Um dos destaques da Mostra e melhor filme do Un Certain Regard do Festival de Cannes,   Força Maior ( Turist ) dirigido por...










Um dos destaques da Mostra e melhor filme do Un Certain Regard do Festival de Cannes,  Força Maior (Turist) dirigido por Ruben Ostlund é uma comédia dramática que coloca o marido moderno "contra a parede" e tem o requinte do Cinema Nórdico ao misturar cenas frias e silenciosas de uma estação de esqui com desabafos entre um casal durante uma crise de casamento. Thomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) estão passando férias com os dois filhos nos Alpes Franceses. Ele é um daqueles maridos jovens e ocupados e essas pequenas férias são uma oportunidade de estar próximo à família e celebrar o momento com diversão, mas após uma avalanche durante um almoço familiar, uma cômica e surpreendente situação se torna o estopim para danos no relacionamento. 


No plano de abertura, muito bem pensado, o tom já é engraçado e indica que algo ocorrerá à aparente harmonia dessa família. A partir daí, a dramédia alterna cenas contemplativas de longos silêncios com as familiares e maior participação dos atores. É interessante notar que os silêncios não chegam a incomodar pois, como na maioria das relações mal resolvidas,  os silêncios dizem muito mais e, aqui, têm uma função narrativa ; portanto essa é outra escolha bem acertada do diretor, que também intercala momentos hilários de choradeira e desabafos em momentos constrangedores, principalmente os que marcam  a diferença entre homens e mulheres ao enfrentar - se com seus pontos de vista diferentes. Apesar da crise, o filme não é clichê pois tem uma atmosfera muito distinta da apresentada em filmes muito comerciais e o humor não é escrachado ou muito óbvio, funcionando mais como um humor negro que deixa uma gargalhada contida no expectador, entre a seriedade do problema e a vontade de rir do casal.


O roteiro ainda deixou muito a desejar e poderia ter dado mais complexidade à dramédia. Faltou desenvolver a ideia através dos personagens principais pois, a todo o momento, o expectador mais atento perceberá que faltou aprofundar o conflito para uma melhor finalização. Para expandir um pouco mais a história e possibilitar mais elementos acerca da problemática do casal , o roteirista optou por inserir personagens coadjuvantes que testemunham a crise e todo o constrangimento. Fatalmente isso era muito necessário para rodar esse roteiro já que os diálogos entre o casal não foram tão desenvolvidos, além disso um casal em crise normalmente não conversa muito ou não quer conversar. O elenco masculino garante boas risadas e é destaque: Johannes Kuhnke como o marido sem noção e, principalmente, o  hilário coadjuvante Vicent Wettergren, um dos pontos altos em toda a projeção, ele é o salvador das cenas cômicas.


Não se pode negar que o filme parece despretensioso mas não é. Ele coloca o homem no centro da história e isso é bom porque poucos filmes o fazem. Thomas é como o réu da esposa durante os minutos de projeção e tudo fica engraçado mesmo que o assunto seja sério. Ao inserir uma ideia simples, um motivo aparentemente egoísta e banal como estopim para uma crise conjugal, o diretor e também roteirista traz à tona que  em nossa própria humanidade, tão falha, as diferenças ocorrem nos mais comuns casamentos  e muitas vezes somos incapazes de dialogar a respeito. As melhores cenas são as que reproduzem tentativas vãs de Thomas tentar explicar o inexplicável à Ebba e, também, as que indicam que muitas vezes o homem não vê erros em suas atitudes porque nem sempre os cometem por premeditada maldade. Os homens são o que são, com erros e acertos, com uns dias de herói e outros não. 





Ficha técnica do filme: ImdB Força Maior







38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo  16 a 29 de Outubro Acompanhe a Seleção de filmes da Madame Uma d...


38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 
16 a 29 de Outubro

Acompanhe a Seleção de filmes da Madame







Uma das premissas básicas e interessantes para assistir ao filmes de Feo Aladag, cineasta de origem austríaca em sua segunda participação  na Mostra, é o fato de ela abordar questões nevrálgicas sobre diferenças culturais, étnicas e religiosas que colocam indivíduos em choque com realidades de países de origem muçulmana. Por se dedicar ao Cinema Alemão, seus filmes costumam inserir em momentos narrativos, seja em tempo, em lugar ou em dilemas morais, personagens alemães ou dessas origens orientais que vivenciam o pensamento ocidental ou tem visões menos convencionais e mais libertárias, consequentemente, há um claro conflito com a forma de costumes, normas e condutas das culturas, mas também uma tentativa de conciliação, ainda que frustrante.  Desta vez, a diretora traz Entre Mundos (Zwischen Welten), seu segundo longa após a boa recepção  de Quando Partimos (Die Fremde).


No longa, Jesper (Ronald Zehrfeld) é um soldado alemão que após perder o irmão, morto no Afeganistão, decide voltar ao local com sua unidade para proteger uma aldeia no Talibã e se unir como aliado com o comandante Hanoor (Salam Yousefzai), chefe de uma milícia local. Para acompanhá-lo, ele leva Tarik (Mohsin Ahmady), jovem afegão e seu interprete . Tarik sofre ameaças de morte e vive com a irmã, também amedrontada com a possibilidade de ser morta a qualquer momento. Os irmãos representam o Afeganistão jovem e com o ideal de viver em paz, trabalhar, estudar e fazer uma História diferente.  À medida que a narrativa evolui, Jesper e Tarik desenvolvem respeito mutuo e amizade, o que levará à história a dimensão humana das diferenças entre culturas e do impacto dramático das decisões nesse contexto. 



O filme tem um cenário de conflito bélico. O cenário é mais inóspito e bruto. Tem o suspense da eclosão de uma tragédia a qualquer momento, porém é bem diferente da tensão e dos recursos narrativos de Guerra ao Terror, ainda que use de um ambiente no Oriente Médio. Pela narrativa, percebe-se que a diretora não tinha a intenção de fazer as escolhas de Kathryn Bigelow mas trabalhar muito mais no conflito pessoal de Jesper: o de ter perdido o irmão em uma guerra, tomar a decisão de voltar ao campo inimigo e demonstrar a humanidade de sua escolha. As melhores cenas nascem dos diálogos entre Jesper e Tarik e, também, da escolha bem acertada do roteiro ao criar um laço de afeto e de dependência do idioma entre o soldado e o interprete, fato que aproxima Tarik, jovem civil e do povo, mas já afetado por uma guerra ao perder o pai e ser perseguido por inimigos. Certamente, sem Tarik, o filme não teria o mesmo efeito, principalmente na carga emocional.


Entre Mundos tem um excelente trabalho de fotografia e uma direção bem realista, comum no trabalho da cineasta; porém, é diferente de Quando Partimos ao não entregar a mesma qualidade dramática. Ele poderia ter sido melhor desenvolvido na complexidade dos personagens e de como eles reagem àquele lugar. Há tentativas de aprofundar os conflitos que deixam um rastro de perguntas sem respostas ao expectador e que indicam que, provavelmente, essa foi a intenção da diretora. No geral, embora provoque um choque claro de como a realidade afegã é de aprisionamento e como os cidadãos com pensamentos de união, esperança e liberdade de ir e vir e de ser feliz em sua pátria sofrem as consequências dessa brutalidade, o filme deixa a brecha de que talvez caiba a nós perceber que as coisas são como são e que o filme não poderia ter entregue nada diferente a não ser essa contínua reflexão sem respostas claras e a de que há certa fatalidade na vida dos civis em conflitos do Oriente Médio.






Ficha técnica do filme: ImDB Entre Mundos

Mais um ano, tive o privilégio de acompanhar o Festival de Cinema Francês , um evento que traz o que há de mais moderno e inédito na Ci...



Mais um ano, tive o privilégio de acompanhar o Festival de Cinema Francês, um evento que traz o que há de mais moderno e inédito na Cinematografia Francesa e ocorre em várias cidades do país.  Se há um evento de Cinema que me faz bem, esse é o Varilux por duas simples razões: Não é um festival afetado por algumas n pessoas que são do Cinema ou da Imprensa e agem como semi-deuses. Você chega lá e aprecia como um ser comum, se quiser até com cara de blasé, o seu cineminha e ainda tem o privilégio de encontrar uma audiência mais educada que ficará quieta e não vai fazer aquele barulho insuportável durante a sessão. Outro motivo é o melhor: assistir filme francês é sempre divertido. De repente, o filme te tira daquele cotidiano chato, te leva para Paris ou outra região da França e sua vida parece Francesa por algumas horas. Você começa a rir como um francês e acha tudo aquilo um relaxante entretenimento. Além disso, até o mais dramático dos filmes, há um certo humor trágico, aquele que aceitamos por sermos humanos demais. É bom demais! Adoro esse vigor contemporâneo do cinema Francês.


Como uma cinéfila que faz alguns sacrifícios de tempo e dinheiro, arrumei um espaço na agenda, selecionei 8 filmes de minha preferência e fui lá na Região da Avenida Paulista. Esse ano, em São Paulo, só 4 Cinemas apresentaram o Festival, o que acho pouco para uma cidade como São Paulo, mas isso já é outra história delicada, a da distribuição e da espera pelo lançamento do filme na estreia oficial, tudo isso faz parte de curtir Cinema no Brasil, há que ter paciência. No geral, o Festival foi bom e não tenho do que reclamar, salvo que poderiam ter colocado algumas sessões como  a de Antes do Inverno e a de O passado em salas maiores, como por exemplo, colocar essas sessões na sala 2 do Cine Livraria Cultura é um desperdício e os ingressos se esgotam rapidamente, além disso, as entrevistas realizadas na sala 1 do Cine Livraria Cultura tem que ocorrer com a luz ligada. O público mal consegue ver a cara do artista ou tirar uma foto boa, como foi o caso da entrevista de Isabelle Huppert. Também penso que o Festival tem que criar um mecanismo de comunicar melhor a riqueza cultural do Cinema Francês, uma lacuna que ocorre muito com o Cinema de Arte ou mais cult em um país no qual as pessoas tem mais acesso ao blockbuster. A impressão que tenho é que somente quem é muito apreciador de Cinema ou da língua Francesa é que frequenta esse tipo de evento.


Desta vez e, modéstia de Madame à parte, tive ótimo bom gosto e escolhi filmes agradabilíssimos, sobre os quais falarei a respeito em outros posts: Um amor em Paris (de Marc Fitoussi) e uma Relação delicada (de Catherine Breillat), com Isabelle Hupert, Antes do Inverno (de Philippe Claudel), Lulu, nua e crua ( de Solveig Anspach), O Passado (de Asghar Farhadi), Eu, mamãe e os Meninos ( de Guillaume Galliene, da Commedie Française e vencedor do Cesar),  Yves Saint Laurent (de Jalil Lespert) e uma viagem extraordinária (de Jean-Pierre Jeunet). Não assisti em tela grande Os incompreendidos de Godard, um dos homenageados do Festival; com certeza, uma heresia, mas nem tudo é perfeito na vida. De todos os filmes, os imperdíveis que você tem que assistir quando estrearem é:  O Passado, Eu, mamãe e os meninos, YSL e uma viagem extraordinária. Asghar continua um diretor que entrelaça o expectador em um cenário de conflito familiar e moral, que a tendencia é o público ficar pensando naquela história por dias. Galliene é fantástico com um tino para o cômico e o dramático com muita versatilidade, trabalhando bem tanto em Eu, mamãe e os Meninos como em Yves Saint Laurent. Por falar nesse último, ele é de uma beleza plástica e emocional, com uma maravilhosa direção de Arte, que faz  a gente correr para ler a  história da moda e tentar compreender melhor o icônico estilista YSL. Para encerrar com chave de ouro, Jeunet, o queridíssimo diretor do amado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain retorna para mais uma viagem. Seu filme é de uma graciosidade ímpar sem deixar aqueles momentos criativos de lado.

Como bônus, encontrei a magnífica Isabelle Hupert na entrevista concedida antes da exibição de Um amor em Paris. Bastante objetiva e de poucas palavras, ela foi a reencarnação da madura mulher Francesa: elegante, discreta, direta. Confesso que, em alguns momentos, achei que ela poderia ter sido mais simpática e educada na forma que respondia, mas no final, a experiência foi agradável e inesquecível, afinal ela é Francesa e franceses costumam ser mais diretos e autênticos em como se comunicam. Ela é um luxo de qualquer jeito e uma atriz tão fantástica que, ao olhá-la, fiquei imaginando como ela consegue ser tão simples e tão majestosa. Ser simples, refinada e talentosa é uma grande virtude, somente uma virtude de grandes estrelas. 

Merci!



Uma das melhores demonstrações de amadurecimento de um ator no Cinema é quando ele consegue inverter a visão medíocre que as pessoas...






Uma das melhores demonstrações de amadurecimento de um ator no Cinema é quando ele consegue inverter a visão medíocre que as pessoas tem sobre o trabalho dele(a). Sob esse aspecto, podemos dizer que Matthew McConaughey é a grata surpresa de 2013. Após Matthew ser muito conhecido por atuações em comédias românticas como  Como perder  um homem em dez dias, Armações do amor, minhas adoráveis ex-namoradas, entre outras, agora ele é o cara da vez com atuações bem mais complexas e sólidas. Fez uma ponta avassaladora em O Lobo de Wall Street como Mark Hanna na qual bastaram alguns minutos relâmpago para brilhar ao lado de Leonardo di Caprio e atua como protagonista em Clube de Compras Dallas, drama dirigido por Jean-Marc Valléé, no qual faz o papel de Ron Woodroof, um mulherengo e homofóbico eletricista e peão dos Texas que, após ter uma vida sexual muito intensa e sem uso de preservativos, contrai o vírus do HIV e luta contra a doença. Elevando a sua sobrevivência a um nível além de si mesmo, ele começa a pesquisar sobre a AIDS e funda um Clube de Compras para ajudar outros doentes a viver, batendo de frente com autoridades médicas e legais. 



O roteiro do longa é bem original. Outros filmes já trataram da luta pela sobrevivência em tempos de Aids e, principalmente abordaram preconceitos e percalços vividos por seus protagonistas, porém o roteiro coopera para que  Matthew eleve o filme à um drama ligeiramente mais visceral, muito realista e sem muitas papas nas línguas. O ator se entrega ao seu Ron e essa dedicação o torna um monstro na atuação, muito autêntico, versátil, com ritmo na atuação e senso de humor. Embora Ron seja um homem machista e homofóbico, muito coerente com uma cultura texana de homens rústicos e àquele ambiente mais brutal no qual homens participam de rodeios, bebem e pensam em sexo, ele não esconde os seus preconceitos, o que indica uma sinceridade com o público. Se no começo do longa, isso pode chocar o expectador, por outro lado, o desenvolvimento do personagem é muito bom. Ele é real, nada mascarado e, ser assim faz parte da transformação humana que a doença lhe trará. Para ele, Aids é doença de gays e, com isso, uma das belezas do filme é que ele se aproxima exatamente de quem criticou, quebrando o paradigma e convivendo com outros homossexuais. Seu personagem é forte e decidido e tem um senso de humanidade ocultado que, à medida que ele ajuda a si mesmo e outros doentes, principalmente com sua parceria e amizade com Rayon (Jared Leto), o filme cresce junto com eles e sua humanidade vai sendo revelada. Matthew arrasa de forma tão humilde e memorável que já ganhou o Globo de Ouro e o SAG de melhor ator principal e está concorrendo ao Oscar na mesma categoria.



Ao descobrir que tem AIDS, Ron tem um insight para sobreviver. Ele se recusa a aceitar a morte em 30 dias. Sua luta pela sobrevivência o mobiliza a buscar soluções autônomas. Ele se torna um tipo de 'fora da lei', por assim dizer, ao importar medicações não legalizadas nos Estados Unidos e vendê-las como um coquetel de proteínas, vitaminas etc. Ele torna a automedicação um negócio lucrativo, mas a grana aqui é o que menos importa, o mais relevante é sua ação contra o status quo. Ao fundarem um  Clube de Compras, no qual cada doente em tratamento tem a liberdade de pagar uma adesão e receber a medicação que deseja, o filme abre uma discussão  bastante controversa sobre o uso de drogas para tratar doenças sem cura. Em alguns de seus vários subtextos, é possível refletir sobre o porquê a indústria farmacêutica  pode aprovar e comercializar remédios, a classe médica pode testá-los em cobaias humanas e o indivíduo comum não pode ter a liberdade para escolher o próprio tratamento, muitas vezes se submetendo a experimentos médicos que deixam o seu sistema imunológico devastado. O contexto do filme relata pesquisas com AZT, uma medicação para tratamento de pessoas com AIDS que ainda estava em pesquisa e debilitava o organismo. Ainda que o foco do filme não seja falar diretamente como uma crítica à indústria farmacêutica e sim focar mais na jornada de Ron e seus esforços, o longa é fantástico ao discutir o tratamento em um patamar "não políticamente correto" já que a atitude de Ron como sobrevivente é muito mais nobre do que discutir se seu negócio é ilegal e seu comportamento é ilícito.


Como uma dupla maravilhosa de atores, Matthew e Jared merecem o hype que está sendo feito na época de premiações. Tidos como bons atores, mas sempre trabalhando no geral em filmes mais medianos, eles elevam Clube de Compras a um nível dos dramas bem construídos e interpretados e que vale cada minuto de exibição. Ambos são um exemplo recente do que faz um bom drama: muito mais do que sua história e direção, é a capacidade do elenco de expressar a força dramática de seus personagens e emocionar a audiência, tornar a história um espelho de uma real vivência humana por mais dolorida e desafiadora que seja. Ron não perde sua essência como o machão texano, porém aos poucos é nítido ver o afeto que ele e Rayon desenvolvem como uma amizade. A ideia de que, no final, estamos no mesmo barco e queremos só viver é o alicerce dessa dupla ainda que tenham suas diferenças. Transformar essa sobrevivência em um business não é hipócrita e egoísta, é ter a opção de buscar saídas que não favoreçam somente um ou outro e construir a vida que a doença está negando para todos. Em uma das falas mais contundentes e belas de Ron, ele diz algo como se estivesse construindo uma vida que não será capaz de viver. Essa fala simples e profunda explica muitas coisas do filme e, em especial, que só temos uma vida, podemos decidir vivê-la  mesmo quando todos já acham que estamos mortos.








Ficha técnica do ImDB

Stephen Frears é um ótimo cineasta britânico. Não tem como duvidar de sua virtuosa capacidade de ser prático e versátil ao filmar bon...




Stephen Frears é um ótimo cineasta britânico. Não tem como duvidar de sua virtuosa capacidade de ser prático e versátil ao filmar bons roteiros com excelentes atrizes, tanto no drama como na comédia. Em seu currículo, dirigiu Glenn Close e Michelle Pfeiffer em Ligações Perigosas, Audrey Tautou em Coisas belas e sujas, Helen Mirren em A Rainha, entre outras. No seu mais recente longa Philomena, ele nos entrega mais um exemplar de seu excelente trabalho ao dirigir uma das mulheres mais apaixonantes da Inglaterra: a magnífica Judi Dench, que interpreta Philomena, uma senhora que busca o filho perdido que lhe foi tirado há 50 anos. Para essa jornada, ela conhece o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan). Considerada uma comédia dramática, o filme concorre a 4 categorias ao Oscar (melhor filme, atriz (Judi), roteiro adaptado e trilha sonora (Alexandre  Desplat)) e venceu o BAFTA de melhor roteiro adaptado.


Baseado em uma história real, Philomena é um filme singelo e igualmente poderoso. Nisso está um dos seus charmes: a capacidade de falar de uma história triste sem perder o senso de humor tipicamente britânico e a oportunidade de mostrar o moralismo religioso e social.  Stephen Frears o dirige com toda a sutilidade  que lhe é própria, porém não deixa de escancarar o quanto a sociedade é cruel nos interesses de algumas instituições como a igreja e a mídia. Embora não é o objetivo do roteiro e da direção pegar tão pesado ao falar das instituições, principalmente da igreja católica, é possível perceber como os costumes e formas de pensar rígidas  influenciaram diretamente a forma como Philomena perde o filho, a carga de pecado que ela carrega e que a silenciou por 50 anos e como ela foi punida pela rigidez de uma instituição. Sobre a mídia e a política, as menções são realizadas brevemente como, por exemplo, o interesse mais 'comercial' de uma editora na publicação da história de Philomena e o fato de um homossexual que trabalha para o partido republicano não poder divulgar abertamente sua orientação sexual. Essa forma de abordar a história com humor e drama e com um tipo de denúncia social é muito bem realizada por Stephen Frears. Ele usa seu dom de contar histórias com requinte e humanidade. Mais ao final do filme, é possível ver que tal escolha é tão elegante e permeia a história através da conduta da personagem. Philomena daria uma lição de vida até a um Santo. 


Steve Coogan é um bom ator. Seu personagem, um jornalista com experiência em jornalismo político e com o desejo de escrever um livro sobre  a História da Rússia, tem um perfil interessante para o contexto da história porque ele interpreta um homem mais racional e ferido em seu orgulho e autoestima após ser despedido da BBC .  À primeira vista, ele não deseja fazer nenhuma história de "interesse humano", chegando a ser grosseiro. Como boa parte dos jornalistas, ele é mais objetivo, focado em fazer perguntas e obter a matéria, porém com o tempo, é daqueles que ligeiramente se transformam em uma pessoa mais humanizada. Com Judi Dench, ele faz uma excelente dupla porque cada um tem o seu brilho próprio. Ele não se intimida  mediante o grandioso talento da atriz e faz a sua parte e, o melhor, Judi é uma dama tão refinada e solidária  que não ofusca Steve, que é também o produtor e o roteirista do filme.



O  que torna o longa imperdível é a atuação de Judi Dench e como ela representa a Philomena, revelando a esperança, a dor, a culpa e as dúvidas que uma mãe teria nessa situação.  Uma história, aparentemente dramática para uma mãe castigada pela ausência do filho , é muito bem humorada porque ela dá esse tom e suaviza as cenas com uma sublime simpatia. O humor de Judi é refinado e com um carisma incrível, abrindo caminho para que haja uma empatia com sua personagem e dor materna. Ela faz rir e faz chorar e nada disso se torna um dramalhão pesado. O domínio próprio dela para equilibrar tais emoções é uma habilidade somente das grandes estrelas do Cinema. O humor britânico é mais sarcástico, porém em Philomena, ele é muito bem dosado. Ele é leve e agradável porque Judi tem muita maturidade como atriz, mantém a elegância e a simplicidade, o que só ressalta como ela é uma legítima dama, dentro e fora do set. Não há como não adorá-la e, portanto, a conexão com a história de Philomena é imediata e emocionante.





Ficha técnica  no ImDB





Quando se fala em direção de Cinema, cineastas têm a influência de outros diretores em sua formação e experiência desde os anos de fac...




Quando se fala em direção de Cinema, cineastas têm a influência de outros diretores em sua formação e experiência desde os anos de faculdade e/ou no início de suas Cinefilias. Se por um lado, inspirar-se no estilo de um aclamado diretor ao fazer um filme é uma escolha admirável que pode ser interpretada como uma homenagem ou um desafio pessoal, por outro lado é uma escolha arriscada que pode criar lacunas na direção, comparação entre os diretores  e uma impressão de que o filme poderia ser bem melhor e  merecia ter um estilo próprio de direção. Esse é o caso de Trapaça (American Hustle), de David O Russell, um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme e melhor diretor e uma evidente demonstração de uma tentativa de fazer um filme Scorsesiano. Nisso reside a "faça de dois gumes" de imitar o estilo de um grande diretor, o filme é bom, bem humorado, estiloso e  David  foi corajoso, porém em comparação aos seus outros filmes e analisando o histórico de sua direção, fica a incógnita: Qual é o estilo próprio de David O Russell? Ele ainda não tem um estilo como marca pessoal do seu Cinema. Ter emulado o Cinema de Scorsese só ajudou a não dar essa resposta.


Trapaça fala sobre sobrevivência na década de 70, mas o roteiro é tão atual com relação à corrupção como ganho de propinas entre políticos e mafiosos e golpes financeiros em gente endividada, que essa é uma história contemporânea e atrativa por caber em muitos contextos. Para sobreviver, trapaças são necessárias ou não, depende de quem entra no jogo e até quando se deseja jogar.  No longa, Irving Rosenfeld (Christian Bale), casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence), é um golpista influente que ganha direito fácil com sua charmosa e perspicaz amante Sydney Prosser (Amy Adams). Ambos vendem obras de arte falsificadas e tem um escritório de concessão de falsos empréstimos. De golpe em golpe, Irving e Sydney sobrevivem como almas gêmeas até que são pegos pelo agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper) e são forçados a ajudá-los em ações para flagrar políticos corruptos e a  máfia em esquemas de favores políticos e ganho de propinas, um desses políticos é o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) .A dinâmica do filme é toda elaborada para mostrar a reviravolta que a chegada de Richie significa: de um lado, o agente do FBI tem um ego bem inflado, deseja pegar os peixes graúdos e tem certa admiração pela dupla. Richie também quer sobreviver. Por outro lado, Irving e Sydney não tem saída e vê o relacionamento amoroso abalado. Acabou-se o sossego de pequenos golpes e a bola da vez é entrar nos planos do FBI e se arriscar.


Trapaça tem o seu charme e isso é um fato que deve ser reconhecido. Além de um roteiro sobre sobrevivência e todos precisam sobreviver em um mundo cada vez mais incontrolável e corrupto, tanto que concorre ao Oscar de melhor roteiro original, muito do charme é ser influenciado pelo Cinema de Martin Scorsese e pelo bom gosto de David O Russell que soube fazer boas escolhas na direção de Arte e na trilha sonora. Com excelentes direção de Arte e o Figurino, categorias pelas quais o filme também concorre ao Oscar, Trapaça tem uma pegada irreverente e pop que possibilitam que o expectador seja transportado para os anos 70 e queira vivenciar essa icônica moda. Na trilha sonora, assim como Scorsese, ele usa bastante recursos musicais para criar uma conexão emotiva do público com os personagens em momentos mais pessoais e emblemáticos nos quais a música é o próprio personagem e tem uma função narrativa relevante, tanto que há dois em especial com o uso de grandes clássicos de Bee Gees e Wings, respectivamente, quando Jennifer Lawrence chora ao som de "How can you mend a broken heart" e limpa a cozinha ao som de "Live and let die". 


Existe outro aspecto virtuoso em Trapaça que está diretamente relacionado ao elenco de grandes estrelas,  virtude que assegura a salvação de boa parte do longa e, muito provavelmente, ajudou o cineasta a cumprir sua visão. Esses atores são fetiches de David O. Russell e já trabalharam anteriormente com ele em filmes com O Lado Bom da Vida (Robert de Niro, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence) e O Vencedor (Christian Bale e Amy Adams). Se por um lado, as atuações são boas, com destaque para  o amadurecimento de Amy Adams,  naturalmente deslumbrante a cada cena com seu cabelo de leoa e seus seios quase à mostra,  por outro lado o mérito das atuações são mais dos atores e do quanto eles já estão acostumados a trabalhar juntos do que do diretor. Esse é um outro aspecto da "faça de dois gumes" em se trabalhar com atores em sistema de parceria porque questiona-se até que ponto o mérito é do ator ou do diretor. Aqui, é mais das atrizes que sustentam a narrativa.



É bastante  perceptível que David O . Russell poderia ter feito um trabalho excepcional de direção de atores e desenvolvido melhor os personagens. Ainda são um pouco rasos para um filme inspirado pelo estilo de Scorsese. Por mais que haja um ingrediente cômico em cada figura, o resultado das interpretações é mais de entretenimento e muito pouco dramático. De certa forma, o que frusta os mais atentos é que esses personagens tinham riqueza  e complexidade dramática para explorar suas tragédias pessoais, ainda que de forma mais bem humorada. Faltou mais de Scorsese nesse aspecto. Quando se pensa no Cinema Scorsesiano, há muito mais habilidade de direção de atores para equilibrar o cômico e o trágico, basta lembrar do Tommy Devito (Joe Pesci) em Os Bons Companheiros ou Rupert Pupkin (Robert de Niro) em O Rei da Comédia. Todos complexos e acessíveis. A Rosalyn de Jennifer Lawrence tem um pouco mais de drama cômico, seu personagem é muito interessante como uma mãe solteira, jovem e instável emocionalmente, o que a torna uma coadjuvante essencial para o crescimento da narrativa e explica o porquê ela tem sido elogiada pelo trabalho. Rosalyn dá um rumo diferente aos fatos e é a que mais se desenvolve em sua condição. Sem ela, não seria possível dinamizar e evoluir a narrativa a partir de certo ponto da fita. Com muita habilidade da atriz, há um senso de frágil humanidade em Rosalyn que a torna mais próxima do público e, portanto, fundamental à trama. Entre as melhores contribuições estão as de sua personagem e, no geral, ela e Amy Adams são as estrelas do filme.


Trapaça é bom e é uma bela homenagem à Scorsese. David O . Russell não perdeu a oportunidade de abusar da música, dos típicos movimentos de câmera e da narração em off. Ele não deixou de usar hábitos de direção de Scorsese como close ups em objetos, cena em bar na qual a câmera vai apresentando vários tipos com cortes para várias direções e falas e aquela gritaria comum que só os Scorsesianos entendem, porém, doa a quem doer, ainda está longe de ser um filme de Scorsese. Ainda que talvez essa não tenha sido a intenção do diretor, mais importante do que ser influenciado por um mestre na direção é ter o próprio estilo. David O Russell é muito competente e talentoso mas sem uma marca particular na direção, falta-lhe algo que é sua voz particular como cineasta, aquela voz que é capaz de ser reconhecida de forma atemporal e pelos que o seguem em seus filmes. Nesse aspecto, ele continua sendo uma incógnita e, portanto, deve procurar sua missão no Cinema.






Ficha no ImDB

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