que sua aparência e comportamento, o que representa uma ótima escolha da história. Por outro lado, cabe muito mais a ele, conquistá-la. No desenvolvimento do personagem, ele se destaca pois muita da aceitação do jeito dela vem de atitudes dele. Ele demonstra gentilezas que valorizam muito a dinâmica do filme e o coloca como um homem que vale a pena se envolver. Realmente, o amor é um campo de batalha, como dizia a velha canção de Pat Benatar. Ainda há bons combatentes.





Ficha técnica do filme: ImDB Les Combattants






Uma das gratas surpresas do Cinema Brasileiro que estreará em 2015  é o imperdível documentário biográfico da cantora Cássia...









Uma das gratas surpresas do Cinema Brasileiro que estreará em 2015  é o imperdível documentário biográfico da cantora Cássia Eller, falecida de enfarto em 2001 e reconhecida pela sua bela e diferenciada voz grave e versatilidade musical. Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, que também realizou Loki, Arnaldo Baptista, Cássia é uma fascinante e inédita homenagem e partiu de um ótimo insight do cineasta ao pesquisar uma cantora que representa um raro e forte talento de cantar vários ritmos e, mesmo assim, ainda ser unicamente Cássia Eller . O filme é a materialização clara de uma artista que é definitivamente uma força da natureza e faz parte do time dos documentários brasileiros mais honestos e bem montados dos últimos tempos. 


O longa demonstra várias fases da vida de Cássia e é muito rico e completo em depoimentos de músicos da banda, empresários e diretores e familiares, além de ótimas imagens de Cássia na época do musical Gigolôs com Marcelo Saback, do rock in rio, do acústico da MTV etc. Há entrevistas emocionantes e com respostas muito espontâneas como as de Nando Reis, Zélia Duncan,  do baixista Fernando Nunes, da percussionista Lan Lan, de Osvaldo Montenegro etc, principalmente, a transparência e simplicidade de Eugênia,  sua ex-companheira de longa data , que obteve a guarda do filho da cantora Chicão, sendo este um caso inédito na história legal do país.  

O documentário tem momentos com muito humor, típico da irreverência de Cássia e do carinho e honestidade de seus amigos e ele não oculta verdades; pelo contrário, de forma muito natural e legítima, fala de sexo, drogas, rock n'roll, casos extraconjugais, maternidade, amores e todos os altos e baixos da cantora, igualmente, ele desconstrói a imagem midiática de que Cássia morreu de overdose e só tinha aquela imagem de lésbica rocker masculinizada. Ao começar a assistir ao longa, os estereótipos são deixados de lado e o expectador é envolvido por uma Cássia extremamente amada e carismática que nunca escondeu suas loucuras particulares mas que teve uma grande capacidade de deixar sua marca e amar o seu filho, sua esposa, mãe e amigos. 


Aliás, esse jeito natural de ser de Cássia, sem máscaras e também polarizante entre subir no palco e devorá-lo mas também ser tímida com as câmeras, torna o filme imperdível. A sua fortaleza e vulnerabilidade a torna extremamente humana e esse é um ganho inestimável para o público. Ela foi uma perda irreparável para a cultura do nosso país. Era uma mulher muito apaixonada por música e que teve o dom especial de quebrar tabus e preconceitos. O  maior mérito do documentário é mostrar a alma de Cássia, da garota que também era simples, tímida e não adepta de bajulações a celebridades e do ganhar dinheiro por ganhar. Aos poucos, a plateia é envolvida no seu valor como pessoa, muito mais do que só o de artista.


Tecnicamente, o documentário foi muito bem montado. Um exemplo disso é o tempo cronológico da projeção (2 horas) x o tempo transcorrido na experiência afetiva com o longa. Ele é envolvente do começo ao fim e pode ter certeza que quando termina, parece que visitamos Cássia, batemos um papo com ela e não vimos o tempo passar. Neste aspecto, houve um excelente trabalho do diretor ao ter a sensibilidade de desenhar essa inesquecível pintura entre a imagem, a música e o texto. Os recortes entre entrevistas pessoais e dos amigos, imagens inéditas dos shows e do convívio familiar e as músicas movem potencialmente o expectador a conhecer Cássia além de sua própria história. Ali também está a história da música nacional e a história de momentos de nossas vidas, de nossos amigos e conhecidos ao som de músicas cantadas por ela, desta forma, assistir à Cássia é também assistir um pouco ou muito  de nós.








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