quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Academia das Musas, de José Luis Guerin





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


O belo título do novo filme de José Luis Guerin, realizador espanhol que explora as fronteiras entre a ficção e o documentário, soa suavemente como poesia sedutora que abre caminhos para o desejo, o sonho, o encantamento. Assim como o universo literário de heroínas apaixonadas, sensuais e trágicas, "A Academia das musas" atraí o espectador para um labirinto de constantes flertes para um tesão intelectual. Não a intelectualidade vazia , exibicionista e arrogante, mas aquela que se perde em discursos, reflexões e experimentalismos com o propósito de se encontrar. O que é então o ser humano? Um grande mistério e uma sequência de tentativas de sobreviver com mais consciência e poesia.
 
 
 
 
 
Dirigido como um híbrido longa no qual convergem a ficção e a não-ficção e um importante repertório da Literatura do século XVI, "A Academia das Musas" é um convite a um microcosmo social no qual tudo pode ser verdade ou uma mera ilusão.  Raffaele Pinto, um professor de Filologia da Faculdade de Barcelona, conduz discussões sobre a Literatura e a Poética do Amor com um grupo de alunos amplo e diverso. Entre eloquentes discussões, o diretor enfoca algumas musas que se dedicam a esta inebriante experiência aplicada ao mundo moderno e sua regeneração, além de cenas entre o mestre e sua esposa. Estas mulheres farão a diferença em uma contemporaneidade ainda patriarcal? Elas serão inspiração para o ideal poético em uma sociedade que nem sempre sabe lidar com seus conflitos básicos nas relações humanas? A cada cena, Guerín deixa o filme inacabado, o que abre lacunas para infindáveis interpretações e digressões quando o espectador deixar a sessão.
 
 
 
Neste fascinante exercício cinematográfico que instiga pelo poder e dinamismo das palavras e as tênues fronteiras entre o registro documental e a ficção, o melhor é que  Guerin constrói um filme que deixa variadas janelas abertas para a reflexão sobre a Mímesis e o desejo, como eles se atraem em toda a labiríntica e atraente jornada neste fértil ambiente acadêmico. Assim como brilhantes discussões em determinadas aulas nas universidades de Humanidades, a beleza do diálogo está  no poder da linguagem e em como ela é construída e articulada para produzir significados valorosos, práticos e renovadores. Como bem dito pelo diretor, "Como muitas vezes pode acontecer nos filmes "O que surpreende não é "o que acontece" nem "o que é dito", mas "como isso acontece" e "Como as coisas são ditas". As coisas só fazem sentido por ocorrer de uma determinada maneira, por ser contado de uma maneira particular: uma maneira de dizer, sugerir, insinuar. Uma pausa, um olhar, um gesto, uma rima."
 
 
 
 
Permito-me agora continuar discorrendo pela minha própria análise  crítica, de forma híbrida, alterando este texto para a primeira pessoa (algo que não costumo fazer em minhas críticas) e combinando minha experiência pessoal com a Literatura Clássica, e como o filme é tão sedutor, intelectualmente afrodisíaco e com forte base no desejo mimético. Há alguns anos atrás, estudava na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Durante as aulas de Literatura Clássica sobre a "Arte Poética" de Aristóteles, lembro-me de que o professor relacionava a capacidade de imitação e emulação da Arte, em especial como os princípios Aristotélicos influenciaram a  Literatura  e são uma das bases da Linguagem na produção de significados.
 
 
 
 
 
O professor Raffaele Pinto: Professor bem intencionado
ou um sedutor das musas a mostrar o seu próprio poder?
 
 
 
Era um momento de extrema sedução. Diferentes pontos de vista verbalizados e entrecortados por silêncios e inquietudes, conflitos entre a Poesia e a Ficção, entre o Amor e o Desejo, pensamentos ligeiros com os altos e baixos das paixões, tentativas de compreender o lugar comum da Literatura e o que seria uma forma extraordinária de fazer a diferença com a palavra, a realidade e o sonho. Não havia respostas instantâneas e óbvias, apenas um intenso desejo de se apoderar daquelas discussões filosóficas e literárias,  de voltar para a casa e devorar as leituras clássicas, de trazer o ideal poético ao cotidiano e transformar o mundo, de inspirar homens, poetas, artistas, de sentir prazer com este tipo de poder, que é a palavra transmutada em Poesia, Arte e renovação.
 
 
Como acontece no longa, a figura do professor Raffaelle Pinto também exercia um forte poder sobre as mulheres, especialmente à minha pessoa, como se ele e a infinita capacidade da poesia de adentrar a minha alma fossem o meu maior desejo naquelas preciosas horas. Eu queria ser desafiada a pensar e debater as ideias ainda que não tivesse background literário amplo! Eu sentia muito prazer ao ouvir o professor falando sobre poesia. Era um prazer intelectual, um desejo de que aquelas palavras penetrassem o meu corpo como o sexo e me levasse a um gozo transcendental. Diante destas nostálgicas memórias, em diversos momentos da projeção do filme, eu me vi como uma musa  ( e na mais modesta e natural expressão que lhes confesso isso). Lembrei de tantas musas e heroínas da ficção, dos arquétipos de deusas citados por estudiosos da Psicologia Junguiana  e das mulheres comuns e batalhadoras que deixam o mundo mais sensível, empático, apaixonante, humano. Todas inspiradoras e partes da minha contínua formação humanista , da minha apaixonada alma feminina.
 
 
 
 
 
Desta forma, em "A Academia das musas", Guerín me guiou a este caminho de estimulante intelecto, capaz de fazer uma mulher se perder e se encontrar no dinâmico e arrebatador jogo de palavras entre professores e alunas, e entre estas e outras alunas e pessoas,  de inspirá-la a um encontro consigo mesma, a estar aberta ao questionamento e à reflexão sobre o seu próprio papel na sociedade e até mesmo a manipular a palavra para satisfazer seus desejos e ego. Não há limites para a linguagem, seja ela no Cinema, na Literatura ou em qualquer outra representação da Arte, e este belo tesouro cinematográfico deixa o espectador participar dela.
 
 
Com uma plena fluidez narrativa sem apelar a técnicas de direção e montagem predefinidas e exaustivamente usadas no Cinema, Guerín é como um "Gianfranco Rosi Espanhol" no registro (apenas como analogia); porém aqui bem mais experimental, espontaneamente sem muita edição do material,  aberto a cortes abruptos e descontínuos,  cenas que funcionam como simples esboços transitórios entre planos. Ele acaba reforçando o tom ilusório da ficção e aproxima o espectador ao criar um filme também documental. Essa posição do realizador contribui para registrar o próprio desejo como Mímesis: seu filme é uma imitação de um teatro encenado? um documentário com alguns rascunhos ficcionais para iludir o espectador? É tudo realista ou uma  ficcional viagem à  reflexão poética como  ferramenta de uma idealista mudança social?
 
 
 
 
A bem da verdade é que este longa abre amplas possibilidades de compreensão  desta sociedade de mulheres obstinadas a inspirar outros como musas da Poesia, mas também mulheres de carne e osso, voltadas a seus momentos de paixão,  egocentrismo, insegurança, autoconhecimento, dúvidas e experimentos. É um filme envolvente que seduz e desafia , e que cada vez que for visto, acrescentará algo novo que não havia sido visto antes. Finalmente, "A Academia das Musas"  cresce com o poder, a beleza e o valor das palavras, um Cinema com postura ativa para a reflexão humanista.
 
 
 
 
 
Ficha técnica do filme Imdb A Academia das musas
Distribuição: Supo Mungan filmes
Estreia no Brasil: 23 de Junho de 2016
Fotos e trecho da nota do diretor José Luis Guerin,
 uma cortesia Supo Mungan
 
 
 
 
 

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