quarta-feira, 20 de julho de 2016

Riocorrente (2013), de Paulo Sacramento




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação



O primeiro longa de ficção de Paulo Sacramento (de "O prisioneiro da grade de ferro") tem a ambição narrativa de um diretor que se influenciou pelo Cinema Marginal Paulistano e tem uma ampla experiência como montador. Com roteiro próprio, "Riocorrente" é ambientado no cru e solitário macrocosmo da capital de São Paulo e enfoca um triângulo amoroso entre o ladrão de carros  Carlos (Lee Taylor), a misteriosa Renata (Simone Iliescu) e o jornalista Marcelo (Roberto Audio). Em paralelo, o menino Exu (Vinicius dos Anjos) perambula com seus pés descalços pelas ruas decadentes da cidade, cada vez mais vulnerável ao abandono, ao crime e às drogas.







É notável que Sacramento teve uma boa intenção ao preencher a tela com o esvaziamento existencial, a paralisia atitudinal e uma iminente necessidade de mudança, todos desafiadores na contemporaneidade das relações. A narrativa é rebuscada de metáforas e simbologias que começam e não terminam e têm o intuito de incomodar o espectador.  Aqui, menos importa o triângulo amoroso do ponto de vista sexual, afetivo e libidinoso, o que vale é como os personagens não fazem absolutamente nada com suas vidas frageis e entendiantes. Nem mesmo o sexo, a violência e a traição dão prazer e uma sensação de aventura e perigo, muito menos as relações humanas são desenvolvidas. São momentos de fúria e de extravasar do desejo até um gozo rápido, são pequenas lacunas temporais que explodem a intensa força letárgica que, uma vez colocada para fora, não necessariamente  é catalisada da melhor forma. A insatisfação e um contínuo deslocamento em São Paulo permanecem, o que traz uma temática contemporânea e universal a esta história.





Dessa forma, o tempo passa e os problemas humanos continuam com um engessamento de ações. Embora sob a perspectiva técnica do roteiro, Riocorrente deixa muito a desejar na primeira uma hora de projeção, por outro lado, obriga o público a levar o filme para a casa. Tecnicamente virtuoso na edição e fotografia, que garantiram prêmios no Festival de Cinema de Brasília em 2013, o roteirista e diretor perde a chance de desenvolver melhor os seus bons personagens, os diálogos e as linhas antagônicas do roteiro . Havia espaço para expressar melhor conflitos e uma relação mais simbiótica entre as pessoas e São Paulo. Cabe mencionar que, este é o ponto ame ou odeie do filme. 


É o tipo de produção que pode ser encarada como potencial para o Cinema Brasileiro: dramas mais universais, narrativas menos pasteurizadas, direção com decupagem mais lúdica e experimental, espaço para o espectador sair incomodado da sessão. Mas também, ela pode ser encarada como um ato audacioso e falho de um diretor que ainda não tem muita experiência na direção. Sacramento se inspirou em David Lynch? Talvez. A diferença é que ele não conseguiu tornar o seu experimentalismo mais envolvente, efervescente e assertivo para se comunicar com o público menos intelectual, menos "Cinema independente". Riocorrente  está no meio entre a provocação e a rejeição.  Este lado dúbio se deve ao roteiro em 60% do tempo de narrativa, que não houve bom desenvolvimento dos personagens e da relação das cenas metafóricas e simbólicas com os mesmos.



Com locações no Centro da cidade, na região da Paulista e Vila Mariana, Marginal e nas periferias, Sacramento aplica bem o repertório físico da cidade sem usar tal recurso  como muleta. São Paulo é retratada como um personagem ao lado dos demais personagens, um espaço de reflexão que está ali mais estática entre um semáforo e outro, uma boca de fumo, um escritório empresarial, uma oficina mecânica.  Para quem é Paulistano ou gosta de São Paulo, a fotografia se torna uma homenagem à cidade e suas contradições. Ainda assim, ela é cinza na narrativa e corrobora a violência, a solidão, a exclusão social e a inesgotável fonte de insatisfação com a própria existência, logo, ela se torna mais interessante do que os próprios personagens.




Com relação ao elenco, tendo em vista a natureza do roteiro,  os atores adultos são excelentes, todos com experiência teatral e críveis no pouco que lhes foi dado. A escolha por um triângulo amoroso não é tão convincente porque eles não se comunicam adequadamente e os conflitos não percorrem bem no nível passional e nas dificuldades de lidar com os amantes. Renata é uma mulher adepta de aventuras sexuais e não se prende nem a  um e nem ao outro. Perdida nas relações, não faz absolutamente nada da vida e está mais preocupada com o prazer. Entretanto, tem uma relevância: ela é um personagem que liga estes dois mundos, o do pobre e o da classe média, função que fica clara à medida que ela tenta ter diálogos com Carlos fora dos lençois e ter mais atenção de Roberto. O triângulo amoroso acaba sendo mais uma forma de visualizar o esvaziamento e as complexidades das relações interpessoais. 


O jovem ator Vinicius dos Anjos poderia ter sido melhor incorporado à dinâmica dos outros três personagens. Ao andar pela cidade como um menor marginalizado, a todo o momento, a busca mais imediata de um espectador atento é compreender qual é a relação dele com Carlos e se a função de Exu é apenas mostrar ao público que uma criança negra não tem chances decentes na sociedade ou será Exu, um anjo protetor a trazer positividade  e uma necessária mudança na vida de Carlos. Infelizmente, o roteiro não evoluí no desenvolvimento desta relação e caberá ao espectador sonhar que Carlos e Exu darão certo na vida, imaginar algum bom futuro para eles.






Apesar da influência do Cinema Marginal, tanto que o diretor dedica o filme ao saudoso Carlos Reichenbach, a cinematografia não chega a ser decadente e crua ao extremo. A edição de Idê Lacreta e Paulo Sacramento é um diferencial e a melhor virtude. Ela sustenta a própria intenção da narrativa não linear proposta por este argumento. Ela une todas as pontas do drama onde os diálogos e as ações faltam.  Há um refinamento contemporâneo nos enquadramentos da fotografia e cortes e  montagens que aproveitam os recursos visuais do digital para fundir o realismo e o lúdico, o palpável e o fluxo de pensamentos, sensações e imaginação. Dessa forma, Riocorrente consegue elevar sua qualidade cinematográfica ainda que seja um filme com momentos irregulares.




Ficha técnica do filme Imdb Riocorrente


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