segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fogo no mar (Fuocoammare, 2016), de Gianfranco Rosi



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Gianfranco Rosi é um nome de ponta a ser lembrado quando o assunto é Cinema documental. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza com o filme Sacro em 2013, ele conquistou mais um grande prêmio que reconhece a sua sensibilidade e primor técnico na direção: o  Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2016 com Fogo no mar (Fuocoammare). Distribuído pela Imovision e o filme de abertura do Festival internacional É tudo Verdade 2016, o documentário  aborda um tema contemporâneo e bastante nevrálgico : a crise imigratória na Europa, através do drama de refugiados da África e do Oriente Médio que chegam à Ilha de Lampedusa, no Sul da Itália, reconhecida como uma das principais entradas de imigrantes ilegais no continente.









Para esse recorte cinematográfico, Rosi seleciona um período histórico dessa Ilha, ocorrido em 2014, quando milhares de Africanos, em sua maioria nigerianos, morreram ao chegar à Lampedusa. Paralelamente e, de forma brilhante, Rosi ressalta o talento excepcional de um bom documentador: deixa a câmera fluir com mais naturalidade, mostra que não há tantas fronteiras narrativas entre o documentário e a forma tradicional de fazer Cinema (ficção) e apresenta os habitantes locais da ilha, seu dia a dia bucólico e dedicado à família, à pesca e ao mar, além do médico Pietro Bartolo, seus cuidados com os enfermos, sua empatia e senso humanitário e demais informações sobre episódios ocorridos com os refugiados. Ao público é apresentada a ilha como um personagem, e como destaque, o protagonista é o garoto Samuele Pucillo. 







Genuinamente carismático, bem humorado e em fase de amadurecimento, Samuele traz graça a um documentário que carrega um tema trágico. Com suas brincadeiras, espírito de liberdade e jeito autêntico, ele suaviza o drama  e explora a ilha para que o público possa  compreender que, enquanto botes de imigrantes chegam à Ilha, muitos refugiados morrem e outros são resgatados,  aquela população local continua vivendo como  um mundo à parte, como se tivesse parado no tempo e eles permanecem ingênuos diante de tanta tragédia. Este é um aspecto narrativo de intensa e realista força dramática e acaba sendo um contraponto entre o mundo da ilha e o mundo externo à ilha. Se analisada objetivamente a crise dos refugiados na Europa, por exemplo, de maneira geral, as pessoas estão distantes desse drama. É algo que só é percebido quando aparece na TV por mais que cause comoção mundial. 


Mas cabe mencionar que não são apenas os olhos ingênuos de Samuele como lunetas desse tempo. Existe a voz da razão, lúcida e equilibrada com a sensibilidade: a voz do médico. Ele é o personagem que, por alguns minutos, mostra a triste realidade de tantas tragédias anunciadas. De uma maneira assertiva, ainda que Rosi não teve tanto acesso a um amplo material  sobre os refugiados e nem era parte da estratégia da direção entrevistar vários deles, o cineasta soube aproveitar a visão crítica de um especialista em saúde para oferecer um importante momento de reflexão às pessoas; aquele momento no qual a primeira tentativa é entender o porquê de tantos refugiados se lançarem ao risco de morte para realizarem o sonho de viver melhor em outro país e como as condições são brutais e de alta vulnerabilidade.






Embora esse seja um documentário que não agradará facilmente a todos, considerando que ele não é padronizado por entrevistas e exploração exaustiva de personagens e de outros documentos como fotos, jornais, vídeos etc, sua preciosidade como Cinema é o seu realismo documental, sua narrativa concebida com liberdade poética e liberdade no registro. Nada é muito engessado na contação da história, pelo contrário, Rosi deixa a câmera transitar  livremente entre os corpos e rostos dos refugiados, do bote à averiguação médica e o resgate, porém, existe um respeito, ele não invade  sua intimidade, sua dor de uma maneira inconveniente, abrupta. Ele testemunha o que foi possível e é bastante preciso na montagem, intercalando os cortes entre as histórias da ilha e a dos imigrantes, dando espaço para a poesia visual, para o valor de Lampedusa e o seu mar. E, as emoções ainda permanecem fortes em toda a projeção porque o silêncio, o medo e a expressão de solidão de quem é estrangeiro, sem casa, sem dinheiro, sem família e amigos se perpetuam na câmera de Rosi e isso, por si só, é dilacerante e incômodo.





Ficha técnica do filme Imdb Fogo no mar
Distribuição: Imovision
Estreia no Brasil: 28 de Abril de 2016



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