segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mil vezes boa noite (2013), de Erik Poppe





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


Após realizar Águas turbulentas , drama visceral sobre o recomeço de um homem às voltas com os fantasmas do passado, em  Mil vezes boa noite (Tusen ganger god natt), o diretor Norueguês Erik Poppe se empenha em abordar o drama de uma mulher. Rebecca (Juliette Binoche) é uma renomada fotógrafa de guerra que, após a explosão de um conflito terrorista em Cabul, retorna à sua casa e fica dividida entre a família e a sua vocação e demandas de sua profissão. Seu marido Marcus , interpretado por Nicolaj Coster - Waldau (de "Game of Thrones" e "Segunda chance"),  assim como as filhas Steph (Lauryn Canny) e Lisa (Adrianna Curtis) não suportam mais o medo de perder Rebecca, resultando em um drama familiar sobre quem  vai embora e quem permanece em casa.




A boa intenção do roteiro é narrar a ambiguidade de Rebecca entre os seus papeis de mãe e esposa e o desejo feroz de liberdade e de fotografar as zonas de conflitos armados. Sua fotografia de guerra é como uma missão de vida, um chamado, e na maioria das vezes, seguir essa vocação é incompreensível até mesmo aos entes mais queridos. A história evidencia que sua motivação não é uma questão financeira, de reputação e de envolvimento político, pelo contrário, é uma mulher sensível e corajosa que se empenha a correr risco de vida, a estar constantemente próxima à morte em ambientes inseguros, perigosos e imprevisíveis, pois tem uma força maior que ferve dentro dela, o de se comunicar com a fotografia e dizer ao mundo que há povos esquecidos e que morrem inocentes. Não deixa de ser uma missão de engajamento político, de denúncia das atrocidades humanas.





Apesar de um roteiro bem intencionado e de uma grande atriz como Binoche, Mil vezes boa noite é irregular em variados pontos da narrativa e não consegue ultrapassar um alto nível que poderia colocá-lo em um status de excepcional drama.  Isso ocorre em função de não criar críveis situações de conflito entre ela e a família e não desenvolver muito bem os posicionamentos do marido que, em boa parte do tempo, age como um homem intolerante e não disposto a compreender os aspectos da carreira da esposa. O amor expresso por ele segue a convenção do homem que comanda o lar e demonstra o  lado mais machista da relação, e ele não consegue ultrapassar essa barreira em melhores diálogos com a esposa. Medo de perdê-la? Sim, porém, mesmo diante desse risco, ele é um personagem que não evoluí na trama. Além disso, por mais que Rebecca tenha que vivenciar as contradições entre abandonar a carreira e viajar para mais uma zona de guerra, sua personagem fica bastante isolada no seu próprio drama e tem interação quase nula com outros coadjuvantes que não contribuem para as complexidades da questão. Felizmente, bons momentos com a filha Steph  garantem certa comoção.




A qualidade desse filme é sustentada pela experiente atuação de Binoche e pelo estilo de direção de Poppe que dá maior fluidez ao realismo na estrutura dramatúrgica escolhida. Como a maioria dos dramas noruegueses, é um Cinema mais cru na sua essência humanista, embora Águas Turbulentas é muito mais visceral, intenso. Dessa vez, fica claro que o diretor suavizou a direção e seus elementos e locações em cena, enfocando bem mais a personagem de Rebecca, seu estranhamento no próprio lar, suas dúvidas e tentativas em ser alguém que ela não é, em abandonar algo que é um dos sentidos de sua vida. Binoche trabalhou bem ao mostrar as vulnerabilidades de uma mulher forte, acostumada a ver mortes em áreas de guerra, como toda boa mãe ausente por questões profissionais, ela sente o peso da culpa e o deslocamento em ser quase uma estranha em sua casa.





Como drama familiar, o longa ajuda na compreensão de que há escolhas que são caminhos sem volta (ou de difícil volta) e que, se uma pessoa escolhe uma profissão que dificulta a construir uma família ou que exige um desapego geográfico e interpessoal, deve pensar duas, três ou mais vezes. Aqui, o conflito é mais dramático porque é retratada a dor daqueles que permanecem em casa, que sofrem não apenas com a ausência, mas com o medo da morte de quem amam. Os filhos são os mais impactados e o terceiro ato comprova a importância da aceitação. Nos mais belos momentos da narrativa, o maior conflito de Rebecca é aceitar a sua missão de vida e estar segura de que os outros também compreendem a sua vocação e sua dor ao partir. Ela não encontra muito espaço para dialogar sobre isso, o que acaba contribuindo para as dificuldades de sua escolha.  Nunca é fácil seguir um caminho que poucos compreendem, mas os que realmente amam e estão sensíveis aos sacrifícios, sabem entender as diferentes missões de vida.







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