quinta-feira, 21 de julho de 2016

Agnus Dei (Les innocentes, 2016), de Anne Fontaine




"São vinte quatro horas de dúvida e um minuto de esperança" 
(irmã Maria, interpretada por Agatha Buzek)




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


Baseado na história real da jovem médica Madeleine Pauliac que, em 1945, foi nomeada médica- chefe do hospital de Varsóvia para o repatriamento da Cruz Vermelha Francesa, Agnus Dei de Anne Fontaine, é uma das obras mais fascinantes lançadas em 2016 e foi um dos destaques da última edição do Festival Varilux de Cinema Francês


Com produção dos irmãos Altmayer, que respondem por grandes produções francesas como as de François Ozon, com a musa da nova geração europeia de talentosas atrizes, Lou de Laâge (de "Respire") e a solidez interpretativa de Agata Kulesza ( de "Ida"), Fontaine realiza uma esplêndida junção entre imagem solene e contemplativa, a intensa dramaturgia dos brutais efeitos da violência física e psicológica de mulheres de um convento, estupradas  por soldados soviéticos na Polônia de 45, e a iluminadora esperança que supera a dor, o desespero e a dúvida. 







"Ela tem uma beleza muito intensa, muito particular; e ela tem uma graça pessoal.Eu senti que essa graça, junto com um lado muito combativo que ela possui , além de um frescor e uma fragilidade que percebemos aflorar, seriam proveitosos para o filme."  (Anne Fontaine sobre Lou de Lâage)




Segundo relatos de pesquisa de Anne Fontaine sobre os fatos históricos, mais de 25 delas foram violentadas nesse convento, muitas outras mulheres, mesmo estando grávidas ou prestes a dar a luz, foram violentadas. O horror contra a mulher em tempos de guerra é uma realidade dramática  não apenas em 1945 mas também em outros contextos modernos, portanto Agnus Dei é um drama social universal e que deve ser visto e admirado por sua força dramatúrgica.


Com roteiro de Fontaine, baseado na história de Philippe Maynial, sobrinho de Madeleine Pauliac, Mathilde (Laâge) é a médica da Cruz Vermelha, encarregada apenas de cuidar de feridos franceses da guerra, entretanto, é levada a conhecer a brutalidade sofrida pelas irmãs. Entre a razão e a emoção, a ciência e os mistérios da fé, ela decide ajudar essas irmãs após a permissão da Madre Superiora (Kulesza), desenvolvendo também uma bela amizade e mútuo respeito pela irmã Maria (Agata Buzek).







Essas irmãs não apenas foram violentadas por  homens que consideravam  os estupros prêmios de guerra, mas também muitas ficaram grávidas. Nisso está uma das principais consequências do estupro, uma dor que marca a memória, o psicológico, o físico. O que deveria ser a alegria  da maternidade é transformado em emoções contraditórias, considerando que, a fé e espiritualidade, seja no Cristianismo, seja em outras religiões, pressupõe uma valorização da vida, respeito e amor ao outro. No caso dessas irmãs, carregar uma gravidez as leva, ora à vergonha, ora à dúvida, ora à possibilidade de gerar um filho e revelar o amor através da maternidade, ora ao sentimento de que foram abandonadas por Deus. São essas complexas linhas dramatúrgicas do roteiro que enriquecem a história e são fascinantes como drama feminino. 



Não há como passar indiferente ao trabalho de Anne Fontaine, que realizou  "Coco antes de Chanel" e "Gemma Bovery" e está continuamente em atividade cinematográfica. Ela tem um genuíno interesse por histórias sobre mulheres e protagonizadas por mulheres e sabe trabalhar muito bem com o poder da imagem e de como a fotografia, as locações, a trilha sonora, o design de produção e as atuações femininas estão acima da pura contemplação. Seus filmes são visualmente bonitos, revigorantes e cuidadosamente bem fotografados, e também, são filmes que as mulheres têm um brilho e força naturais. 


Com Agnus Dei, ela viaja para a Polônia, dirige atrizes polonesas, seleciona um elenco protagonista de forte sensibilidade e compromisso com os personagens e alcança um patamar de superação como cineasta. Ela corrobora o diferencial do seu filme e suas motivações: "Eu queria entender de perto o que aconteceu no interior daqueles seres humanos, narrar aquilo que é indizível. A espiritualidade tinha que estar no coração do filme". Ela realmente conseguiu entregar um drama mais maduro como Cinema independente.






"Como compreender o sentido da vida em meio a semelhante caos?  Como sobreviver à  violência que também marcou brutalmente a carne  das religiosas polonesas? Como julgar a fé delas, que parece sobreviver a uma prova tão dolorosa? (...)  Existe, eu acho, algo fascinante em inventar um novo caminho  quando tudo parece não ter saída." (Anne Fontaine)



Uma questão essencial de Agnus Dei é : como transformar trevas em luz? Dor e desespero em esperança e afirmação da vida? Como continuar a viver após uma violência que não será extraída da memória, que deixa marcas no corpo? Nesse sentido, durante toda a projeção, todas são heroínas, mas há  uma em específico: Mathilde. Não a veremos como a que se converterá ao Cristianismo, pelo contrário, ela é uma médica que conserva o ofício científico, porém, com graça , empatia e coragem. É por isso que sua  personagem é magnífica, humana e essencial para percorrer o cotidiano dessas mulheres. Muito mais do que cuidar de sua saúde e realizar os partos, o ponto de vista de Mathilde deveria ser o de todos nós, uma postura combativa, firme, corajosa.



Espiritualidade é diferente de religião, portanto, Mathilde está acima de credos e poderia facilmente conviver com variadas crenças. Ela é o ápice da consciência sobre o valor do amor, da compaixão e da vida, sempre com vias a ajudar o próximo. Dessa forma, a valiosa contribuição de Agnus Dei é perceber que, mesmo em tempos tenebrosos, a revolução humana é sutil e poderosa. Ela está na mente e, também, no coração. Ela é impulsionada por um senso de fazer o bem e encontrar soluções, dar o primeiro passo ainda que as condições não sejam favoráveis e que hajam questionamentos e dúvidas.





Contar os variados momentos de iluminação do filme seria entregar o melhor do que ele tem. Descubra isso! O que impressiona e enaltece o valor dessas irmãs é que, por mais que suas escolhas pela fé e pelo enclausuramento são uma manifestação de leal sacrifício, e Fontaine não deixa de apresentar o cotidiano de cantos em latim, rigidez e disciplina de suas tarefas, em diversas e belas cenas, o Cinema registra a humanidade dessas mulheres que, independe de religião. 


São mulheres  que sentem dores físicas e psicológicas, que preenchem a tela com sorrisos e lágrimas, com trabalho e recolhimento, e que não deixam de expor seus dramas individuais. Nesse aspecto, o roteiro de Fontaine equilibra a objetividade, a sensibilidade e, de uma forma bastante articulada, as características das personagens coadjuvantes. Algumas terão um papel relevante em cenas que demonstram a dúvida e o livre arbítrio, o que amplia o campo de visão humanista do espectador. Nesses conflitos,  a atuação de Kulesza é formidável e desperta uma relevante compreensão pelas particularidades dramáticas de seu personagem.


Finalmente, apoiado pela fotografia da excepcional Caroline Champetier, parceira de trabalho de longa data de Fontaine, com a atuação crível de um fascinante elenco feminino e uma execução bem madura, Agnus Dei é um filme que naturalmente impõe respeito e empatia como drama social que não abandona as individualidades presentes nesse convento. Nem mesmo um elemento masculino humanitário e com senso de humor, o médico de origem judia e companheiro de trabalho de Mathilde, Samuel (Vincent Macaigne), deixa de ser incluído, considerando que sua família sofreu os horrores dos campos de concentração e ele contribuiu para o amadurecimento  da médica.


Em diferentes cenas, ações improváveis, tomada de decisões necessárias, conflitos existenciais contundentes, palavras honestas e cortantes e silêncios  reforçam as imagens como  lugares de expressão das vulnerabilidades e compaixões humanas. São essas mesmas imagens que provêm  a força dramatúrgica para buscar a consciência e a luz, encontrar o seu lugar, tomar uma atitude que requer sacrifícios, domínio próprio e ação. Agnus Dei é mais luz do que trevas, é a morte transformada em vida.


Ficha técnica do filme Imdb Agnus Dei

Estreia nos cinemas Brasileiros: 14 de Julho
Distribuição: Mares filmes

Trechos de entrevista e fotos: 
uma cortesia press book via Mares Filmes


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