terça-feira, 3 de maio de 2016

Dois Rémi, Dois (Deux Rémi, Deux, 2015), de Pierre Léon



Presente no Festival de Locarno e Festival de Mar del Plata 2015



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Com o lançamento de Dois Rémi, Dois (Deux Rémi, Deux), primeiro filme de Pierre León distribuído no Brasil, o diretor russo radicado em Paris concilia dois elementos de sua admiração: a obra de Fiódor Dostoiévski e o ator Pascal Cervo. Conhecido pela adaptação de "O idiota" (L'idiot,2018), León busca inspiração novamente no escritor através de "O Duplo". No roteiro, escrito por ele e pelo diretor de Arte e figurino Renaud Legrand, Rémi (Cervo) é um homem de 30 anos, tímido e inexpressivo. Ainda que seja uma boa pessoa, Rémi é como Goliadkin, inseguro, com um trabalho burocrático e com uma imagem que transmite baixa autoestima e uma sensação de um ser deslocado no mundo. Sua amizade mais próxima é com Delphine (Luna Picoli -Truffaut, neta de François Truffaut), com a qual tem uma relação ambígua entre a amizade e o flerte. Certo dia, ele encontra o seu duplo, um outro Rémi boa pinta, autoconfiante e sedutor que entra em seu cotidiano e afeta suas relações e lugar social, mas também propicia que ele reflita sobre sua identidade e tenha mais ação.





"Pascal Cervo é um dos melhores atores que conheço, o mais imaginativo, e engraçado também" (Pierre León)


Pierre Léon escreveu esse roteiro em um formato bem minimalista, como uma comédia leve e misteriosa de 66 minutos e inspirado a trabalhar com Pascal Cervo. Ter o ator em dose dupla é um acerto que está além da admiração do diretor. Cervo tem várias qualidades, entre elas, ser um peculiar comediante francês, de alta credibilidade para filmes que saiam do lugar comum: carismático, dócil, engraçado e estranho. Conhecido pelos  últimos trabalhos de Paul Vecchiali distribuídos no Brasil pela Supo Mungam films como "Noites Brancas no Pier" e "É o amor", Cervo é bastante versátil e que cai como uma luva em comédias que se diferenciam por personagens excêntricos, engraçados e ambíguos. Ao lado de Luna Picoli - Truffaut, de delicada beleza, concentrada atuação e promissora carreira, essa comédia tem frescor e graça.




Sobre Luna Picoli - Truffaut: "ela é a verdadeira personagem adulta do filme" 
((Pierre León))


Ao abordar a questão do Duplo, a construção da narrativa preserva autonomia com relação à emblemática obra de Dostoiévski porque se impõe como uma comédia dramática que provoca continuamente a curiosidade e o riso  discretos e não apela para o lado grotesco, psicologicamente perturbador do duplo. Rémi autoconfiante está ali como uma sombra de Rémi abobalhado, como um fantasma invasivo que o persegue e deseja tomar o seu lugar, entretanto, o que seria bizarro torna-se divertido e inicia uma reflexão filosófica.  Quantas vezes há o desejo de que o nosso  "outro" socialmente mais atrativo e audacioso tome o lugar em situações mais desafiadoras? Quantas vezes o desejo imperioso é que sejamos notados e valorizados e não rejeitados como seres medíocres, apáticos? Faz parte do processo de análise dos duplos.





Técnica de iluminação em cena: azul e laranja em referência ao duplo.




Ainda que o filme termine muito rapidamente, tinha espaço para estender a narrativa e peca ao deixar um sabor de "quero rir mais", aqui, o que vale a pena é como Pierre Léon aproveita a inspiração temática, todo o ambiente cenográfico com um impecável equilíbrio na iluminação azul - laranja, bem apoiado pela direção de Arte de Renaud Legrand.  Seu filme tem luz própria e um DNA inventivo, uma mistura de realidade e imaginação, cinematograficamente colorido. O longa também evoca um humor agradável, que preserva certos picos mais engraçados no texto ainda que o protagonista tenha suas oscilações depressivas e sua vida seja entediante. No mais, faz uma produtiva parceria com Pascal Cervo e sua singular habilidade cômica nas produções Francesas. Mais uma vez, Cervo é seguro e eficiente para ser divertido até em situações dramáticas. Olhá-lo na tela grande é como pensar: "o melhor remédio é rir de nós mesmos. E por que não do nosso duplo?"





Ficha técnica no Imdb Dois Rémi,Dois
Distribuição: Supo Mungam Films
Estreia no Brasil: 28 de Abril de 2016
Citações entrevista de Pierre León - uma cortesia Supo Mungam Films


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